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Cinema e TV no image

Published on Fevereiro 27th, 2012 | by Manaíra Athayde

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Conferências tornam o Fantasporto «um verdadeiro congresso abrangente de cinema»

A relação entre o porvir e o passado na construção do presente foi o fio condutor das dezoito abordagens apresentadas em três dias de conferências, de 21 a 24 de fevereiro. Especialistas falaram sobre pontos transversais às áreas de teatro, dança, artes plásticas, arquitetura, música, literatura, psicologia, sociologia, política, web, cinema, biomedicina, robótica, física, química e medicina.

«Eu vi coisas que os humanos não acreditariam… Todos estes momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva». Os “momentos” de que fala o replicante Roy, no desfecho de Blade Runner, foram o ponto de partida do fórum “O Futuro Agora”, em homenagem aos trinta anos do filme de Ridley Scott.

A pós-modernidade – e os seus problemas sociais, políticos, ecológicos e éticos – ganhou destaque na discussão sobre a materialização do tempo, a importância da memória, o crescimento desenfreado das cidades e a cultura urbana. Discutiu-se ainda o corpo high-tech, a neurociência, a nanotecnologia e a criação de novos materiais, produtos e máquinas e as suas implicações.

A última sessão do fórum «O Futuro Agora» foi dedicada às ciências. Foto: MA

A última sessão do fórum «O Futuro Agora» foi dedicada às ciências. Foto: MA

A preocupação com o agora

Para Jorge Fiel, subdiretor do Jornal de Notícias, «a overdose de informações que vivemos atualmente é o mundo caótico de Blade Runner desmetaforizado». A coreógrafa Isabel Barros diz que «gostava de ver o mundo povoado de menos estranhezas e que elas não fossem normalizadas pelos media».

A crise das mediações dos dias que correm também foi lembrada por José Pacheco Pereira, para quem «o grande risco da democracia não é a tirania, mas a demagogia, que institui comportamentos autoritários e repressivos», afirma o historiador, político e comentador da SIC. «A democracia só se salva pela cultura, que não é ir frequentemente ao teatro e ao cinema. Cultura é um conhecimento volitivo, é ter literacia para compreender a sociedade e a sua base», completa.

Marcelo Ferreira, Isabel Barros e Augusto Canedo discutem as diretrizes da arte contemporânea. Foto: MA

Marcelo Ferreira, Isabel Barros e Augusto Canedo discutem as diretrizes da arte contemporânea. Foto: MA

O fim dos instrumentos de reprodução social para a manutenção e continuidade de um modelo, nos moldes que conhecemos, foi apontado na desestrutura da constituição familiar tradicional, na perceção mediática em detrimento do ensino escolar, nas liberdades individuais colocadas à margem, na participação direta dos media no parlamentarismo e na falta de controle social por parte da democracia.

«Nós, ocidentais, vivemos de memórias protésicas, pois estamos a lidar com a falência dos mecanismos de mediação e a desagregação do sistema de valores, bem como a destruição massiva de conhecimentos e recursos», sentencia Pacheco Pereira. «O Facebook, por exemplo, dá a ilusão de que se fala para o mundo inteiro. Quando se tem dez mil amigos, não se tem nenhum, de facto. É a mesma depressão dos blogs. Estamos na era das substituições afetivas», conclui o pensador português.

Para o espanhol Luís Rosales, «o futuro tão discutido a partir dos anos 60 foi acontecendo e a realidade projetada chegou, ainda que em boa parte muito distinta do que já foi possível especular». É por isso que, «com a tecnologia ainda tão aquém da imaginação humana, tivemos a necessidade de fundir os avanços tecnológicos que alcançamos aos problemas da nossa sociedade e passamos a viver cada vez mais numa linha ténue entre ficção e realidade», explica o diretor da Sci-Fi World Magazine.

Luís Rosales diz que «o futuro chegou» Foto: MA

Luís Rosales diz que «o futuro chegou». Foto: MA

«O retorno ao cinema social e a sua grande ascendência atualmente mostra que este género está cada vez melhor situado do que o cinema de ficção, porque já somos o futuro em que tanto se debruçou o século XX», arremata o crítico de cinema. O pintor Augusto Canedo aprofunda a discussão ao assumir que a estreiteza entre os planos ficcionais e reais leva a não compreendermos «a diferença entre ser criativo e inventar alguma coisa e em que medida a flexibilização de conceitos e a não-perenidade da arte vai romper barreiras».

Para Rogério Ribeiro, diretor do Fórum Fantástico, os portugueses sempre deram um importante contributo às reflexões sobre a arte. «A literatura portuguesa, ao contrário da literatura americana, foi uma das primeiras a olhar para os extra-terrestres com um olhar científico, e não apenas como monstros asquerosos», exemplifica.

Fantasporto: mais do que um festival…

Com a realização do Fórum Cultural, a diretora Beatriz Pacheco Pereira diz que a intenção é «tornar o festival um verdadeiro congresso abrangente de cinema. Ou seja, não é só o que se passa na sala de cinema, é tudo o que se passa nos corredores, são as pessoas que lá estão, são os especialistas de várias áreas», ressalva.

António Florêncio, antigo diretor da Orquestra Nacional do Porto e um dos conferencistas, aponta o Fantasporto como «um festival de vanguarda» e diz que «as conferências se enquadram nessa linha». «A troca cultural de um festival não se faz somente na exibição de filmes, mas ao se ter oportunidade para discutir sobre a própria vida e os seus problemas contemporâneos», argumenta o jornalista Jorge Fiel.

José Pacheco Pereira é resoluto ao dizer que «os espaços de discussão são uma das coisas mais importantes hoje em dia para que não se morra estúpido».  Espaços estes que a professora Ana Cristina Freire, do Departamento de Química da Universidade do Porto, alega serem «fundamentais para as universidades darem a conhecer aquilo que fazem e mostrarem que o conhecimento produzido na Academia tem retorno social».

Rogério Ribeiro, António Florêncio e Jorge Patrício Martins no primeiro dia de apresentações. Foto: MA

Rogério Ribeiro, António Florêncio e Jorge Patrício Martins no primeiro dia de apresentações. Foto: MA

Rogério Ribeiro, organizador da “Antologia de Contos de Ficção Científica – Fantasporto 2012”, corrobora que «faz todo sentido tentar seduzir as pessoas que gostam da estética de ficção científica e de cinema para algo que lhes possa interessar em outras áreas».

«No fundo são essas coisas que acabam por incentivar a criatividade e nos faz modificar o olhar que tínhamos sobre determinados assuntos, afinal também é isto o que o cinema nos proporciona», conclui.

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