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Published on Dezembro 21st, 2011 | by Manaíra Athayde

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Lançamento de “Claraboia”: À luz de Saramago

Foi-se o tempo em que claraboia era apenas a abertura no alto das edificações para permitir a entrada de luz ou melhorar a ventilação. Agora, a associação é rápida: trata-se do “novo” livro de José Saramago, Nobel de Literatura em 1998.

“Novo” (entre aspas) porque o livro esteve engavetado desde os anos 1950: primeiro, por um editor que, na altura, fez pouco caso do romance; depois, pelo próprio escritor, que na década de 1980, já consagrado, foi contatado pela editora para publicar o livro e, furioso pela falta de resposta quando ainda não tinha renome, declarou que não desejava ver o romance editado em vida.

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Jardim de Inverno lotado no lançamento de "Claraboia". Foto: M.A.

O lançamento de “Claraboia” ocorreu no dia em que Saramago completaria 88 anos, pouco mais de um ano depois de sua morte. O Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, estava lotado de gente que foi presenciar a atuação, de entre outros, de Camané e de Pedro Gonçalves e a mesa-redonda composta por nomes como Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto e Pilar del Río, a viúva do escritor e “presidenta” (como faz questão de ser chamada) da Fundação Saramago.

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Camané interpreta "Já Não Estar", tema do documentário "José e Pilar". Foto: M.A.

“Claraboia”: um primeiro livro…

«Um prédio habitado por várias personagens de forte personalidade, em que as mulheres têm uma luta muito própria. A humanidade e a dignidade das personagens é o que mais impressiona no livro. O dinheiro não pode ser a mola da vida e de suas relações, é uma das mensagens que Saramago nos deixa com a obra», descreve Pilar sobre “Claraboia”, que chega ao público português com 50 mil exemplares.

Para a escritora Lídia Jorge, convidada especial no lançamento do livro, o Nobel português «conseguiu renovar a literatura portuguesa porque deu um novo cunho e uma nova materialidade à escrita, envolvendo-se com os grandes mitos da modernidade com tal eficácia que conseguiu ter uma obra que abrange a todas as classes sociais”. Ressalva que «o grande impulso de Saramago foi ter dito aos portugueses, que em geral são relutantes à leitura, que o escritor pode ser uma figura fundamental e que ler pode fazer as pessoas diferentes».

José Luís Peixoto, um dos mais destacados escritores portugueses da chamada «nova geração do século XXI», corrobora que «Saramago renovou o género do romance e que nos ensinou a ler, verbo muitíssimo importante e que antecede o escrever, embora muitas pessoas se esqueçam disto», afirma.
E pelo que depender da Fundação Saramago, muitos ainda aprenderão a ler com os livros póstumos do escritor. No folheto distribuído no lançamento de “Claraboia” lê-se: «o surpreendente romance inédito de Saramago, um primeiro livro para fechar um círculo perfeito», o que dá a entender que o círculo ainda está longe de ser fechado…

Pilar del Río: «Saramago não é um mito e eu não sou mediática»

No ano passado, Pilar del Río foi alvo de várias críticas negativas por causa do documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, em que ela aparece muitas vezes numa posição severa e rigorosa no cumprimento de horários e compromissos, mesmo com a debilidade da saúde de Saramago.
Pilar disse à FEST MAGAZINE, por ocasião do lançamento de “Claraboia”, que «algumas pessoas objetaram sobretudo alguma coisa em relação a mim, e nunca a respeito de Saramago, e acho bem que a crítica venha para mim», declara.

Ainda afirma: «o filme não é uma elegia a Saramago; é a luta de um casal pelos seus ideais e pelo amor. É um filme, principalmente, sobre a urgência do tempo», já que Saramago começou a fazer a sua grande obra a partir dos 60 anos.

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Pilar del Río a autografar livros no final da noite. Foto: M.A.

Pilar, quase trinta anos mais nova, conheceu Saramago quando ele tinha 64 anos e acompanhou grande parte da produção literária do escritor, inclusive como tradutora dos livros para castelhano. A jornalista, nascida numa província de Granada (Espanha), foi alvo de muitas polémicas, inclusive a de ter influenciado Saramago a deixar Portugal para viver na ilha espanhola de Lanzarote.

Quando questionada sobre o assunto, Pilar responde: «Saramago é um escritor, um intelectual, um pensador, não é um mito, e eu tenho grandes responsabilidades neste caminho, é verdade. Se por isso sou mediática? Não, não sou mediática». Ainda sublinha que o escritor «nunca esteve desconciliado com Portugal, e sim com o governo português» e aponta que Saramago há muito que já dizia para onde o Estado estava a conduzir o País.

A crise que hoje se vive é encarada por Pilar com um ar de esperança: «o desconforto pode levar-nos a perceber que o conforto era enganoso e, assim, é possível começar a modificar problemas estruturais». E conclui: «reduzir o estado a miserável é a nova escravatura e nós temos que lutar contra esta realidade».

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