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Published on Fevereiro 7th, 2010 | by Manaíra Athayde

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Marcello Sampaio: «O cinema português não tem grande distribuição no Brasil»

Elemento Criativo é a marca do jovem realizador brasileiro Marcello Sampaio. Esse slogan marca os organizados site e blogue do estudante de Ciências da Comunicação e representa bem o trabalho que tem vindo a desenvolver. Com apenas 24 anos, Marcello já trabalhou como documentarista, realizador de telediscos e publicitário. O documentário Além Do Que Se Vê foi seleccionado em 2009 para o Los Angeles Brazilian Film Festival, um dos maiores eventos do cinema brasileiro nos EUA.
Com três curtas-metragens no Festival de Cinema Bragacine, Marcello Sampaio concede uma entrevista à FEST MAGAZINE em que revela porque deixou o Brasil para estudar e produzir em Portugal.

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"A Arquitetura" de Marcello Sampaio

A sua curta-metragem Um Homem Chamado Maria acaba de ser premiada no Festival de Cinema Bragacine. Como é que esses festivais ajudam no intercâmbio de produções cinematográficas entre Brasil e Portugal?
Ajudam no sentido de estimular a co-produção. Há o reconhecimento do cinema brasileiro por cidadãos portugueses, mas o cinema português não tem grande distribuição no Brasil. Mesmo eu, que sou realizador e pesquisador em cinema, nunca tinha visto qualquer filme de Portugal. Conhecia de nome o Manoel de Oliveira, mas nunca havia visto quaisquer películas dele.

Há poucos meses saiu do Rio de Janeiro para continuar o curso na Universidade do Minho, em Braga. Estudar em centros europeus é mais relevante para se aprender a fazer cinema ou para se ganhar projecção?
Muito mais para ganhar projecção. Tenho-me dedicado extra-curricularmente ao estudo e à produção de curtas-metragens de ficção e documentário e acho que é esse constante exercício de produzir que é a minha verdadeira escola. É no set de filmagem que aprendo a fazer cinema e também em leituras, participações em festivais, ver muitos filmes, apreciar artes dramáticas e plásticas também ajudam a ter um olhar mais apurado.

Porquê ter os olhos focados na Europa, se o Brasil é hoje considerado um pólo com grande potência a nível mundial?
Porque é aqui a casa do cinema. É aqui que acontecem os maiores e mais respeitados festivais do mundo. Os maiores e melhores realizadores que conheço são ou construíram aqui na Europa as suas melhores obras. O Brasil tem grandes produções e está numa constante reformulação cinematográfica, o que permite esta tal ascensão citada por si, mas mesmo os cineastas brasileiros, digo, os grandes cineastas brasileiros buscam aqui na Europa o seu reconhecimento. Isso sem falar na inexplicável experiência que se adquire conhecendo a diversidade cultural dos países europeus.

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"Insegurança" de Marcello Sampaio

Presenciamos cada vez mais filmes com uma linha ténue entre o real e o ficcional. Isso também pode ser visto nos seus filmes?
Sigo o pensamento que cinema serve para emocionar e nos transcrever. Para mim, a ténue linha entre a realidade e a ficção sempre esteve presente no cinema, é o que me transporta para dentro da tela e que me faz ser parte da história. No caso do documentário há uma tendência clara dos realizadores em manipular o que se vê, quase que dirigindo os depoimentos como se fossem partes de um guião. Há uma regra tradicional e considerada antiquada de documentar apenas o real, registar o que se é dito sem que haja qualquer influência do realizador.

Então não existe a imparcialidade…
É ingenuidade achar que o realizador não manipula os entrevistados com as perguntas que faz ou ainda com as reacções físicas que exprime a partir das respostas deles, mas no caso do filme Um Homem Chamado Maria, não tive pretensão alguma de emocionar alguém, ou criar uma história fantástica sobre a vida do meu avô. Queria era documentar as histórias dele, deixar guardada para a família a própria história das nossas vidas. Só depois, na montagem, é que percebi que o filme contava não só a minha história de vida, mas a história de vida de muitas das pessoas que assistem. Daí esse filme ser muito mais real que ficcional.

A técnica pode suprimir a criatividade e a originalidade de um guião?
Definitivamente não. É o caso de Um Homem Chamado Maria. Havia ali a técnica que poderia ter sido melhor aplicada se houvessem quaisquer equipamentos necessários para fazer um bom filme em relação a aspectos técnicos. Foi todo feito com uma handycam com problema de foco, um tripé que não girava e um microfone de mão. Era para escrever o guião, filmar, fazer o foco, entrevistar, verificar o som, perceber a posição do sol (a iluminação), montar e sonorizar o documentário. Foi sofrível. Obviamente há uma qualidade questionável da imagem e do som, mas é um filme que emociona. Que toca lá no fundo da alma. Que me tocou e tocou a todos que participaram. E também quem o assiste. Porque as pessoas se identificam de tal maneira que se vêem participantes da história, que sentem-se íntimas dos entrevistados. Esse, sem dúvida é exemplo da afirmação que fiz no começo, que a técnica não suprime a criatividade e a originalidade de um guião e de um filme em si. Num ambiente onde não havia aparelhagem técnica necessária e equipa, foi a criatividade que se fez valer. Orgulho-me muito desse filme por conseguir, a partir de um objecto tão óbvio para um documentário que é a vida de uma família e um homem comuns, transformá-lo em algo tão tocante. Apaixonante. O filme é movido por amor e esse foi o objectivo. É lógico que se tivesse em outro panorama, com estrutura e equipa, o documentário poderia ser ainda melhor, mas se não pode ser, que bom que foi assim.

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