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Published on Julho 25th, 2011 | by Inês Henriques

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FMM Sines: O Mundo nos ouvidos e pelo corpo todo

Viajar até ao Alentejo já de si é bom. Claro, para quem goste de paisagens de tons amarelos, calor e horizontes a perder de vista. Sines foi o destino para os amantes da world-music, há uns anos chamada ao panorama mundial da música, quase como uma necessidade de cada um de nós tocar as origens. As nossas e as dos outros.

O Castelo de Sines é uma boa sala de espetáculos. Sobranceiro ao mar. Todos os dias, à hora em que o sol está a meia-luz, a música espalha-se pela cidade costeira alentejana. António Zambujo fez as honras da casa esta edição, abrindo o festival na sexta-feira. Há, de facto, qualquer coisa de diferente no fado deste alentejano, que encaixou plenamente no cenário, meio-medieval (a lembrar as muitas feiras que por esta altura abundam por todo o Portugal), meio-woodstockiano (ainda que a expressão possa não existir). Desse dia, ficou retido o trio palestianiano Le Trio Jourban, com os seus três alaúdes, e uma sonoridade que ainda hoje, segunda-feira, habita os ouvidos. Todo o mundo árabe contido nos sons emitidos, envolto em sensualidade ingénua.

E se quem por lá passava pensava que a noite seriam doces melodias, desengane-se. Secret Chiefs trouxeram o rock progessivo e as três chamadas ao palco mostram bem que, não sendo o que automaticamente está concebido como world-music, também acaba por o ser. Uma noite que fechou de forma diferente.

A noite de sábado, a mais concorrida, sem dúvida, foi, talvez a menos conseguida em termos de repertório. No entanto, António Chainho, com “LisGoa”, ao fim-da-tarde, promoveu um espetáculo de boa música, a mostrar que ‘velhos são os trapos’. Belíssimas as vozes de Isabel Noronha, no fado, e de Rubi, a indiana. Mamer e os Chinagrass, sem se poder dizer que foi mau, têm uma sonoridade industrial, talvez a mais difícil de se perceber. A fechar, músicos de vários cantos do Mundo, os Congotronics vs Rockers, a oscilar entre a boa música e a ‘cacofonia’, quando se percebeu que 20 podem ser, de facto, muitos.

O Festival das Músicas do Mundo não é uma aventura dos sentidos, principalmente, do ouvido. Quem é céptico, terá dificuldade em interiorizar e, talvez até, aproveitar o que o mundo, não só musical, tem de melhor. Aquele é um espaço de partilha, que, muito provavelmente, os outros festivais de verão não permitem. Faz-nos pensar, faz-nos descobrir, faz-nos alargar horizontes, dá-nos conhecimento. E acima de tudo, faz-nos sentir.

E, com tudo isto, se chega a domingo, fim do primeiro final de semana. Abriu de novo em português, com os Aduf e os seus adufes gigantes e seguiu para uma das coqueluches brasileiras, Luísa Maita, uma mistura de samba, jazz, eletrónica, pop e funk, numa voz melodiosa. Talvez ainda não tenha a ‘rodagem’ de palco suficiente e por isso se fica a aguardar se passa de revelação a artista com créditos firmados. Ainda assim a não perder de vista.

Do Brasil para a Galiza – o bom do festival é viajar quilómetros sem gastar quase nada e sem sair do lugar – com De Tangos y Jaleos. O flamenco cigano no seu melhor. E numa interação com o público que até ali ainda não tinha sido conseguida. Muito, também, pelo bom marketing, quando, a meio, deram asas a um medley português. Uma delícia. O encerramento ficou entregue a Ebo Taylor and The Afrobeat Academy, um dos mais consagrados músicos ganeses. Impossível ficar parado, ainda que depois de três dias de música, sol e mar, o corpo dê sinais de cansaço. Boa música para qualquer hora do dia, para qualquer ocasião. E de qualidade excelente.

