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Published on Fevereiro 20th, 2012 | by Manaíra Athayde

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Entrevista a Beatriz Pacheco Pereira: «Como nós ainda ninguém fez»

Há 32 anos que Beatriz Pacheco Pereira leva “a ferro e fogo” a direção, juntamente com Mário Dorminsky, do maior festival de cinema português. Em entrevista exclusiva, a “cara feminina dos Fantasporto” fala sobre a capacidade de renovação do festival, a edição deste ano e a forma como vê o cinema nacional e o ensino da Sétima Arte no país.

O que pode o público esperar do Fantasporto este ano?
Um festival melhor do que o do ano passado, mais completo e com uma maior variedade de atividades para além dos filmes. Vamos ter uma grande estátua na Praça D. João I, uma exposição de hologramas única em Portugal, a publicação de um livro de contos de ficção científica totalmente inéditos e conferências com 18 temas sobre o futuro. Temos ainda as comemorações dos 30 anos de “Blade Runner”, 40 anos de “Get Carter”, o centenário do nascimento de Bram Stoker e retrospetivas dedicadas a Ed Wood e a António-Pedro Vasconcelos. Um dos nossos grandes convidados de honra é Karen Shakhnazarov, realizador russo que é diretor do maior estúdio de cinema da Rússia, a Mosfilm. Além disso, há ainda as competições e novos prémios para o cinema português, como o Prémio Escola. Vamos ter cinema gratuito, serão 56 sessões divididas entre o Rivoli e o Hard Club, onde vai se realizar no sábado, dia 03 [de março], o Baile dos Vampiros, para fechar o festival. São cerca de 400 filmes e é difícil dizer o que é mais interessante…

O que levou à realização de sessões gratuitas?
Nós temos uma alta percentagem de espectadores estudantes e achamos que dar uma visão dos filmes mais recentes de vários países é importante para o festival. Trata-se de um panorama sobretudo de curtas-metragens. O festival tem que ser didático também, é uma espécie de bombom que nós oferecemos, porque depois as outras sessões, logicamente, não podem ser gratuitas. O grande intuito é melhorar a produção do cinema nacional ao possibilitar que esses estudantes vejam o que se faz lá fora e possam enriquecer a sua formação.

Qual o espaço do cinema português no festival?
Temos dois tipos de cinema português em exibição: resultantes de parcerias com a Casa da Animação, a Agência de Curta-Metragem, o Cinanima, o Black & White, o Cineclube de Avanca; e depois temos o Cinema Português de Competição, em que nós obrigamos que os filmes sejam inéditos. Há ainda o Cinema Português Escolas, em que vamos escolher a melhor escola de cinema portuguesa deste ano com base num lote de filmes que as instituições nos enviaram, onde há sobretudo filmes de fim de curso, alguns com atores profissionais, portanto não são propriamente filmes muito amadores.

«O que fazemos num ano aparece replicado em outros festivais», diz a anfitriã (foto: MA)

«O que fazemos num ano aparece replicado em outros festivais», diz a anfitriã (foto: MA)

De que maneira vê o cinema português realizado nos últimos anos?
Acho que tem um defeito muito grande: valoriza pouco a história, o argumento, e sobrevaloriza os aspetos técnicos. Estamos muito mal sobretudo na parte dos scripts, porque as pessoas lêem pouco. Não se pode escrever um bom script sem se ver muito cinema e sem se ler muito e, às vezes, os estudantes acham que não é importante ter uma boa biblioteca e videoteca em casa. Tem que se ver muito cinema e ler muito para se conseguir fazer um bom filme.

Então o maior entrave são os próprios realizadores portugueses…
Digamos que não é tanto um problema dos realizadores portugueses, mas mais dos seus professores. Eu tenho acompanhado ao longo de muitos anos e posso dizer que há escolas que têm bons técnicos que ensinam uma boa fotografia, por exemplo, mas não há preocupação em ensinar direção de atores; a escrita de argumento também não é ensinada muito bem. Temos que dar um equilíbrio ao cinema português entre a parte artística propriamente dita e a parte técnica; sem isto não há ligação entre o filme e o espectador e nós continuamos a fazer filmes para o umbigo.

O que correu bem e o que correu mal no ano passado?
O ano passado não correu nada mal [risos]. Tivemos 70 mil pessoas a participar do Fantasporto, das quais 42 mil tinham bilhete. Portanto, foi a maior participação do público em qualquer festival português. Fomos considerados pela Revista Variety o melhor festival de Portugal. Cumpriu-se o programa, acho que sem qualquer alteração. Tivemos muita animação com o programa de artes plásticas, em que, durante o festival, pinturas e documentários foram feitos em colaboração com a Universidade Católica e a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. O que corre sempre mal é, evidentemente, o dinheiro que dispomos para fazer o festival, que é cada vez menor e a crise que se nota.

As restrições orçamentais comprometeram algum projeto que estava previsto?
Nós cortamos em tudo o que não fosse visível para os espectadores, mas não deixamos de fazer inovações que sejam significativas para aprimorar a qualidade do festival. Por exemplo: este ano, toda gente pode comprar bilhetes na Internet, o que ano passado ainda não era possível. Portanto, vamos inovando, fazendo diferente e, assim, continuamos a ser pioneiros. O que fazemos num ano aparece replicado em outros festivais, como o Festival de Sundance ou o de Sitges. Nós temos essa vantagem, temos as ideias e executamo-las antes dos outros.

