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Cinema e TV no image

Published on Fevereiro 3rd, 2010 | by Manaíra Athayde

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Uxía Blanco: «Acredito que todos nós somos pó de estrelas»

Há vinte anos estreava na Galiza o filme Sempre Xonxa, a primeira película de ficção gravada em língua galega. É nesse filme que Uxía Blanco, a então protagonista Xonxa, ganha projecção e se torna uma das principais actrizes da TV e do cinema galego. A consagração do sucesso ocorre com o filme A Língua das Mariposas, que percorreu salas de cinema em vários lugares do mundo no final dos anos 1990.
Em entrevista realizada no Festival de Cinema Bragacine, Uxía fala sobre as suas transformações ao longo da carreira, sobre o impacto do passado na realização de projectos actuais e sobre a produção artística galega no panorama espanhol. A actriz conta ainda, com grande sensibilidade e em tom intimista, sobre as suas crenças religiosas e sobre a sua relação com o processo de envelhecimento e com o ideal de eternidade.

É uma artista muito dinâmica, mas está sempre a dizer que não faz nem um terço daquilo que gostaria. Quais as suas actividades nos últimos tempos?
Este ano está a se comemorar na Galiza os vinte anos da película Sempre Xonxa, em que fui a protagonista. As comemorações estão a ocorrer com o lançamento de películas no Festival Cine Galício, que se inaugurou então. Estou numa série da televisão galega que se chama Padre Casales e tenho um programa sobre cinema, o Planeta Cine, que se exibe todos os Sábados à noite. Ainda estou trabalhando na rádio galega, num programa de temas de opinião. Ah, e também estou a escrever o guião de uma curta-metragem. Até então só havia escrito um guião, em 1984, que foi o da curta O Segredo, em parceria com Daniel Domínguez. Agora quero dirigir uma curta que se chama Roy Roy Caracol e uma outra que se chama Coser e Calar, sobre a história de uma costureira.

É por curiosidade ou por necessidade que passa para trás da tela?
Comecei atrás da tela, mas sempre gostei de estar diante das câmaras. Agora chega o momento em que quero fazer histórias que não estão contadas e tenho essa oportunidade. Todavia, o meu projecto artístico é mais amplo, estou trabalhando com artes plásticas; faço pinturas e já realizei várias exposições, inclusive acabei de expor na Alemanha. Agora estou trabalhando com um grupo de mulheres a respeito do tema Coser e Calar. O trabalho é uma denúncia sobre a condição feminina; ao longo dos tempos a mulher tem sido escrava na nossa sociedade e ainda tem um longo caminho a percorrer para conseguir a igualdade com os homens. Vou tratar o tema em que o pensamento que vai tecendo a ideias a partir de muita reflexão, de muitas leituras. Queremos fazer uma grande exposição de denúncia de tudo isso porque pensamos que as mulheres necessitam das mesmas possibilidades e das mesmas oportunidades que os homens. Tudo o que façamos em prol da libertação e da consideração da mulher é pouco para as situações que ainda existem hoje em dia.

As questões sociais sempre foram muito importantes na produção artística galega. A arte serve como intervenção social e possui a obrigação de transformar realidades? Ou a função artística já tem o seu valor na própria ideia da “arte pela arte”?
A arte tem valor em si mesma, mas acredito que o nosso pensamento e os nossos desejos íntimos transmitem tudo aquilo o que fazemos e, dessa maneira, a arte serve sim para transformar. Não devemos utilizar a arte ao serviço de uma doutrina, mas a favor daquilo que nós sentimos diante de algo. Toda a nossa força de expressão está ali. A arte deve servir para expressar e acompanhar as nossas ideias de liberdade e de igualdade.

Como vê a actual produção cinematográfica na Galiza?
Agora houve uma mudança de governo. O governo anterior apoiou muito o cinema galego e a produção de audiovisuais de maneira geral, ajudou-nos a ter êxitos. Mas agora não sabemos se esse novo governo vai seguir apostando no cinema. Esperamos que se dêem conta de que o cinema vale não só culturalmente, mas também económica, social e politicamente, porque hoje na Galiza há muitas família que vivem da indústria audiovisual. Espero que não nos deixem morrer.

