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Published on Março 23rd, 2012 | by Filipe Pedro

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Juan Martinez Moreno: «”Lobos de Arga” podia ter sido filmado no norte de Portugal»

Depois de 15 anos passados fora, Tomás, um escritor pouco sucedido, regressa à sua terra natal, Arga, uma pequena aldeia na Galiza, convencido de que vão homenageá-lo. Está enganado. Na verdade, os vizinhos pensam sacrificá-lo para acabar com uma terrível maldição.

Mais do que um filme convencional de lobisomens, “Lobos de Arga” aventura-se pelo terror inspirado por John Landis (“Um Lobisomem Americano em Londres”) ou Neil Marshall (“Lobos Assassinos”), embora polvilhado por um humor refinado e caústico. Bem interpretado e escrito com astúcia e subtileza, o filme tira partido de alguns mitos populares, dos cenários naturais de diversas aldeias galegas e de uma pós-produção áudio de grande qualidade e eficácia.

De passagem por Lisboa a propósito do SyFy Fest, Juan Martinez Moreno, argumentista e realizador, e Gorka Otxoa, ator e protagonista de “Lobos de Arga”, proporcionaram-nos uma amena cavaqueira, ainda que salpicada de duras críticas ao panorama cinematográfico do país vizinho.

Lobos de Arga

Gorka Otxoa, ator, e Juan Martinez Moreno, realizador, apresentaram “Lobos de Arga” no 3.º SyFy Fest. Foto: DR

“Lobos de Arga” foi considerado pela FEST MAGAZINE um dos cinco melhores filmes do último Fantasporto, onde recebeu o Prémio da Crítica e uma Menção Especial do Júri.
Juan Martinez Moreno (JMM) – A sério? Muito obrigado! Foi uma emoção muito especial… O Fantasporto é um dos festivais de cinema mais importantes da Europa. Foi excelente o tempo que passámos no Porto. Parecia que tinha um brinquedo novo, foi tudo muito emocionante.

E duas semanas depois estão de volta a Portugal para apresentar o filme em Lisboa.
JMM – Na realidade temos passado quase mais tempo em Portugal do que em Espanha (risos). No Porto as pessoas divertiram-se muito, as apresentações correram muito bem. Aqui as expetativas são grandes. A semana passada decorreu o 9.º SyFy Fest (8 a 11 de março) em Madrid e foi incrível, com uma projeção maravilhosa.
Gorka Otxoa (GO) – Entretenimento puro e duro.
JMM – Sim, as pessoas riram muito, assustaram-se um bocadinho, foi delicioso.

Gorka, que poder tem a imaginação na criação do personagem que interpretas [Tomás, um escritor falhado que busca inspiração na aldeia galega onde viveu em criança]?
GO – A imaginação advém toda do escritor real, este senhor que está aqui ao lado, e que escreveu o guião de uma forma tão brilhante. Tomás escreveu um romance que ninguém leu, com uma edição praticamente invisível, mas que segue com as suas fantasias: «vou até à aldeia para escrever coisas». Ensaiámos um par de semanas os personagens e as situações, como qualquer outro trabalho de ator, ouvir o realizador e tentar fazer o melhor possível, com registos e emoções diferentes. E claro que me agrada que as pessoas estejam a apreciar bastante e a rirem que nem uns perdidos.

Também te divertiu ver o filme em sala?
GO –
Sim, sim…
JMM – Estás com alguma vergonha (risos)…
GO – Claro que gostei, mas interiormente dizes a ti mesmo: «bolas, não devia ter feito isto». O primeiro olhar de um ator é para si próprio. Só depois é que consegues desfrutar. Nas apresentações em festivais e mostras o filme funciona muito bem. As pessoas riem, aplaudem, a energia gerada nesse contacto com o público é incrível. Posso dizer que sim, que me diverti imenso a revê-lo, para mais com públicos muito expressivo no Festival de Sitges, na Semana de Cine Fantástico y de Terror de San Sebastián – geralmente muito participativo, as pessoas gritam, insultam-nos ou aplaudem. Vamos sempre com muito medo…
JMM – Já lá estiveste?

