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Published on Março 3rd, 2012 | by Manaíra Athayde

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José Wallenstein: «O Estado não quer que haja cinema português e contra isto, batatas»

O premiado ator português esteve no Fantasporto para a antestreia de “A Moral Conjugal”, filme que protagoniza ao lado de São José Correia. Em entrevista exclusiva, fala sobre este recente trabalho, revela as suas expetativas sobre o cinema vernáculo e a Academia Portuguesa de Cinema. Lança ainda um apelo ao Estado para que zele pela produção nacional.

Já tinha trabalhado na primeira longa-metragem do realizador Artur Serra Araújo e, agora, a parceria solidifica-se com o novo filme do realizador, “A Moral Conjugal”.
Para mim, foi uma grande surpresa descobrir o Artur, principalmente como guionista. Acho que ele é um grande escritor de filmes pela complexidade narrativa, pelo rigor e qualidade dos diálogos. Há citações muito dramáticas que, ao mesmo tempo, têm muito sentido de humor. Também acabei por conhecer o universo pessoal dele, tornámo-nos muito amigos. É uma pessoa muito talentosa e inteligente, que está ainda numa fase de crescimento, mas já com muita, muita consistência. Eu tenho a certeza de que se o deixarem desenvolver o seu trabalho, ele vai-se tornar um grande realizador português e ficará na história do nosso cinema.

Já na primeira-longa, “Suicídio Encomendado”, de 2007, alguns críticos apontaram o estilo de Artur Serra Araújo como inovador em comparação ao que se costuma ver no cinema nacional. Concorda?
Acho que sim. Também trata-se de um autor mais jovem, com um pouco mais de trinta anos, com outro tipo de referências e que traz uma frescura ao cinema português. Nos filmes do Artur há, ao mesmo tempo, uma grande seriedade, dinâmica e graça infinita ao propor situações muito fortes que as pessoas levam tão a sério que se tornam engraçadas. Estou agradavelmente surpreendido com o filme [“A Moral Conjugal”], acho que é muito intenso, inteligente, sensível.

O que achou da reação do público nesta antestreia de “A Moral Conjugal”?
Também não tinha visto o filme, sabe. Conhecia o guião, é claro, mas não sabia bem o que é que ia ver e entrei na sala de cinema completamente inocente. E pela reação do público – as gargalhadas naquelas situações às vezes muito difíceis e tensas –, deu para constatar mais uma vez que o riso é uma grande arma da inteligência. Estou muito contente com o filme.

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José Wallenstein e São José Correia protagonizam A Moral Conjugal

Houve alguma reação do público totalmente inesperada? Uma cena que gravaram para ser lúgubre, mas que acabou por provocar risos, por exemplo.
Conheço o universo dos filmes do Artur e sei que há sempre essa dimensão trágico-cómica. Claro que cada trabalho é uma surpresa, mas o riso hoje foi muito inteligente e não sei se, por vezes, um bocadinho nervoso, porque as pessoas acabaram por ver a si próprias naquelas situações embaraçosas. Aquela cena inicial em que há um casal a conversar no carro, o diálogo terrível que eles têm antes de se separarem… Gerou muita gargalhada e eu não estava à espera. Mas é tão bem escrito e tão verdadeiro aquilo que eles dizem um ao outro que as pessoas riem, e também é um bocadinho de nervoso.

O cinema nacional está sob sinal vermelho?
Vejo a situação do nosso cinema com muita preocupação, há uma paralisia enorme. O cinema em Portugal não é uma arte rentável: somos apenas dez milhões de pessoas, não conseguimos invadir os mercados internacionais, estamos muito confinados ao mercado interno e aos festivais, enfim. Houve boas notícias nos últimos dias com os dois realizadores portugueses premiados em Berlim – fico muito contente por eles e pelas equipas que trabalharam nos filmes –, mas para mim não são exemplos do que acontece recorrentemente. Vejo a coisa muito difícil, não há trabalho neste momento para as pessoas que vivem disto ou que querem fazer disto a sua profissão. Espero que o governo ponha rapidamente os programas a funcionar e injete algum dinheiro na atividade, que é muito importante para assegurar a identidade cultural de um país.

A Academia Portuguesa de Cinema, apesar de recém-criada, tem contribuído para modificar, de alguma forma, esse cenário?
Está a dar os seus primeiros passos e a afirmar-se enquanto representante dos profissionais do setor, está a tentar ter uma voz. O importante é que nos organizemos para saber o que queremos fazer com o cinema português e a Academia talvez sirva para isto, ao mesmo tempo que tem por obrigação alertar quem tem o poder para a realidade atual da nossa produção cinematográfica. Infelizmente, em Portugal, não se consegue fazer cinema somente com as receitas das bilheteiras, aliás, como em todos os países da Europa, o cinema tem que ser financiado. O que vejo é que o Estado não quer que haja cinema português e contra isto, batatas.

Tem acompanhado as especulações sobre a possível lei – na gestão do novo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas – de fomento à produção audiovisual?
Não faço a menor ideia do que se está a fazer, mas também não tenho assim muitas expetativas. A coisa é muito simples: tem que se injetar mais dinheiro nos setores, se querem ter bom cinema, e pronto. A resistência à língua, as dificuldades técnicas e uma data de coisas estão ultrapassadas, o problema é mesmo a falta de dinheiro e cabe ao Estado decidir se se financia o cinema ou não.

Em Portugal, como vê o ensino nos cursos de nível superior ligados ao cinema?
Tenho feito nos últimos anos exercícios com finalistas da Universidade Lusófona, por exemplo, e vejo alunos muito interessados e dinâmicos, muito bem preparados tecnicamente e até a nível dramatúrgico. Há bastante interesse e muita qualidade, quer humana quer técnica. Acho que a ferramenta que falta é proporcionar às pessoas condições para fazer bons filmes e o máximo possível, porque só assim é que se alcança a excelência. E isto está nas mãos do Estado. É assim. É política.

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