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Published on Janeiro 18th, 2012 | by Manaíra Athayde

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Entrevista a Jorge Palma: «O público perdoa-me sempre os exageros»

Jorge Palma está de volta. Mais íntimo do que nunca, com uma digressão acústica que promete emocionar muito boa gente com os quarenta anos de carreira do cantautor português. “Íntimo… Com Todo o Respeito” teve uma das primeiras paragens no Auditório de Vila Nova de Gaia, no último sábado (14 de janeiro), em que mais de 340 pessoas assistiram ao espetáculo.

O ambiente intimista propiciado pela excelente interação entre as canções e a iluminação – vale parabenizar o responsável, Carlos Gonçalves –, a interatividade com o público, o bom humor e a espontaneidade, como se tudo fosse feito de improviso e estivéssemos num bar ou mesmo na casa de Palma, na sala de estar a testemunhar ao vivo a catarse do cantor, especialmente ao tocar piano.

Jorge Palma

O auditório de Vila Nova de Gaia esteve lotado para ver o novo concerto. Foto: M.A.

Aliás, um concerto apenas com piano, viola e guitarra – na medida para Jorge Palma que, desta vez, vem acompanhado, e bem acompanhado, do filho mais velho, Vicente Palma. Mais de vinte músicas em cerca de duas horas de apresentação, em que foram revisitadas canções como “Estrela-do-mar”, “Frágil” e “Encosta-te a Mim” e, claro, temas do novo álbum “Com todo o respeito”, com o single “Página em Branco” e outras a emplacar como “A Chuva Cai”, “Anjos de Berlim” e “Tudo por um Beijo”.

Desta vez, “A Gente Vai Continuar” não foi a música de encerramento do concerto, como há anos costumava ser. “Portugal, Portugal”, escrita há mais de três décadas atrás, foi a última canção, já no encore, o que deve ter deixado boa parte da plateia contente, uma vez que durante a apresentação houve quem gritasse a pedir músicas de intervenção. No fim do espetáculo, em entrevista à FEST MAGAZINE, Jorge Palma não se deixou abater pelo cansaço: deu um verdadeiro testemunho sobre as suas experiências e fez um grande brinde à vida.

Jorge Palma

Catarse em palco ao tocar piano. Foto: M.A.

“Com Todo o Respeito” foi lançado em outubro do ano passado, quatro anos depois do seu último trabalho. Como foi o processo de preparação do álbum?
Demorou mais tempo do que o costume. Houve problemas técnicos, e eu também andava muito ocupado, o que adiou quase um ano e sete meses a finalização do disco. Já tinha começado a fazer muitas canções para o teatro e para o cinema, e fui escrevendo… Comecei por “Página em Branco”, que fala sobre a falta de inspiração para compor, o que por vezes me acontece.

Quem é que o Jorge respeita?
Tento, em primeiro lugar, respeitar-me a mim, porque é a condição fundamental para respeitar o resto do mundo. Se respeitar as minhas atitudes, os meus movimentos e os meus gestos é meio caminho andado para ter respeito pelos outros. Respeito muito a vida.

“Íntimo… Com Todo o Respeito” é o nome da digressão iniciada este mês e marcada por um ambiente intimista. Aproveitando a escolha do título para representar a atmosfera pretendida, pergunto: o que há de mais íntimo para ‘Jorge Palma’?
Não digo [risos]. Íntimo, íntimo para mim é tocar música e estar muito bem acompanhado, uma companhia agradável e [es]tá-se bem. Depois, há a intimidade de mim para mim, porque falo muito comigo.

O quê ou quem intima neste álbum?
Não faço manifestos nem dou palavras de ordem, mas tento puxar as pessoas para a ação, para que tomem atitudes e se mexam. Isso passa bastante por conversarem consigo próprias – como acabei de dizer que faço comigo –, olharem-se com ou sem espelho, e depois agirem e organizarem-se, uma coisa para a qual nós, portugueses, temos pouco jeito.

