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Published on Fevereiro 29th, 2012 | by Manaíra Athayde

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Artur Serra Araújo: «O meu cinema está longe do canibalismo cinéfilo que há lá para baixo»

Aos 34 anos, Artur Serra Araújo traz na bagagem duas longas-metragens e situa o Porto na produção cinematográfica do país. Em entrevista exclusiva, logo após a antestreia no Fantasporto do seu mais recente filme, o realizador dá-nos a conhecer um pouco mais do seu trabalho e do seu olhar além do ecrã.

Para além de realizador, também foste o guionista de “A Moral Conjugal”, a tua segunda longa-metragem, que teve estreia [25 de fevereiro] em horário nobre no festival. Em que contexto surgiu o projeto?
Este filme partiu de um guião que escrevi em quatro, cinco meses, e reuniu uma quantidade de situações que me foram inspiradas na vida. Quando surgiu a hipótese de arranjarmos financiamento através do FICA [Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual], decidimos avançar com o filme, mesmo com o baixo orçamento, cerca de um terço do que é habitual numa primeira obra em Portugal.

De quanto é esse orçamento?
200 mil euros, ou menos um bocadinho. E as grandes dificuldades partiram daí, porque com pouco dinheiro tivemos um curto tempo de rodagem e limitação dos ensaios. Mas também tivemos muita felicidade nas facilidades de produção que conseguimos com o apoio da Câmara de Cascais.

Como surgiu a oportunidade para estrear o filme no Fantasporto?
Foi no seguimento de minha anterior longa-metragem, “Suicídio Encomendado”, que estreou cá e recebeu o Prémio Especial do Júri em 2007. Portanto, as portas mantiveram-se sempre abertas e é fácil encontrar no Fantasporto a cronologia dos meus trabalhos.

Qual a reação do público nesta primeira exibição do trabalho?
Acho que não é aqui o momento certo para fazer o balanço… Recebe-se sempre muitas palmadinhas nas costas e as pessoas que vêm cumprimentar dizem sempre que gostaram muito, mas a maioria sai sem dizer nada, obviamente, e não sabemos se gostaram ou não. Acho que ainda é um bocado cedo para ter a resposta do público. Agora, é claro que gostei de estrear aqui no Fantas, é sempre um prazer especial.

Artur Serra Araújo: «Não quero saber do cinema português nem ele quer saber de mim». Foto: Manaíra Athayde

Artur Serra Araújo: «Não quero saber do cinema português nem ele quer saber de mim». Foto: Manaíra Athayde

Mas a reação das pessoas na sala de cinema foi bastante percetível em muitos momentos…
Sim, acho que ouviu-se bastantes risos nos momentos de descompressão. Foi bom estudar como consegui comunicar: perceber onde é que consigo fazer rir e onde é que consigo fazer as pessoas suspirarem. Não ouvi muita gente a tossir, o que costuma ser um bom sinal. Portanto, gostei de ver o filme, embora não tenha havido as condições de som ideais, porque esta sala não está equipada para cinema digital em 5.1.

Apesar do baixo orçamento, como já mencionaste, “A moral conjugal” tem um elenco de renome. Quando escreveste o guião, já tinhas em mente os atores que querias no filme?
Sim, o processo de escolha dos atores sempre foi muito orgânico. Quando escrevi o guião já tinha pensado no [José] Wallenstein e na São José [Correia], depois o resto do elenco foi por aproximações, pela interação natural que vai surgindo. Achei também interessante pôr a contracenar uma sobrinha e um tio num papel de grande intimidade, acho que foi um bom exercício.

Já tinhas pensado na Catarina Wallenstein para contracenar com o tio, José Wallenstein, ou a oportunidade apareceu casualmente?
Não foi algo pensado de início e, quando surgiu a oportunidade, pareceu-me lógico explorar isto. Eu não conhecia muito o trabalho da Catarina [Wallenstein], mas tinha visto algumas coisas e sabia que ela era capaz. De certa forma, como se tratava de uma relação proibida, resolvi aproveitar o facto dela ser sobrinha do Wallenstein e decidi apostar um bocadinho nisto também. A relação de tio e sobrinha tem algo sempre distante no que diz respeito à intimidade e achei que podia ser interessante quebrar determinadas fronteiras, e não ultrapassar algumas também.

