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Literatura no image

Published on Abril 19th, 2011 | by Carla Luís

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Fim de semana em Matosinhos passa LeV, levemente

Teve início no passado sábado, 16 de abril, a 6ª edição do LeV – Literatura em Viagem. A Fest Magazine esteve a acompanhar os dois primeiros dias do encontro que se prolonga até ao final do dia de hoje.

Uma viagem feita de itinerários mentais

Início da tarde de sábado, Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos – içam-se as velas e inicia-se a viagem pela voz do Comandante Proença Mendes que, na sessão “Sagres: volta ao mundo 2010 – crónica do Comandante”, relata a uma vasta audiência os momentos mais relevantes da sua aventura marítima a bordo do Navio Escola Sagres.

Segue-se a inauguração das exposições “De Goa a Lisboa – uma viagem no Navio Escola Sagres” de Joaquim Magalhães de Castro e “Subway Life”, de António Jorge Gonçalves, e os primeiros lançamentos do evento: “Banda Sonora para um regresso a casa” de Joel Neto (Porto Editora) e “Iberiana” de João Lopes Marques (Sextante).

A ronda das mesas inaugura com o tema “Viajo para educar o raciocínio”. Contando com as presenças de João Lopes Marques, José Ricardo Nunes, o brasileiro Marcelo Ferroni, Miguel de Carvalho, Rui Zink e Paulo Ferreira enquanto moderador, a primeira mesa ficaria marcada pelo humor do autor de “Hotel Lusitano”.

Os presentes na Galeria Municipal da Biblioteca Florbela Espanca ficaram a saber que João Lopes Marques coleciona países, a viagem é a mais profunda solidão para José Ricardo Nunes, Marcelo Ferroni é, acima de tudo, um viajante sedentário e que, para o jornalista Miguel Carvalho, o jornalismo do século XXI é uma viagem ao país sentado no sentido em que, cada vez mais, os jornalistas se remetem à secretária e às viagens que fazem no Google. A mesa foi encerrada com o tom humorístico de Rui Zink para quem a mais importante viagem se faz dentro de uma mulher (o autor esclareceria, de seguida, estar a referir-se aos 9 meses passados no útero materno). Rui Zink lembra ainda a etimologia da palavra “viajo” (vi + ajo), remetendo para a importância da visão e acção enquanto elementos centrais da viagem.

Da esquerda para a direita: João Lopes Marques, Miguel Carvalho, José Ricardo Nunes, Paulo Ferreira, Marcelo Ferroni e Rui Zink

Mesa 1 - João Lopes Marques, Miguel Carvalho, José Ricardo Nunes, Paulo Ferreira, Marcelo Ferroni e Rui Zink (da esquerda para a direita)

O dia termina com as intervenções de Joel Neto, José Abecassis Soares, Eduardo Sacheri, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares na mesa “Encontro-me a mim próprio viajando”. Gonçalo M. Tavares inaugura a discussão sugerindo que, por mais longínqua que seja a viagem, nunca conseguirá ir para além de nós mesmos e da nossa herança cultural e familiar. O autor de Uma Viagem à Índia refere que, classicamente, a viagem era o percurso, enquanto agora, quando falamos de viagem, é ao destino que nos referimos. De igual modo, o conceito de presença enquanto toque foi claramente ultrapassado pela possibilidade de nos transportarmos pela voz e pela imagem. Estamos onde está a nossa atenção, daí que faça cada vez mais sentido falar de viagem como itinerário mental.

Com uma intervenção mais sucinta, o argentino Eduardo Sacheri confessa colmatar a pouca frequência com que viaja com as viagens regulares enquanto leitor e José Abecassis Soares remete para o tema da mesa, confirmando que, de facto, se descobre a si mesmo através das viagens que faz. José Luís Peixoto que, até ao seu último romance, se confinava às viagens simbólicas dos seus personagens, constata ter, pela primeira vez, escrito um livro em que as personagens efetivamente viajam (o “Livro”), afirmando ser, talvez, o livro que mais contribuiu para a sua descoberta, por o ter levado a investigar sobre algo que não viveu, mas que marcaria a sua existência. A fechar a mesa, a leitura de “Terra Chã”, crónica auto-biográfica do jornalista e escritor Joel Neto.