O cinema galego sobressai-se no panorama do cinema espanhol?
Neste momento, há uma película galega que em Espanha está a ter muito sucesso, a Celda 211, de Daniel Monzón. A maior parte dos actores é galega, são quase todos jovens, e a história é sobre o motim num cárcere. Essa película tem disputado com películas muito maiores, como o filme Ágora, do reconhecido Alejandro Amenábar. Isso demonstra que o cinema galego tem força sim e é capaz de se manter não só na Espanha, mas em vários outros lugares. Temos que citar também o cinema de animação galego, que está tendo êxitos muito grandes no mundo todo. Penso que a Galiza tem um importante lugar no cinema, mas sempre necessita dos apoios das instituições.

Numa época em que o cinema sobrevive tanto da tecnologia, o cinema galego parece apostar no outro lado, que é concentrar esforços na função emotiva e na estrutura criativa do guião…
Estou de acordo, mas isso quando nos referimos ao início do cinema galego. Hoje em dia, a gente nova conhece muito mais a técnica do vídeo, as múltiplas possibilidades tecnológicas. Se houver oportunidade, esses artistas criarão películas com tecnologia muito avançada, mas tenho receio de que acabem por achar que o mundo digital supre a essência do cinema.

Não acha que vivemos na era do tecnicismo, em que as pessoas – quer sejam os produtores, quer seja o público – estão mais focadas na técnica?
Falava agora mesmo com um amigo sobre essa película que está na moda, o filme 2012, que retrata o fim do mundo. Ali, 80 por cento é técnica. No cinema o importante é transmitir uma emoção e a técnica tem que estar a serviço dessa emoção, penso eu. Vou ver películas cheias de aparatos técnicos e parece que estou a ver uma máquina repleta de efeitos especiais, e não gosto disso porque não me produz uma emoção. Penso que o cinema tem que agarrar esse espaço emocional e toda a tecnologia tem que estar a serviço disso. Uma festa de bombardeios técnicos acaba com qualquer obra.

É incómodo pensar que hoje o artista aparece mais nos media do que a própria obra?
Quando há uma película em que os artistas não são conhecidos, mas é uma película muito bonita, acabamos por ir ao cinema e adorar essa película por si mesma. Então a obra supera o artista, penso que isso é o importante. Às produtoras interessa muito ter artistas que convoquem muita gente, daí esse excesso de marketing e publicidade. De repente fazem-se muitas cópias de uma mesma película só porque lá estava determinado artista. Se o filme for mau não importa, o que importa é o dinheiro.

Em relação aos festivais, actualmente são muito distintos de quando começou a carreira?
Há festivais muito diferentes. Existem aqueles muito rigorosos na organização e na escolha de películas ou mesmo no próprio projecto do festival, que é a base de tudo. Todavia, há outros festivais que são menos exigentes. Mas penso que não é questão de anos, existem festivais que desde o começo tiveram rigorosidade e por isso permanecem como referência, como é o caso do Festival Internacional de San Sebastián, a que fui recentemente.

Mais de duas décadas de carreira é o suficiente para aprender a envelhecer ou para aprender a rejuvenescer aquilo que envelheceu?
Sinto que trabalhei muito pouco e que quero fazer muitas coisas, tenho vontade de fazer muitas coisas. Sinto sempre que o tempo está passando e que tenho a ilusão de que não está. Seria tão bom que uma actriz pudesse ter outra vez quinze anos se tivesse um papel de quinze anos ou noventa se o papel fosse de noventa. Mas a vida é esta nossa, esta que passa, que sucede, que não volta, estamos com a cabeça cerrada num corpo enquanto passam-se os anos. É difícil dar-se conta de que algumas coisas não se pode mais fazer porque não se pode ser mais menininha. Então, se queres contar essas coisas, acaba de ter que escrever histórias para que se veja nos olhos de outra menininha aquilo que não se pode ser, porque o tempo é assim. O ser humano é uma grande tragédia. A sua limitação, a finitude, todos temos que morrer. Então o tempo é inapelável e assim procuramos todos os dias da vida coisas novas para fazer, com aquela tal ilusão de que o tempo não passa.

