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Published on Março 17th, 2012 | by Filipe Pedro

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António Chavarrias: «Os terrores mais importantes do ser humano estão na sua cabeça»

Longe do padrão do género, e com base num excelente texto do catalão Sergi Belbel, “Dictado” apresenta uma densidade psicológica rara neste tipo de filmes. Bem interpretado – Juan Diego Botto e Bárbara Lennie conferem realismo ao casal que protagoniza o filme e Mágica Pérez satisfaz no difícil papel de uma orfã de uma família muito disfuncional -, “Dictado” foi um dos candidatos ao Urso de Ouro na última edição do Festival de Cinema de Berlim.

Após a apresentação do filme no SyFy Fest, houve espaço para um breve Q&A com o realizador de “Dictado”, António Chavarrias, o qual se resume aqui. Outras perguntas e respostas resultam de uma conversa posterior com o produtor e realizador catalão.

Qual é o principal intuito de “Dictado”?
Falar do peso que tem a infância nas nossas vidas de adultos. O que vivemos em criança acompanha-nos para o resto das nossas vidas. Se é bom, fantástico. Se não é bom, pode ser terrível. Procurei explorar de que modo a culpa e o castigo podem resultar em violência.

Essa violência pode transformar-nos em monstros do quotidiano?
O filme é como um conto clássico, é uma fábula. Os contos clássicos de crianças são contos de terror. “Capuchinho Vermelho”, “Branca de Neve”… numa cidade moderna, como poderia ser Lisboa – neste caso é Barcelona -, os monstros e as bruxas não estão visíveis na rua. Mas existem e são personagens que habitam o nosso quotidiano.

Porque não desenvolveu mais a personagem da avó de Julia? Ficamos com a sensação de que por vezes poderia ter ido mais longe na construção de algumas personagens.
Quando adaptei o texto de Sergi Belbel para cinema cheguei à conclusão de que o filme teria mais de duas horas e meia. Ora isso seria bastante complicado de concretizar.

Seria quase uma mini-série…
Exato [risos]. E por isso optei por contar a história no seu essencial. Tanto a avó, como o pai da Julia podiam ter tido mais ‘tempo de antena’. Optei por centrar a história nos três personagens principais – pai, mãe e filha adotiva, permitindo ao espetador diversas interpretações.

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Nos últimos anos o cinema fantástico espanhol tem ganho uma projeção cada vez maior. Como posiciona “Dictado” face aos seus pares?
Sem querer desmerecer alguns dos filmes espanhóis de terror dos últimos anos, como “El orfanato”, “Rec” e, tantos outros, creio que o meu filme está bastante à margem, uma vez que se trata de um terror psicológico real. Não há monstros, zombies ou grandes efeitos. Vi bastantes películas, não tanto para me inspirar, mas para saber o que tinha sido feito com crianças. Vi “The Night of the Hunter”, “O Espírito da Colmeia”… já os tinha visto, mas voltei a vê-los. Estes filmes usam o sobrenatural, coisas de extravazam a nossa realidade. Quis trabalhar nos antípodas disso. Disse a mim mesmo que não pretendia usar nada que fosse fantástico. Tudo real e construído a partir do próprio medo dos personagens. Não faz falta o sobrenatural, os fantasmas estão sobretudo na nossa cabeça. Os terrores mais importantes do ser humano estão na sua cabeça. É muito mais perturbador os terrores que a tua própria culpa pode despertar. Não os causados por uma criança. Ele sofre mais ao perceber que Julia está a afastá-lo progressivamente da sua mulher. O mais perturbador para Daniel é o castigo e o medo que lhe tirem o que mais quer. É o destino que coloca Julia na casa deste casal. Para Laura é perfeito porque é a criança que tanto queria. Para ele é o castigo que aguarda. Apesar disso, ele decide lutar e não se suicidar [como o pai de Julia].

A banda sonora tem bastante preponderância neste filme.
Por vezes pedia aos atores muita contenção, não tinham de mostrar o que se passava por dentro. E pensei que um bom canal para comunicar tudo isto era a música. Trabalhei com dois músicos. O primeiro tinha uma música muito poética, lírica e emocional, mas falhava do ponto de vista narrativo. Tinha de dar um maior apoio à narrativa. Acabei por contratar um segundo compositor. Felizmente entenderam-se bastante bem. Gosto muito do resultado final.

Qual é o desejo pedido por Daniel no início do filme?
O filme não diz e eu também não devia dizer. Mas tudo bem, hoje, excecionalmente, vou dizer. O desejo que ele pede é o de ser feliz com o seu pai. Que os outros todos se vão embora. Que nada se entreponha entre si e o seu amor nesse momento, o seu pai. Quando é adulto, volta a suceder o mesmo. Tem um amor que é a sua mulher e vem alguém de fora – uma menina – a colocar-se no meio.

O filme passou pela Berlinale e estreou em Espanha a 9 de março. Como está a correr a carreira internacional de “Dictado”?
Está a correr mesmo muito bem. Estou surpreendido porque acabou de ser comprado para o Japão e para a China. Só a China… é incrível, de facto. De resto, está prevista a estreia em diversos países da Europa.

O seu percurso no cinema está mais ligado à produção do que à realização. Consegue gerir bem esses dois mundos?
É muito complicado… não estou a caminhar para novo e pretendo produzir menos e realizar mais. Na calha tenho dois projetos. Mas para os concretizar preciso de tempo. Produzir um filme implica dispender de muitas horas ao telefone a tratar de burocracias e depois acompanhar o percurso do filme. É uma boa vida, mas perde-se muito tempo. Tempo que depois deixo de ter para realizar os meus próprios filmes.

Está a gostar de Lisboa?
Já cá tinha estado uma vez há uns anos. De facto, é uma cidade encantadora. Apresenta algumas semelhanças com Barcelona. Desta vez, trouxe a minha filha de 14 anos. Vou mostrar-lhe a Baixa, o Castelo e Alfama.

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