Da esquerda para a direita: Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Joel Neto, Vítor Quelhas, José Abecassis Soares e Eduardo Sacheri

Mesa 2 - Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Joel Neto, Vítor Quelhas, José Abecassis Soares e Eduardo Sacheri (da esquerda para a direita)

Entre História, realidade e ficção

A vasta audiência que, no Domingo, tornou a acudir à Biblioteca Municipal Florbela Espanca veio demonstrar que, num combate entre praia e livros, leituras e escritores, a literatura pode perfeitamente sair a ganhar.

A abrir o segundo dia do encontro, Rui Zink volta a presentear a Galeria Municipal com um momento de humor a pretexto da reedição de “Hotel Lusitano” pela Planeta, 25 anos após a sua publicação original. Segue-se o lançamento de três novidades da Sextante: “Até ao Fim – a última operação”, de António Vasconcelos Raposo, “O profeta do castigo divino” de Pedro Almeida Vieira e “A cidade de Ulisses” de Teolinda Gersão, 14 anos após a publicação do seu último romance e na altura em que a autora celebra 30 anos de carreira.

Com moderação de Francisco José Viegas, a terceira mesa do encontro aborda o tema “Livros com História dentro”. André Gago inaugura a sessão homenageando a memória enquanto garante da História. Pedro Almeida Vieira sugere “livros com passado e presente” como alternativa ao tema da mesa, falando da viagem psicológica à memória (passado) para compreender o presente e perspetivar o futuro. Teolinda Gersão, num misto de intervenção política e lírica, fala-nos da História que se repete, com o país a enfrentar ciclicamente situações de crise, e de Lisboa, cidade aberta ao rio e ao mar, cidade de viagens, que termina no mundo. A mesa prossegue com uma proposta conceptual para a classificação do romance pelo chileno Leonardo Padura e termina com a leitura emocionada de um excerto de “Até ao Fim – a última operação” por António Vasconcelos Raposo, numa abordagem diferente do tema da guerra colonial.

Da esquerda para a direita: António Vasconcelos Raposo, Leonardo Padura, Francisco José Viegas, Teolinda Gersão, Pedro Almeida Vieira e André Gago

Mesa 3 - António Vasconcelos Raposo, Leonardo Padura, Francisco José Viegas, Teolinda Gersão, Pedro Almeida Vieira e André Gago (da esquerda para a direita)

A segunda mesa do dia, quarta do encontro, propõe uma viagem “Da Ficção à Realidade” na qual Filipa Leal, João Tordo, Laurent Binet, Luis Sepúlveda e Miguel Miranda discorrem sobre as fronteiras entre uma e outra.

Filipa Leal assume não gostar da realidade a não ser pelas potencialidades ficcionais que comporta. Laurent Binet defende que, por muito que diretamente relacionadas, importa distinguir entre ficção e realidade como forma de compreender e enquadrar realidades como a de Auschwitz. Num apontamento de humor, João Tordo conta como a realidade o levou à ficção, depois de uma carta de amor desprezada na sua adolescência, e Luis Sepúlveda brinca com os limites entre realidade e ficção afirmando que, ou a realidade se transformou, ou a ficção invadiu perigosamente o caminho da realidade. A sua intervenção é ilustrada com uma série de histórias insólitas, como a que dá conta de uma biografia segundo a qual Luis Sepúlveda teria nascido em 1919, antes mesmo do nascimento da sua mãe.

Mesa 4 - Laurent Binet, Luis Sepúlveda, Carlos Veiga Ferreira, Miguel Miranda, João Tordo e Filipa Leal (da esquerda para a direita)

Mesa 4 - Laurent Binet, Luis Sepúlveda, Carlos Veiga Ferreira, Miguel Miranda, João Tordo e Filipa Leal (da esquerda para a direita)

Entre uma mesa e a outra, o lançamento de “O homem que gostava de cães” de Leonardo Padura (Porto Editora) e “HHhH” de Laurant Binet (Sextante).

Entre mesas de debate, lançamentos de livros, conversas com escritores e troca de experiências, o LeV continua a afirmar-se como um dos maiores eventos literários do país, fazendo de Matosinhos ponto de convergência das mais diversas latitudes.

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