A sua carreira tem grandes momentos marcados pela música de intervenção, nomeadamente nos anos 70, e que não deixaram de ser atuais. O que pensa sobre os difíceis dias portugueses?
Temos um governo completamente abismal, ninguém sabe dizer o que vai acontecer. Não sou economista, nem político, nem nada disso. Sou uma pessoa confrontada com uma realidade muito problemática e, como tantas outras pessoas, não sei bem o que fazer.

Jorge Palma

Vicente Palma em dueto com o pai. Foto: M.A.

Voltando à mini-tour acústica… Neste espetáculo, Vicente Palma, com os seus 28 anos, tem subido ao palco consigo já como um profissional, algo diferente dos anteriores trabalhos ocasionais. O fato de ser “o filho de Jorge Palma” não se torna um estigma negativo à carreira dele?
Para além de ser meu filho, é um músico, e francamente acho que ele tem talento, tem que ser respeitado por isso. Ele está a tocar bem. Mas como pai, é claro, que vou dizer… [risos].

Vicente Palma tem-lo como exemplo?
Acho que sim, tem se inspirado muito no percurso do pai. O mais novo [filho, Francisco Palma, 16 anos] também, embora sejam completamente diferentes um do outro.

E quando poderemos ouvir Jorge, Vicente e Francisco juntos?
O trio! [risos] Não sei… O que quero é que eles aprendam e toquem cada vez melhor e que curtam a vida. São 12 anos de diferença um do outro, um bocado… Para já, estou a ajudar da maneira que consigo, que é abrindo portas no meio musical, apresentando músicos amigos, pessoal do meio e das produções. Por outro lado, dou uma ajudinha com os instrumentos, com as guitarras e os amplificadores, essas coisas, e esclareço qualquer dúvida que possa esclarecer em termos de acordes. De resto… Hum… Não sei, já temos feito algumas jam sessions juntos, por exemplo. Em termos de público, o Vicente já é um profissional e toca comigo há muito tempo. Ele já tem um disco todo composto por ele e que vai ser lançado este ano.

Qual o nome do álbum do seu filho? A data de lançamento já está marcada?
Essas perguntas são para o Vicente [risos]. Por acaso nem sei o nome do disco… Posso dizer que gosto das coisas que ouvi, mas não tem nada a ver com o pai.

Os jovens gostam de Jorge Palma? Trabalhar com o Vicente também tem sido uma oportunidade de se aproximar desse público?
Tenho público de todas as idades, a minha música não ficou rotulada e parada no tempo. Eu e a minha geração atravessamos tantas coisas… É muito bom saber que os miúdos ouvem a minha música e começam a gostar, vão-se habituando. Eles são o futuro, e é muito gratificante para mim saber que, de alguma forma, faço parte dele com boas contribuições.

A sua geração é uma desilusão para si?
A minha geração… Bem, os colegas da minha idade, os meus contemporâneos de juventude não me agradam particularmente, sobretudo na questão política.

Quer seja essa geração que te desiludiu quer seja o público jovem, Jorge Palma é acarinhado por muitos, então…
Muito. Acarinhado e muito perdoado também [risos]. Diz Zé Pedro [guitarrista dos Xutos & Pontapés] que sou o artista mais perdoado em Portugal. O público está sempre a perdoar os meus exageros, os meus excessos.

Drogas e álcool foram os seus maiores excessos?
As drogas na minha vida… Não é nada dramático, felizmente tenho um corpo muito sólido, calhou [risos].

Jorge Palma

Concerto intimista. Foto: M.A.

A música é um escape?
A música tem sido muitas vezes um escape. Como diz Caetano Veloso: “como é bom saber tocar um instrumento”. Por isso, fiz questão e continuo a fazer que os meus filhos estejam no mundo da música. O mais velho [Vicente Palma] já está encaminhado, agora as minhas atenções maiores são com o mais novo, Francisco, que ainda está na fase da adolescência. Já tem a influência direta do pai e do irmão. Teve aulas de piano e eu ajudo no que posso.

Falando na relação entre pais e filhos… No final dos anos 60, abandonou os estudos secundários para integrar a banda Black Boys, no Algarve. O seu pai apareceu inesperadamente numa apresentação num dos bares em que o grupo tocava e convenceu-o a regressar a Lisboa…
Quando vi o meu pai, engasguei-me, estava a cantar, qualquer coisa assim. Depois de ter terminado a série de músicas, sentei-me ao pé ele, já no set, e disse “ah, pai!” e ele fez-me uma proposta para ir acabar o sétimo ano, estudar mais um bocadinho. E fez ele bem.

