Festmag

Cinema e TV no image

Published on Dezembro 21st, 2011 | by Manaíra Athayde

0

José Farinha: «A primeira coisa que um filme tem que fazer é lucro»

Na semana em que a recém formada Academia Portuguesa de Cinema se reúne para aprovar o regulamento dos futuros galardões, que inclusive já foram nomeados de Sophia, a FEST MAGAZINE dedica-se a investigar a fundo algumas diretrizes do cinema português e os seus atuais protagonistas e coadjuvantes.

Atual membro da direção da Academia Portuguesa de Cinema, José Farinha estreou-se na realização de longas metragens com o filme “O Inimigo Sem Rosto” (2010). Nos últimos anos, o cineasta, formado na Escola Técnica de Imagem e Comunicação (Lisboa) e no Centro Galego de Artes da Imaxe (Coruña) e responsável pela produtora Inferno Films, tem sido um dos grandes exemplos de realizadores da nova geração engajados em aproximar o cinema português do público – já que há décadas é pequena, pequeníssima a parcela do público que se aproxima dele. Não é à toa que o realizador escolheu trabalhar as temáticas do fado e do futebol em suas mais recentes produções: “é preciso falar sobre o que interessa a maior parte das pessoas, mas sem cair em lugares-comuns”, explica.

Aliás, os documentários começam a ser um importante fio condutor na carreira de José Farinha, que este ano, com “Badoca Safari Park”, angariou o prémio de melhor documentário internacional no New York International Independent Film and Video Festival e o prémio de melhor documentário do 9.º Festival Bragacine. E foi no Bragacine – Festival Internacional de Cinema Independente de Braga, realizado em novembro deste ano, que José Farinha concedeu esta entrevista à FEST MAGAZINE, em que falou o que muitos pensam mas não dizem oficialmente em público.

5

José Farinha e Maria João Bastos, que faz parte do elenco de "O Inimigo Sem Rosto". Foto: António Maia

O cinema português continua a caminhar sobre uma linha ébria…
O cinema português está num grande impasse porque vem uma nova lei do cinema, que nós ainda não conhecemos, e temos que ter muita atenção a ela. Creio que se devia tentar modernizar as leis para que os produtores e realizadores tenham melhores formas de fazer os seus filmes e atingir os públicos português e estrangeiro da melhor forma possível.

Como é que o cinema português é visto no panorama das cinematografias europeias?
Em relação às cinematografias europeias, acho que o cinema português devia tentar aproximar-se de outros países para que, de uma forma coerente, se tenha no estrangeiro uma visão do que se faz cá em Portugal. Outra questão importante é que se deve sempre ter em conta que o cinema tem que ser visto como um negócio, o que até aqui não tem sido feito. A primeira coisa que um filme tem que fazer é lucro, fazer dinheiro, e ser visto pelo maior número de espetadores possível.

O cinema português continua a tentar aproximar-se do ideal que se tornou em Portugal a cinematografia francesa na 7.ª arte?
Há muito pouco tempo havia um certo fascínio de intelectuais portugueses pela cinematografia francesa, o que influenciou muito a produção cá. Por agora, penso que nós deveríamos abrir horizontes em relação a outras cinematografias, como a brasileira, que está em expansão e hoje em dia consegue colocar um filme, um ator, uma atriz e um realizador na nomeação aos Óscares. Nós, portugueses, não podemos perder esta oportunidade de ouro que é unirmos esforços para que, num futuro próximo, haja co-produções entre Portugal e Brasil. O mesmo se passa em relação aos nossos vizinhos espanhóis, que têm uma das maiores cinematografias do mundo. Também seria muito útil tentarmos aprender e trabalhar com eles, porque estão ao nosso lado. Não restam dúvidas, o caminho é este: Brasil e Espanha.

Em pleno declínio absoluto da economia portuguesa, este ano o Turismo de Portugal destinou 500 mil euros ao Lisbon & Estoril Film Festival. O que acha de apoios como este?
Acho uma vergonha atribuírem uma verba dessa quantia a um festival de cinema. Respeito o festival, na medida em que traz muitos realizadores e atores de outros países, mas acho que o dinheiro é mal empregado e seria bem utilizado para possibilitar as produções de novos realizadores e produtores, que infelizmente não têm qualquer ajuda hoje. O senhor Paulo Branco é um dos poucos que recebe auxílio do governo nessa matéria, mas acho que ele podia concentrar-se nos patrocínios e deixar esse dinheirinho, que é tão importante e tão escasso, para fomentar a nossa cinematografia, que tanto precisa.