Então a consciência sobre o fim das coisas faz com que a ideia de eternidade esteja atrelada ao presente. Eterno é o estado das coisas aqui e agora…
Penso que nós estamos aqui nesta realidade, mas no dia em que desaparecermos devemos nos tornar parte do cosmos. Acredito que todos nós somos pó de estrelas e não creio que isso seja ruim porque o dia de amanhã, assim como acontece com o corpo, vai se desfazer e voltarei a formar parte da terra, do mar, do vento… Isto sim não me parece uma tragédia.

É que a ideia de eternidade é muito próxima da sua profissão, os personagens a quem deu vida são eternizados com a sua imagem.
Quando era pequena queria ser monja porque me parecia que era o caminho mais curto para ganhar uma eternidade bonita, queria o céu. Agora creio que o céu e o inferno estão aqui em nós. Se somos boas pessoas, se trabalhamos bem, se amamos a gente, se damos felicidade, isso é o céu; e se nos comportamos mal com os demais e fazemos coisas ruins estamos num verdadeiro inferno. Então, quando escolhi actuar, o feito de ser actriz parecia também que me dava um pouquinho dessa eternidade que sempre vai ser pequena porque tudo vai desaparecer algum dia, inevitavelmente. É muito bonito pensar que este momento que vivemos agora, por exemplo, é mágico porque podemos conservá-lo no tempo, é muito lindo isso.

Então, para a Uxía, é Deus quem administra essa eternidade?
Fui uma menininha que cresceu querendo ser monja e que tinha uma fé enorme na religião Católica, não propriamente num Deus, mas na religião. Depois, ao ir crescendo e estudando, percebi que o mundo não era assim exactamente como dizia a Igreja. Hoje penso que sempre devemos fazer o bem aos demais, nunca ofender ninguém e respeitar as crenças de todo o mundo. Então, Deus seria quem está acima de tudo isso e que nos ajuda a fazer essas coisas, inclusive faz-nos conscientes de quem somos e da nossa própria mortalidade. A eternidade é mais uma ilusão, assim como a negação à passagem do tempo, de que falei agora a pouco. Sem querer falar sobre qual é o deus de cada quem, eu respeito a crença de todos, mas não vejo o deus em que acredito com características humanas.

Desde o início da sua carreira quais as mudanças mais visíveis no seu diálogo com o mundo?
Penso que o que mais mudou foi o amadurecimento que se vai adquirindo. Busco na minha vida um equilíbrio comigo mesma e com o meu entorno. Procuro compreender o mundo e ajudar as pessoas que me cercam a encontrarem o seu equilíbrio, para que façamos assim um mundo um pouco melhor. Mas, sabe, no fundo não creio que muitas coisas mudaram. Acho que o que mais mudou foi a nossa relação com a tecnologia, que avançou infinito. Não havia internet nem telemóveis. Hoje existe outro jeito do ser humano se comunicar e outro jeito de se olhar através da tecnologia. Entramos na era cibernética, o que nos permite outras apreensões de mundo.

Contudo muitas vezes esse desenvolvimento tecnológico não nos traz tanto conforto e bem-estar, pelo menos não quanto se diz…
Estava mesmo agora numa cafetaria com alguns amigos e observamos que vários jovens estavam diante de um portátil e se encontravam completamente “ilhados” do resto. Antes uma cafetaria era um lugar para se relacionar com outras pessoas e agora já não é assim. Penso que o problema é essa comunicação com todo o mundo, teoricamente. Creio que o abuso disso está a resultar no “ilhamento” das pessoas, isso me parece muito perigoso, parece que distancia as pessoas de sua própria felicidade. Os seres humanos necessitam um dos outro para compartir, para sorri, para falar, para comunicar, para abraçar; penso que é necessário o contacto humano e que levamos ao extremo a tecnologia, como acontece ao levarmos o nosso portátil para uma cafetaria ou estarmos a todo tempo falando ao telemóvel ou ligados nas mensagens. Temos que reflectir um pouco sobre nós mesmos e buscar espaços para nos proteger do excesso da tecnologia. Precisamos estar mais atentos ao ser.