Beatriz Pacheco Pereira com o livro «Antologia de Ficção Científica - Fantasporto 2012», a ser lançado dia 25 de fevereiro (foto: MA)

Beatriz Pacheco Pereira com o livro «Antologia de Ficção Científica - Fantasporto 2012», a ser lançado dia 25 de fevereiro (foto: MA)

Quais foram as grandes inovações do Fantasporto que reverberaram noutros festivais?
A primeira inovação aconteceu no início dos anos 90, quando a qualidade do cinema fantástico, que teve o seu auge nos anos 80 com grandes realizadores como Steven Spielberg e George Lucas, começou a decair. Foi nesse momento que decidimos tornar o Fantasporto um festival generalista, e foi o que fizemos em 91. Portanto, se as pessoas pensarem que o festival é só cinema fantástico, e então muita gente pensa que o fantástico é só o horror – o horror é realismo exagerado, não é fantástico –, nós já não somos há quase 20 anos. Nós entramos nessa onda pela primeira vez e os outros festivais foram-nos imitando, como o Festival de Sitges. Houve outros festivais, por exemplo, o Festival de Cinema Fantástico de Paris, que não fizeram essa adaptação e acabaram. É preciso defender a qualidade dos filmes apresentados e nós temos esse papel pioneiro na descoberta de valores, de andar na vanguarda do cinema.

E o Fantasporto continua a ser o único a cruzar o cinema com outras áreas, por meio de diversas expressões artísticas e conferências, por exemplo?
Isso ainda ninguém nos conseguiu apanhar [risos]. Devo dizer que o Festival de Sundance fez o cruzamento do cinema com outras áreas, mas acho que como nós ainda ninguém fez, continuamos a ser únicos no mundo, pois cruzamos de modo abrangente o cinema com as artes e as ciências.

Então, podemos dizer que houve duas decisivas mudanças na perspetiva do Fantasporto: a primeira foi tornar o festival generalista e, num segundo momento, tornar o festival transdisciplinar.
Exatamente. Nós somos mesmo isto: transdisciplinares e generalistas, mas eu diria que desde a primeira edição. Em 81 já tínhamos concertos, exposições de artes plásticas, teatro de marionetas; só que desde 2009 estamos a dar uma temática a cada edição do festival e isto torna o programa especial mais visível ao público, porque antes muita gente não se dava conta de que havia muitas coisas além do cinema e agora já sabe.

E qual a importância dessa transdisciplinaridade?
Tornar o festival um verdadeiro congresso abrangente de cinema. Ou seja, não é só o que se passa na sala de cinema, é tudo o que se passa nos corredores, são as pessoas que lá estão, são os especialistas de várias áreas… Por exemplo: este ano, teremos um especialista em ótica que nos vai proporcionar uma exposição de hologramas única no dia da abertura [24 de fevereiro]. Essa exposição não só tem coisas que em Portugal nunca se viram, como vai ter um holograma feito expressamente para o Fantasporto, com características técnicas únicas.

Qual o foco das conferências?
Vamos ter 18 conferências sobre a visão do futuro em determinadas áreas das artes, das letras e das ciências. No primeiro dia de conferências [21 de fevereiro] teremos uma abordagem no campo da literatura, da música, das artes plásticas, da dança. No segundo dia, o terceiro do festival [22 de fevereiro], é a vez das ciências sociais, em que consta a comunicação social, a política, a sociologia, a web e a condição da mulher. No último dia [23 de fevereiro] vamos falar sobre o futuro do cinema e sobre as ciências, a contar com a física, a ótica, os têxteis, as biomédicas, a medicina. Portanto, trata-se de um conjunto de especialistas – professores, cientistas, escritores – vindo das universidades portuguesas para falar sobre vários temas recorrentes no cinema.

Quais os principais convidados?
Não lhe posso agora dar destaques, mas serão cerca de 80% dos realizadores e equipas cujos filmes fazem parte da competição oficial. Temos também a ante-estreia mundial do filme português “A Moral Conjugal”, de Artur Serra Araújo, que vem com uma equipa de atores conhecidos, como a São José Correia e o José Wallenstein.

Qual o orçamento atual do Fantas?
Anda pelos 500 mil euros e é pouquíssimo para o trabalho que apresentamos.

O que pensa sobre o Turismo de Portugal não financiar o festival este ano?
Este ano não vai financiar nem o Fantasporto nem ninguém; suponho que é uma política geral e que tem a ver com a crise do país. Repare: nós tivemos há cerca de dois anos um prémio de turismo pelo trabalho que desenvolvemos, pelas centenas de convidados que trazemos ao Porto. Este ano a Secretaria de Estado do Turismo já avançou a dizer que não ia apoiar nenhum festival e que possivelmente irá cortar em outros eventos também. É uma pena, porque nós não temos esse apoio mas continuamos a trabalhar com hotéis, restaurantes, transportes, levamos os nossos convidados para passear de barco pelo Douro e tudo isso é turismo. Portanto, nós fazemos trabalho turístico, não tenho a mínima dúvida. Esperamos que a situação seja passageira e que para o ano a vida corra melhor.

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