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Artes no image

Published on Outubro 20th, 2010 | by Manaíra Athayde

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A Gaivota e o Vôo Imóvel

Uma peça dentro da peça. É assim que “A Gaivota”, encenada no Teatro Nacional São João no mês de Outubro, traz aos palcos uma das mais importantes obras do escritor russo Anton Tchékhov.

A encenação de Nuno Cardoso apreendeu com tamanha acuidade essa alma metalinguística que a peça encerra-se com a suspensão da grande tela ao fundo do cenário a expor os elementos cenográficos que são próprios da estrutura de palco. Esta é a expressão cénica encontrada para a metalinguagem de um enredo que aborda a relação do artista consigo e a observação de si no processo de alteridade. “Estou sempre insatisfeito comigo mesmo”, dizia o personagem que representava o escritor da trama, Medvedenko (João Castro).

“A Gaivota” é uma insistente reflexão sobre o interface entre o Teatro e a Literatura e a relação em que a forma e o conteúdo podem circunscrever a arte abstracta ou concreta. “A tua peça não tem personagens vivas, como nos livros”, diz Polina Andréievna (Cristina Carvalhal), a jovem actriz repleta de sonhos.

Além disso, encontramos uma narrativa com um conteúdo denso sob exaustivos diálogos: a peça é pensar na forma que a arte é capaz de dar à vida – ou mesmo aos sonhos. “O teatro não deveria falar sobre como a vida é ou como ela deveria ser, mas retratá-la como um sonho”, ainda completa Andréievna.

Numa outra passagem, a personagem começa a se questionar sobre a relação entre o artista concebido como um “génio no pedestal” e o artista visto com as fragilidades e a corriquerialidade humanas: “Eu não entendo como é que uma actriz tão famosa é capaz de chorar e um escritor com peças de êxito e traduzidas para várias línguas fica feliz em passar o dia a pescar”, reflecte Polina Andréievna.

É por essa dimensão existencial que a crítica que Tchékhov outorga ao teatro contemporâneo do final do século XIX é tão actual que as reflexões continuam assentando questionamentos sobre a relação forma/conteúdo na maneira como a arte é hoje concebida, tanto em termos pragmáticos quanto em carácter conceptual.

Gaivota

"A Gaivota", foto de João Tuna

“A Gaivota” reprimenda e ironiza um exacerbado romantismo próprio da época – com características, aliás, que se estendem até os nossos dias, principalmente pelo enredo telenovelesco. Neste interstício, nota-se mais uma vez os sinais metalinguísticos: critica-se a atmosfera romanesca da arte a partir de um constructo idílico, como se estivéssemos sempre a observar um sonho. O amor não é menos utópico: “Tem que ser sempre jovem, poético, que nos liberta”, dizia o personagem escritor, Medvedenko.

A plasticidade

Para representar cenograficamente toda essa atmosfera onírica, a plasticidade dá-se por meio de poças de água, sempre pisoteadas com força pelas personagens para que os pingos dêem a ideia de suspensão a todo o espaço (o chão nunca é sólido); troncos de árvores descascados e expostos verticalmente, tomando todo o cenário; e uma tela de fundo com luzes a determinar a sucessão de tempo. Todos esses elementos recriam o ambiente de uma floresta, que mais do que hermética e escura, ganha a leveza da continuidade que qualquer sonho evoca, afinal, o sonho só existe enquanto não for realizado.

Na primeira parte da peça, o balanço em que as duas personagens mais antagónicas da narrativa – Polina Andréievna, que simboliza a gaivota por meio de vestimentas sempre brancas e de grande leveza, e Nina Zarétchnaia (Maria do Céu Ribeiro), sempre vestida de preto, a representar como o destino é factídico ao ser humano ao conduzi-lo a inevitáveis desilusões – se embalam ao mesmo tempo contrasta com a coexistência de uma cadeira de rodas, que traz consigo a simbologia do imóvel, do que não consegue se locomover por si só.

Nesta passagem, não há somente o antagonismo entre a liberdade e a imobilidade, é mais que isto: trata-se de uma maneira de estudar – sim, porque a peça nos dá a sensação de que a narrativa é sempre o estudo da personagem sobre si mesma e a sua relação com aquilo que está para além do seu próprio mundo – como ambas coexistem e interagem entre si. Afinal, a cadeira de rodas pode simbolizar a imobilidade, mas ao mesmo tempo é o objecto que faz com que algo que não possa se locomover por si só movimente-se com a ajuda de terceiros.

É desta forma, então, que objectos e enredo ficam definitivamente alinhavados: todo acto não passa de uma ajuda desesperada que cada personagem oferece à outra, sem conseguir grandes êxitos pela enorme dificuldade de ultrapassar as redomas em que cada uma está inserida. O mundo é mesmo uma selva, ou melhor, uma floresta escura e perigosa encoberta de sonhos.

Não obstante, é por isso que a segunda metade da narrativa se passa sempre à noite. O palco é apenas iluminado por um candeeiro, escolha cénica, aliás, capaz de causar um certo desconforto ao público, afinal, torna-se cansativo à visão estar mais de uma hora sob o mínimo feixe de luz. A simbologia é efectiva, mas o resultado pragmático não é eficaz.

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"A Gaivota", foto de João Tuna

Por fim, a conjuntura da peça ganha o seu fastígio entre simbologia e atmosfera onírica com o ritmo da passagem do tempo sobre o lago que circunscreve o ambiente de campo em que se encontram as personagens. Sabe-se o lago pequeno porque “dá para ouvir a pessoa que canta do outro lado da margem”, como constata Arkádina (Lígia Roque), a mãe do protagonista. O lago e a sua pequenez anunciam água parada e margens estreitas: estão todos ensimesmados, a fluir sempre sobre o mesmo eixo, e o sonho de vôo, o sonho de gaivota é o lago em que “a lua toda brilha porque alta vive”, parafraseando Ricardo Reis. Ou como diria a poetisa Fiamma Hasse Pais Brandão, um lago repleto de seixos em que “cada pedra, um vôo imóvel”.

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