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Cinema e TV no image

Published on Dezembro 21st, 2011 | by Manaíra Athayde

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Cinema português: um cenário e outros filmes…

“Sophia”: eis o nome dos galardões que a recém formada Academia Portuguesa de Cinema (APC) irá oferecer em noite de gala a ter início no próximo ano. O nome, que ultrapassou “Dom” e “Lacre” na votação ocorrida ontem, em Lisboa, é uma homenagem à escritora Sophia de Mello Brayner e às mulheres, «por haver poucos prémios de cinema com um nome feminino e vivermos numa sociedade ainda muito controlada pelos homens, além de significar, em grego, ‘sabedoria’», explica um dos membros da direção.

Na semana em que esse anúncio oficial, juntamente com a aprovação do regulamento da cerimónia, ganham destaque na firmação da APC, a FEST MAGAZINE faz um panorama atual do cinema português, perpassando por assuntos como a importância dos festivais, a crise financeira, a sedimentação da imagem negativa ao longo dos anos, a americanização do cinema, a influência da televisão e os novos rumos para as produções nacionais.

Aproveitamos a ocasião do 9.° Festival de Cinema Independente de Braga (Bragacine) para entrevistar vários convidados, entre realizadores, produtores e atores, e fazer um mapeamento dos caminhos que vêm sendo percorridos – e de tantos outros que ficaram à revelia.

Os festivais: em tempos de crise, na crise dos tempos

Portugal já chegou a ser apontado como “o país dos festivais”. São dez grandes eventos, com mais de cinco anos, devotados à 7.ª arte em todo o país, para não falar das várias iniciativas menores.

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Paulo Trancoso, presidente da APC, e José Farinha, que também faz parte da direção. Foto: António Maia

Para Paulo Trancoso, diretor da recém-criada Academia Portuguesa de Cinema (ACP), «como a vocação do cinema português tem sido pouco comercial, os festivais assumem papel importante na divulgação dos filmes para vários públicos, não só a nível nacional mas no estrangeiro também».

Muitos festivais já atingiram a maioridade, como o Festival de Curtas de Vila do Conde, com duas décadas de existência, o Fantasporto, que já vai a caminho da 32.ª edição, e o Cinanima, que este ano comemorou 35 anos. Outros, como o DocLisboa e o Indie Lisboa, estão perto de completar a primeira década de vida. Há até um festival, o Lisbon & Estoril Film Festival que, apenas com cinco edições e neste grave momento de crise, dispõe de um orçamento de 3,5 milhões de euros, de entre os quais 500 mil são financiados pelo Turismo de Portugal.

«Acho uma vergonha atribuírem [o Estado] uma verba dessa quantia a um festival de cinema. Respeito o festival, na medida em que traz muitos realizadores e atores de outros países, mas acho que o dinheiro é mal empregado e seria bem utilizado para possibilitar as produções de novos realizadores e produtores, que infelizmente não têm qualquer ajuda hoje», defende José Farinha, que tem se destacado como realizador da nova geração (a partir dos anos 2000).

Já Paulo Trancoso assume uma postura mais cautelosa ao afirmar que «todos os festivais têm que assegurar a sua continuidade. Se alguns festivais conseguem mobilizar este tipo de finanças, melhor. O que acho mal é o IVA dos bilhetes de cinema aumentar e a hipótese de, para o ano, não haver verbas para a produção de cinema português», sublinha.

A Academia Portuguesa de Cinema mal acabou de ser fundada, em julho deste ano, e de ser creditada pela criação de uma gala anual, e já é possível ver claramente os indícios das lacunas sofridas pela sua estirpe, o Instituto Português de Cinema.

«Nós sabemos que, neste momento, as verbas do instituto não existem, ou são muito pequenas. Todos os filmes, por exemplo, que venceram concurso este ano só serão feitos para o ano com o dinheiro que vier. Portanto, há uma decalagem entre o financiamento do Instituto Português de Cinema e a própria produção dos filmes», revela Trancoso.

Segundo a APC, a percentagem de espetadores em Portugal que vê filmes portugueses é de cerca de 1%. Em Espanha, 6% dos espanhóis assistem às produções espanholas, enquanto em França a taxa chega a 50% de vernáculos que fomentam o cinema francês. Com a baixa audiência portuguesa, torna-se ainda mais complicado angariar financiamentos.

O cinema como negócio

José Farinha, que realizou no ano passado a longa “O Inimigo Sem Rosto”, ressalva que «o cinema tem que ser visto como um negócio, o que até aqui não tem sido feito. A primeira coisa que um filme tem que fazer é lucro, fazer dinheiro, e ser visto pelo maior número de espetadores possível», comenta.