Como é a Uxía hoje com a sua própria imagem?
Não sei. Penso que gosto da imagem que tenho. Os anos vão passando e não sei… Não penso muito na minha imagem, vejo-me através das pessoas ao meu redor. Gosto de me ver mais no sorriso da gente onde estou, se estão felizes, sinto-me melhor. Mas para uma actriz é muito complicado pensar na sua imagem.

Todos nós passamos por transformações contínuas, mas a sua profissão possibilita ver claramente as mudanças.
Creio que sou uma pessoa positiva, de forma que penso: «hoje sou menos nova, mas sou mais sábia». A experiência é muito importante e quanto ao tempo, não pode ser de outro jeito, não podemos fazer nada contra isso. Então é melhor colocar o esforço em coisas bonitas, como escrever, pintar, ler poesia, estar com os amigos, passear, fazer filmes. Todos os tempos são bonitos; uma árvore, por exemplo, vai se transformando com o passar dos anos e também tem uma beleza muito grande, a tal ponto que apreciamos uma árvore centenária, cuidamos dessa imagem que denuncia um século. O que se passa é que as pessoas têm desvalorizado os mais velhos e hoje todo o valor se coloca na juventude. Penso que isso é um equívoco e que devemos valorizar as pessoas mais velhas pela sua experiência, e então não seria tão traumático para a gente completar anos, porque ao completar anos, os ganhos são outros.

Quando pensa na Galiza, o que vem à mente?
A Galiza é a minha casa, então quando penso na Galiza penso em paisagens verdes, no mar, na riqueza natural, no trato directo com as pessoas. Na Galiza, assim como no norte de Portugal, a gente é muito autêntica, ainda está muito ligada a terra, tem uma forma de viver muito mais humana. Ah, a Galiza lembra-me também de várias comidas caseiras. É um país evoluído, está na vanguarda de muitas coisas, como no mundo da moda, da arte e também no mundo do audiovisual. É bom conservar esse equilíbrio entre a tradição e a modernidade, estar na vanguarda, mas ao mesmo tempo conservar as nossas raízes e tudo o que temos de bom humanamente.

A Galiza ainda é uma região com forte tradição católica? Essa é uma das estirpes com grande influência na sua vida?
Como havia dito, queria ser monja até os meus 14 anos. Foi quando percebi que as coisas não eram como os monges contavam, que o mundo é um pouco mais complicado. A religião Católica é muito forte na Galiza. Achava que era essa a religião que pregava Jesus Cristo, mas às vezes o que prega a Igreja não tem muito a ver com os ensinamentos Dele. O ponto de vista sobre a teoria da libertação é um exemplo dessas diferenças. Estou de acordo com toda as religiões que ajudem o ser humano a viver de um jeito digno e livre. Há muitas intolerâncias nas religiões, todavia, o que é terrível.

Quanto a Portugal, quais as suas proximidades com o país?
Adoro Portugal e penso que o povo português soube conservar muito melhor que o povo galego o seu património arquitectónico e artístico. Valença, no Minho, tem uma arquitectura parecida com a de Tui, a primeira cidade da Galiza, mas em Tui hoje em dia resta pouca coisa. Aqui em Portugal há muita limpeza e a gente portuguesa é muito bem-educada, tem uma herança inglesa. Quando venho a Portugal sinto-me em casa, porque penso que somos irmãos. E penso mesmo que agora o galego – uma língua em que não se pôde escrever do século 15 até o século 20 e que por isso sofreu com a perda de muitas palavras – deve recorrer à Língua Portuguesa, posto que vem do mesmo tronco. Acho que devíamos ter um idioma muito parecido com o português, isso faria com que Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Galiza somassem uma enorme potência, afinal somos 400 milhões de pessoas e penso que quanto mais falantes tem um idioma, mais forte é o seu povo.

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