A desistência do curso de Engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa já foi um processo mais maturado.
Foi um processo natural. Naquela altura, [es]tava-se a prever que ia acontecer alguma coisa [Palma abandonou o curso no início da década de 70, um período de grandes mudanças no regime ditatorial português]; ia às aulas na Faculdade de Ciências, mas havia muitas greves, alunos a insultar professores, uma situação caótica nas universidades. Assim, progressivamente, fui-me afastando daquilo e cada vez mais comecei a ter trabalhos enquanto músico, comecei a ganhar dinheiro e a fazer apresentações com outros artistas, outros cantores. Portanto, não me comportei como um típico estudante de engenharia daquela época, mas como um músico, que não estava alienado e que encontrou na arte a sua maior expressão para falar sobre a sociedade em que vivia.

A inspiração é como um grande sopro contingente? “Páginas em Branco”, o seu mais recente single, fala sobre o processo criativo, como mencionou no início da entrevista.
A minha inspiração está na vida, está em tudo, desde os cheiros até às pessoas que encontro… Tenho uma vida, nesse aspeto, muito rica porque todos os dias estou em contato com pessoas diferentes e novas histórias também. Escrevo coisas em vários lugares, algumas coisas boas e outras más, naturalmente. Depois, vou investigar sobre os temas que escrevi e aprimorar aquilo que for bom.

A música é a sua maior relação de partilha com as outras pessoas, certamente…
Sim, é sim. Partilho as minhas experiências, algumas melhores que outras, como é com todos… Mas a minha música não é um símbolo de como as pessoas devem fazer e agir na vida, cada um sabe da vida o que quer fazer e dou liberdade para que façam, a começar pelos meus filhos. Já fiz muita coisa, já tenho mais de 60 anos, muita estrada nesta vida. Mas não quero interferir demais na vida das pessoas porque cada um escolhe o que quer.

Jorge Palma envelheceu?
Então… Sempre tive tendência para me relacionar com o pessoal mais velho, porque tem mais experiência, possivelmente. Também são mais interessantes aqueles que tenho escolhido ao longo da vida. Por outro lado, aprendo muito com o pessoal adolescente, com as crianças, é muito bom. Todos os dias estou a aprender coisas, aprendo com os miúdos, com as pessoas mais velhas. Mas acho que sou um pré-histórico mesmo porque gosto de escrever com a caneta, gosto de música e de cinema, numa época em que o que está em voga são os jogos da [Inter]net e a cena das redes sociais, que não me atraem muito.

Jorge Palma

O mais recente álbum de Jorge Palma está no top dos mais vendidos em Portugal. Foto: M.A.

Sendo o Jorge Palma um artista tão inquieto – e inquietante – com o seu tempo, 40 anos de carreira conseguiram dar alguma segurança para o futuro?
Futuro… Talvez… O que quero é continuar a trabalhar, ter boa saúde, ler e ouvir muita música. Este ano está a começar muito bem para mim. Quero evitar a palavra, mas a “crise” sente-se, há pouco dinheiro, estamos num processo de falência e considero muito sortudo mesmo porque começo janeiro com uma digressão interessante e espero que o resto do ano continue assim. Quero tocar o melhor que conseguir sempre.

“Jorge Palma é o Bob Dylan português”. O “rei do folk” continua sendo a sua maior referência musical?
Sempre, sempre. Amanhã, por exemplo, vou fazer uma espécie de serenata à antiga, piano e guitarra cá fora, na Ribeira. Tocar viola, tocar o que me apetecer, mesmo à Dylan. Gosto muito da Ribeira, tudo o que seja ao pé do Douro atrai-me logo.

Depois desta conversa, muitas vezes a falar profundamente sobre a vida, a minha última pergunta é: qual o seu prato preferido?
[risos] São tantos… Agora, por exemplo, era capaz de comer umas ervilhas com ovos escalfados.

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