Para o também realizador José Carlos de Oliveira é preciso deixar de lado o antigo axioma de que o cinema é para poucos, assim como toda a arte. «O cinema é uma arte industrial e, sobretudo por isso, não é feito de atos individualistas, mas por ações em conjunto que passam por uma linha de produção, em que os esforços precisam dar retorno ao público mediante o grande investimento financeiro que exige», corrobora.

Premiado em vários festivais com “Quero Ser Uma Estrela”, de 2010, José Carlos de Oliveira ainda argumenta: «se o público não perceber aquilo que fizermos, então somos nós, realizadores, que estamos errados. Muitos usam a desculpa de que ninguém entende o filme porque ele está à frente do seu tempo, o que é apenas uma maneira de atestar a própria incompetência».

Além da linguagem pouco tangível, realizadores e produtores apontam como outros dois grandes problemas as falhas das campanhas de promoção dos filmes portugueses, sempre feitas em pequeníssima escala, e a falta de uma rede de cinema significativa no interior do país.

«Este ano foram feitos mais de vinte filmes em Portugal e as pessoas não têm noção disso, porque muitos foram exibidos apenas em Lisboa e em outras poucas cidades. Acho que há um grande trabalho a ser feito pela Academia Portuguesa de Cinema, que é o reencontro do público com o cinema português», diz Paulo Trancoso.

Com um ar menos esperançado, José Carlos de Oliveira atesta que «em Portugal não há tradição em formar espetadores. Ao longo dos tempos, não se sabe se a culpa é dos espetadores ou de quem faz cinema. O que é certo é que aqui os mecanismos não são adequados à moderna indústria cinematográfica», lamenta o realizador.

Paulo Trancoso sublinha que «também há que se reconhecer que o afastamento do público se dá porque muita gente cristalizou uma imagem negativa do nosso cinema e vai transmitindo essa imagem aos outros. Resultado: gera-se uma falsa realidade porque, no fundo, as pessoas falam mal dos filmes sem sequer assistir aos mesmos. Basta ver que o número de espetadores não é muito significativo, exceto um ou outro realizador que consegue atingir mais de cem mil espectadores», atesta.

Trancoso ainda explica que a sedimentação da imagem negativa do cinema feito em Portugal deu-se porque «depois das comédias nos anos 40 e 50, que vivem no imaginário português e que sempre passavam na televisão, veio o período, digamos, neorrealista do cinema, que também aconteceu em outros países da Europa, e foi aí que grande parte do público passou a se voltar para o cinema americano, que encheu rapidamente os ecrãs», revela.

A americanização do cinema também é lembrada pelo ator José Pinto, que no alto dos seus cinquenta anos de carreira conta que «nos anos 50, na cidade do Porto, a minha cidade, havia muitos cinemas, com lotações esgotadas aos fins de semana, e muitos filmes europeus: italianos, franceses, espanhóis e alguns portugueses. Agora não, só vemos aquelas ‘americanices’, filmes com muito sangue e violência; o cinema americano tomou conta do mundo», afirma.

A televisão: um espectro do cinema?

No entanto, mesmo com a invasão das produções americanas e o pequeno número de espetadores interessados no cinema nacional, Paulo Trancoso ressalva «que os filmes portugueses que passam em televisão têm muitas vezes audiências de dezena de milhares e até centenas de milhares de pessoas».

A leitura dessa realidade que o realizador José Carlos de Oliveira faz é que «o fenómeno da TV é dramático: em vez de formar espetadores, deforma a audiência e baixa o nível cultural. A televisão tornou-se um cancro, o que não tinha que ser». E desabafa: «muitos espetadores vão ao cinema e veem os filmes com os códigos da televisão. Por isso, muitos realizadores utilizam a desculpa de que ‘precisam reduzir a qualidade do filme porque é isto o que o público quer ver’». O cineasta ressalva que «é preciso dominar os códigos de comunicação, tornar os espetadores cúmplices, e não inimigos».

José Carlos de Oliveira

«O fenómeno da TV é dramático: deforma a audiência e baixa o nível cultural», José Carlos de Oliveira. Foto: António Maia

Para Maria João Bastos, atualmente uma das atrizes portuguesas de maior renome internacional, a televisão não é tão nociva assim. «Não acredito que haja artes menores, porque acho que todas têm o seu valor. É claro que o cinema é uma arte muito mais cuidada a vários níveis: existe um maior tempo de preparação e de cuidado com o texto, com a fotografia, com a realização». Completa: «o tempo que dura fazer um filme não pode ser comparado com o tempo em que se faz duzentos episódios em nove meses, com 30, 35 cenas gravadas por dia. Sem dúvida, o cinema é o trabalho que me dá mais gozo fazer», revela Maria João Bastos, que ganhou grande projeção por participar em telenovelas brasileiras, desde o início dos anos 2000.