O Festival de Músicas do Mundo de Sines prossegue na próxima quarta-feira (27 de julho) e termina no sábado (30).

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Programa – quarta, 27 de julho

Mercedes Peón (Galiza – Espanha), 18:45, Castelo
Multi-instrumentista e criadora genial, a galega Mercedes Peón traz a Sines um dos discos de fusão electro-acústica mais amados dos últimos anos, “Sós”.

Rakia (Portugal), 20:00, Av. Vasco da Gama
Formada por músicos ligados a grupos portuenses como Mu e Mandrágora, a jovem banda Rakia aposta na música de fusão com raízes espalhadas pelo mundo.

Manou Gallo & Women Band (Costa do Marfim / Bélgica), 21:45, Castelo
Cantora, baixista e percussionista, Manou Gallo é uma artista africana na diáspora. Fundada nas tradições do povo Djiboi, a sua música é um arco-íris de influências.

Mama Rosin (Suíça), 23:15, Castelo
A música crioula da América francófona inspira um dos jovens grupos europeus mais promissores. Do zydeco ao punk, a ordem de Mama Rosin é para dançar.

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Blitz the Ambassador (Gana / EUA), 00:45, Castelo
Unindo a rebeldia poética do rap ao poder instrumental das orquestras africanas, Blitz the Ambassador promete marcar o hip hop da segunda década do séc. XXI.

Mikado Lab (Portugal), 02:45, Av. Vasco da Gama
Autor de dois dos melhores discos de jazz feitos em Portugal, o trio liderado pelo compositor e baterista Marco Franco surpreende com a sua música retro-futurista.

Programa – quinta, 28 de julho

Shunsuke Kimura x Etsuro Ono (Japão), 18:45, Castelo
O Tsugaru-shamisen é um instrumento de cordas com um lugar especial na cultura do Japão. Kimura e Ono tocam-no com a imaginação do jazz e a energia do rock.

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Graveola e o Lixo Polifônico (Brasil), 20:00, Av. Vasco da Gama
Oriunda do estado brasileiro de Minas Gerais, a jovem banda Graveola e o Lixo Polifônico faz música onde materiais nobres e menos nobres se misturam.

Apsilies (Grécia), 21:45, Castelo
O quarteto Apsilies é um dos grupos mais destacados da nova geração da rebetika. O repertório da escola oriental do género é a base das suas experimentações.

Vishwa Mohan Bhatt & The Divana Ensemble “Desert Slide” (Rajastão – Índia), 23:15, Castelo
Um dos maiores inovadores da slide guitar indiana dialoga com um grupo cigano na tradição dos músicos dos antigos rajás. A alma do Rajastão num concerto imperdível.

Nomfusi & The Lucky Charms (África do Sul), 00:45, Castelo
Formada na rica tradição do jazz sul-africano e nas grandes vozes da música negra, Nomfusi apresenta em Sines o disco que a revelou ao mundo, “Kwazibani”.

Tuba Project feat. Bob Stewart (Roménia / EUA), 02:45, Av. Vasco da Gama
Entre a Dixieland e o free jazz, o Tuba Project do pianista e compositor romeno Lucian Ban dá à tuba a proeminência que lhe faltava no jazz contemporâneo.

Riddim Culture Sound, 04:00, Av. Vasco da Gama
Colectivo de selektas, DJ’s e toasters sem fronteiras, juntos desde 2004, em prol do reggae. Representam a união entre diferentes origens, culturas e vivências e demonstram que não existem barreiras quando o tema é música. No repertório, para além de originais como “Bun Dem Wicked”, “Discipline Man”, “Fly Me to the Moon”, “Fama”, “Babylon Police”, trazem na manga temas de ska, rocksteady, roots, dance hall, dub e afrobeat.

Programa – sexta, 29 de julho

L.U.M.E. (Portugal), 18:45, Castelo
Criado por Marco Barroso, o Lisbon Underground Music Ensemble é uma big band de autor com alguns dos melhores músicos portugueses do jazz e da clássica.