José Wallenstein contracena com a sobrinha, Catarina Wallenstein

José Wallenstein contracena com a sobrinha, Catarina Wallenstein

Em 2003, terminaste o Curso de Som e Imagem na Universidade Católica Portuguesa. De lá para cá tens realizado sem grandes pressões…
Acho que pode se dizer isto… Comecei com um trajeto nas curtas-metragens e fiz a estreia da minha primeira longa em 2007. Entretanto, foi mesmo sem grandes pressões, porque só cinco anos depois é que consegui estrear outro filme. Preferia que fosse um bocadinho mais rápido, mas acho que é muito difícil alguém de 34 anos já ter estreado duas longas-metragens em Portugal. É algo que me deixa satisfeito.

Como vês o cinema nacional atualmente?
Não tenho grande relação com o cinema nacional, não penso muito sobre isto. O cinema atual em Portugal é muito diferente daquele que quero fazer. Eu e ele somos dois estranhos que mal se conhecem: ele está em Lisboa e eu estou no Porto, se calhar um bocadinho longe daquele canibalismo cinéfilo que há lá para baixo e dentro de alguma ingenuidade que o Porto me proporciona e que me motiva.

Houve algum momento em que tenhas pensado que, com o teu trabalho, é possível trazer uma nova frescura ao cinema português?
Não, não quero saber do cinema português nem ele quer saber de mim. Faço o meu cinema e acho que ele é universal, que pode ser visto em qualquer país. O cinema português tem que percorrer um caminho natural, deixar que apareçam novos valores e que eles tenham espaço para crescer. Por enquanto, não me posso queixar, mas o cinema português não tem feito nada por mim e eu não tenho feito nada por ele, acho.

Por que preferes, então, prescindir?
Para manter essa liberdade criativa, alguma ingenuidade e algum otimismo, até face ao atual estado das coisas, e para me manter a mim próprio nas minhas rotinas, que, no fundo, são zonas de abrigo. Sinto-me muito confortável nesta cidade, porque cresci cá e é nela que consigo encontrar algum refúgio e, se calhar, criar melhor.

Quais são as buscas do “Artur” que podemos encontrar no teu trabalho cinematográfico?
Não sei… Estou sempre atento a tudo o que me rodeia. É preciso ter sensibilidade, capacidade de sentir e perceber o mundo envolto. A partir daí é avançar para o papel.

O que te interessa no cinema?
Tenho alguma predileção pelo cinema nórdico por causa do tipo de humor. Gosto muito do Lars von Trier, que considero um grande estudioso. Não sou propriamente um amante dos filmes dele, mas é alguém que procura muita experimentação e que se interessa muito pela forma como pode comunicar. Além disso, gosto muito do cinema que dê atenção ao argumento.

O que pensas sobre a recém formada Academia Portuguesa de Cinema?
Na verdade, não conheço. Ouvi dizer qualquer coisa sobre isto outro dia, mas não faço ideia sequer de quem está à frente disto, nem sei que tipo de eventos vão criar, não sei se é uma espécie de concurso, não faço ideia.

Pode-se dizer que preferes “estar à margem”?
Sim, não tenho problema algum com o facto de preferir ficar distante. Acho que tudo o que seja feito para projetar o cinema nacional é ótimo, agora não estou por dentro, sinceramente não estou. Não faço a minha vida muito pelo cinema, mantenho uma atividade paralela ligada à olivicultura, algo que me permite ter um resgate do cinema na minha vida somente quando quero. Consigo gerir bem o meu tempo sem andar obcecado sobre o que se passa no meio e gosto de viver assim, porque senão as coisas podem-se tornar um bocado tóxicas, quando nos debruçamos muito sobre elas.

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