Aliás, se para muitos realizadores a televisão virou um monstro prejudicial à cinematografia, para boa parte dos atores foi o grande meio de promoção. O ator José Pinto afirma que «a televisão e as novelas vieram revelar alguns bons atores para o cinema».

«O cinema abriu portas para novos atores e, nesta fase de crise, digo aos novos talentos que arrisquem, porque há produções, nomeadamente curtas-metragens, que são feitas por realizadores que usam os seus próprios recursos e meios, e que resultam em boas obras, acabam por apoiar a carreira de muitos atores», incentiva Maria João Bastos.

O ator José Pinto, com os seus 82 anos a testemunhar muitas transformações, corrobora que «tem aumentado a quantidade de festivais dedicados a curtas-metragens, o que mostra que, em Portugal, as pequenas produções é que estão a conseguir safar-se». E completa: «se não houver festivais, as produções portuguesas chegam ainda menos às pessoas».

Novos rumos: para onde vão as caravelas?

Para o realizador norte-americano Julian Grant, que conheceu Portugal a convite do Fantasporto e, posteriormente, do Bragacine, «os festivais mais importantes para mim são aqueles que promovem os filmes independentes, que dão espaço para que novos realizadores, produtores, atores possam ser vistos por vários públicos em diversos lugares do mundo», afirma o responsável pela série televisiva “Robocop” em 2000.

João Alves é um exemplo desses realizadores a quem os festivais conseguem incentivar e, assim, fomentar novas produções, apesar das dificuldades em todo o cenário cinematográfico. «Os prémios são um forte incentivo, mas também implicam mais responsabilidade porque criam maiores expetativas, aumentam a pressão sobre o próximo projeto. Mas se não fosse um desafio não valia a pena», explica a propósito de seguir efetivamente a carreira de realizador, já que até agora só trabalha profissionalmente com design e animação para aplicações digitais. «Realizo filmes quando chego a casa e aos fins de semana», fala em tom de quem fazia os audiovisuais por se divertir com o trabalho. O certo é que João Alves e a sua curta-metragem “Bats In The Belfry” já levaram este ano vários prémios, incluindo o de melhor filme do Motel X e galardões no Cinanima, na Culturgest e no Bragacine.

Mas para que realizadores portugueses como João Alves continuem a apostar no trabalho audiovisual, é inevitável que nos próximos tempos novos caminhos tenham que ser travados.

O cineasta José Farinha, que já teve a oportunidade de trabalhar em algumas co-produções, diz que «por agora, penso que nós deveríamos abrir horizontes em relação a outras cinematografias, como a brasileira, que está em expansão e hoje em dia consegue colocar um filme, um ator, uma atriz e um realizador na nomeação aos Óscares». E continua: «o mesmo se passa em relação aos nossos vizinhos espanhóis, que têm uma das maiores cinematografias do mundo. Também seria muito útil tentarmos aprender e trabalhar com eles, porque estão ao nosso lado. Não restam dúvidas, o caminho é este: Brasil e Espanha», conclui.

José Carlos de Oliveira não é tão otimista: «A gente não gosta de Portugal e os espanhóis não gostam de nós, a Galiza é a única exceção. O Brasil também não quer saber de filmes portugueses, e vice-versa. A música brasileira enche concertos, mas são raros os casos de filmes brasileiros que levam muitos portugueses às salas de cinema. Eu acho que o problema é o ritmo dos filmes e a linguagem».

«A grande diferença que existe entre Brasil e Portugal, e que é maravilhosa, é o apoio que o cinema tem no Brasil de grandes marcas brasileiras, até por conta da lei de incentivo fiscal», lembra Maria João Bastos, que começou a ter grande projeção como atriz quando passou a trabalhar do outro lado do Atlântico.

O ator José Pinto diz, em tom sublevado: «enquanto em Espanha, já para não falar nas Américas, se gastam milhões de euros, aqui o subsídio é de 600 mil euros. Como se pode fazer um bom filme com 600 mil euros? É impossível, de maneira que não se pode fazer um bom cinema», atesta.

A completar esta voz de indignação, está Paulo Trancoso, que agora tem um grande desafio: gerir a Academia Portuguesa de Cinema com pouquíssimos fundos. «Quando a palavra é crise, os primeiros cortes são nos sectores culturais porque parece ser o que está mais a mão dos ministros e dos governos. É muito triste que eles não percebam que o cinema português traduz numa valorização da cultura e que, numa altura de crise, dever-se-ia apostar mais na nossa identidade, pois estamos a perder a pouca soberania que tínhamos», finaliza.

Resta saber se a perda dessa “pouca soberania” que restou – e que mais parece ter ficado cerrada por completo na Era dos Descobrimentos – levará a uma guinada e trará novos ventos ou se as caravelas de hoje continuarão a não saber o que é o mar.

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