Qual é a importância do nascimento da Academia Portuguesa de Cinema?
A Academia já deveria ter nascido há muitos anos. Mas como mais vale tarde do que nunca, o Paulo Trancoso, que é o atual presidente, em conjunto com os membros da direção, acharam por bem desenhar as bases de uma organização moderna, que não pertence a uma elite mas sim a todos. Essa equipa tem em atenção o apoio e a divulgação do cinema português em toda a sua diversidade: os filmes de animação, as curtas-metragens, os documentários, as longas-metragens. Estamos na fase de organizar uma Gala de atribuição de prémios que valorizem e dignifiquem da melhor forma quem faz cinema em Portugal. Mas os objetivos são tantos que estamos a estabelecer prioridades. É um longo caminho a percorrer…

YouTube Preview Image

Teaser promocional do filme "O Inimigo Sem Rosto".

De entre as novas produções portuguesas, tem tido muito êxito com “O Inimigo Sem Rosto”, lançado no ano passado.
É a minha primeira longa-metragem, cuja temática é sobre fraude e corrupção em Portugal. O projeto surgiu quando conheci o livro “O Inimigo Sem Rosto”, de Maria José Morgado, procuradora-geral da república, e do jornalista José Vegar. Como gosto de temas transversais à sociedade, decidi fazer a adaptação do livro.

Falta ao cinema português envolver-se mais com questões sociais?
Falta muito este tipo de temas e de abordagens no cinema português. É uma das minhas preocupações: pegar assuntos que são realmente importantes à sociedade e dar uma roupagem ficcional e uma roupagem presente e histórica.

Por vezes, em Portugal, há um grande esforço para manter a imagem de que é possível separar completamente a realidade e a ficção, como se isso fosse plausível…
Às vezes, confunde-se a realidade e a ficção e isto será sempre enquanto houver cinema e homens na Terra. Tendemos a ser criativos e a ser mentirosos; há uma parte de nós que é enganosa e outra parte de nós que é verdadeira.

Então, para si, não há esse maniqueísmo?
Exatamente. Acho que não há bons nem maus, apesar de grande parte do cinema mostrar sempre o bonzinho e o vilão. O bom pode ser mau numa perspetiva e o mau pode ser bom noutra perspetiva, claramente.

“O Inimigo Sem Rosto” conta com um elenco de grande escala, com atores portugueses prestigiados como José Wallenstein, São José Correia, Maria João Bastos, António Melo e Paulo Nery. Convidar atores famosos, com grande poder mediático, é importante para o que deseja construir na sua trajetória enquanto realizador?
Claro que ajuda muito na divulgação do filme ter atores de peso no nome. Nos meus projetos tento sempre equilibrar os elencos. Costumo selecionar atores já com nome e muita experiência e atores jovens, em início de carreira; tento conjugar e fazer com que esse bolo fique apurado e a servir bem ao público, que é a minha principal preocupação.

Já disse nesta entrevista que o cinema tem que ser visto como um negócio. Mas o facto de “O Inimigo sem Rosto” ter um elenco famoso não foi recebido negativamente pela crítica? Em Portugal, muitos críticos fazem questão de acentuar que o cinema é para poucos, como toda a arte também o é…
Leio as críticas e respeito muito os críticos, mas, sinceramente, estou-me nas tintas para o que eles escrevem. O que penso é que um bom filme tem que ser verdadeiro para os espetadores e que se tem que selecionar bons atores para os papéis que vão desempenhar para dar credibilidade ao filme.

YouTube Preview Image

Trailer da curta-metragem documental "Badoca Safari Park".

Faz-se crítica de cinema a sério em Portugal?
Faz-se uma crítica um bocado conservadora, muito a favor do cinema estrangeiro, sobretudo o americano, e muito pouco a favor do cinema português, o que acho uma injustiça. Isto mostra que os portugueses não gostam dos portugueses, o que é bem diferente em outros países. Em Espanha, por exemplo, defende-se muito a cultura e a língua espanhola. Acharia interessante haver uma percentagem de filmes estrangeiros dobrados em português porque daria emprego a muitos atores e é uma forma de defendermos a nossa língua.

Siga-nos aqui:

Tags:


About the Author



Comments are closed.

Back to Top ↑
  • PUB

    “Muvi2017”

    “Veracity”

    “VeraMarmelo”

    “MadeofThings”

  • Facebook

  • Dezembro 2011
    S T Q Q S S D
    « Nov   Jan »
     1234
    567891011
    12131415161718
    19202122232425
    262728293031