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Lousy Guru (Portugal), 20:00, Av. Vasco da Gama
Acabada de estrear em CD com “As Big as Divided”, a jovem banda portuguesa Lousy Guru faz pop com influências folk onde os jogos polifónicos são marca.

Ayarkhaan (República da Iacútia – Rússia), 21:45, Castelo
O trio Ayarkhaan lidera o movimento de revitalização da música da república russa da Iacútia. O canto gutural e o berimbau “khomus” são as suas ferramentas.

Marchand vs. Burger “Before Bach” (França), 23:15, Castelo
O terreno fértil das músicas modais inspira o projecto do cantor Erik Marchand e do guitarrista Rodolphe Burger. Mehdi Haddab (Speed Caravan) é convidado especial.

Dissidenten (Alemanha / Marrocos), 00:45, Castelo
Uma das bandas que mais contribuiu para abrir a música ocidental aos sons do resto do mundo traz a Sines as suas “Tanger Sessions”, fusão de rock e música árabe.

O Experimentar Na M’Incomoda (Açores – Portugal), 02:45, Av. Vasco da Gama
A música tradicional açoriana redescobre-se através do digital. Um projecto de Pedro Lucas, finalista da primeira edição do Prémio Megafone/João Aguardela.

Irmãos Makossa, 04:00, Av. Vasco da Gama
Os Irmãos Makossa são Paolo e Nelson, dois apaixonados pela música africana. Inspirados por Fela Kuti, Manu Dibango e James Brown, entre outros músicos, os seus “sets” são uma viagem fervilhante sobretudo por África, mas estendendo-se aos outros continentes. O afrobeat é o estilo dominante, mas também fazem incursões por afrofunk, highlife, chimurenga, makossa, soukous, semba, funaná, marrabenta, sons latinos e muito mais.

Programa – sábado, 30 de julho

Aziz Sahmaoui & University of Gnawa (Marrocos/Senegal), 18:45, Castelo
No seio da Orchestre National de Barbès, Aziz Sahmaoui ajudou a renovar a música magrebina. Em 2011, lança-se a solo com o projecto de gnawa que mostra no FMM.

CaBaCe (Portugal), 20:00, Av. Vasco da Gama
Vencedora do concurso Rock Rendez Worten 2010, CaBaCe é a banda revelação da música afro feita em Portugal. Este concerto é mais um passo na sua descoberta.

Mário Lúcio (Cabo Verde), 21:45, Castelo
Fundador dos Simentera, Mário Lúcio apresenta em Sines o seu trabalho a solo mais recente, “Kreol”, um dos discos do ano nas tabelas europeias de world music.

Nathalie Natiembé (Ilha Reunião – França), 23:15, Castelo
Transformando o maloya tradicional através de um olhar contemporâneo e pessoal, Nathalie Natiembé é uma das vozes mais originais da música africana de hoje.

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Sly & Robbie feat. Junior Reid (Jamaica), 00:45, Castelo
Dez anos depois do concerto histórico com Black Uhuru em 2001, a secção rítmica que mudou o reggae volta a Sines com um dos cantores jamaicanos em melhor forma.

Kumpania Algazarra (Portugal), 02:45, Av. Vasco da Gama
Seja nas ruas, seja nos palcos, quando a Kumpania aparece a festa começa. Balcânica, latina, jamaicana, universal, a sua música celebra o mundo e a vida.

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Bailarico Sofisticado (Portugal), 04:00, Av. Vasco da Gama
Nos “sets” de vistas largas de Bruno Barros, Pedro Marques e Vítor Junqueira quem dança reggae a seguir está a dançar eletrónica, new wave, oldies e um mar de músicas do mundo. Juntos desde 1999, são, desde 2005, presença regular no FMM, com alinhamentos onde se misturam fanfarras ciganas, punk, afrobeat, revivalismo ska, bhangra pop e muitos outros ritmos para dançar até o sol nascer. Em 2011, dirigem novamente o baile final do festival.

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