Sim, em Sitges.
JMM – Aquilo dá medo (risos). Levantámo-nos e saímos da sala…
GO – Os protestos e a gritaria começaram logo no genérico inicial…
JMM – Mas depois foi fantástico. Uma festa.
GO – Com aplausos em diversos momentos…
JMM – Depois de montado o filme, já com os lobisomens, tudo, fizemos um visionamento para a equipa e atores. E está bem, gostas. Mas quando apresentas o filme em Sitges pela primeira vez numa sala com público, dás-te conta que as pessoas entram, e que reagem ou não reagem. Ver um filme com público é como ver um filme a preto e branco a cores. Com e sem público é uma diferença abismal.

Foi difícil encontrar “Arga”?
JMM – Pois, como sabes “Arga” não existe. Como típico imbecil de uma capital, de Madrid, achava que na Galiza existiam estas aldeias mágicas e maravilhosas que ainda não foram descobertas pelo ser humano. Até que viajei até lá e me apercebi que essa aldeia parada no tempo já não existe na Galiza. Não existe nenhuma aldeia assim. O que fizemos para as filmagens foi utilizar algumas ruas de uma determinada aldeia, praças de outra e juntámos diversos locais diferentes para criar “Arga”. Tudo em redor de Santiago de Compostela. Estávamos a viver em Santiago e as aldeias estavam a 40 minutos de distância.

Achas que seria possível criar uma “Arga” no norte de Portugal?
JMM – Totalmente. A Galiza e o norte de Portugal têm uma enorme proximidade, mesmo do ponto de vista cultural. Escolhemos a Galiza não apenas pelos espaços, mas também pela luz, que é formidável, tal como em Portugal. As tradições que existem são mágicas… “Lobos de Arga” podia situar-se perfeitamente em Portugal.
GO – Vamos à sequela, com o sucesso que estamos a ter em Portugal (risos).

Como está a correr o percurso internacional do filme?
JMM – Está a correr muito bem, por vezes até melhor do que em Espanha. Vai estrear em Inglaterra, na Alemanha, Japão, Coreia do Sul, China, Tailândia… Temos participado em festivais muito bons, entre os quais o Fantasporto, vamos estar em Amesterdão, Bruxelas, Chicago, Seatle e Edimburgo. Em Espanha a distribuição dá muito trabalho… Fora temos tido muitas alegrias – como no Fantasporto e neste SyFy Fest – mas o cinema em Espanha está bastante mal. Há uma certa cobardia da parte dos distribuidores. Alguns não sabem vender o filme por não o conseguirem catalogar – é uma comédia ou é um filme de terror?

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Alguns críticos lamentam que o filme não tenha mais efeitos digitais. Foi uma questão de orçamento?
JMM – Foi uma decisão premeditada. Como espetador, quando vejo o abuso que está acontecer hoje em dia em que praticamente é feito de forma digital, já não acredito nas coisas. Por exemplo quando vejo o “Crepúsculo” ou a trilogia “Underworld”, muito bem, são muito interessantes, mas quando começam as transformações… não são credíveis. E ainda hoje fico cheio de medo ao ver “Um Lobisomem Americano Em Londres”, por exemplo. Para mim continua a ser a melhor transformação da história do cinema. Ou “Dog Soldiers”. Por isso foi uma decisão racional e objetiva da nossa parte. Não vamos utilizar o digital, mas maquilhagens usadas nos anos oitenta, as protéses, etc. Muitas pessoas pensam que é mais barato. Não, pelo contrário, é muito mais caro. Para teres uma ideia, cada lobisomem levava cinco horas a maquilhar-se. Ora, tu viste o filme, há cenas com mais de trinta lobisomens. Ou seja, vinte maquilhadores durante quatro semanas a trabalharem de noite, entre horas de rodagem e horas de trabalho, é muito mais dinheiro do que fazê-lo em digital.
GO – Imagina a preparação dos lobisomens pêlo a pêlo…
JMM – A mesma equipa que ganhou Óscares por “O Labirinto do Fauno”, de Guillermo del Toro, fez um trabalho notável no filme. Se calhar, quem sabe, a um jovem que cresceu num ambiente totalmente digital isto lhe choque mais, mas a mim parece-me muito mais real.

A pós-produção áudio do filme tal como a banda sonora dão muito ritmo ao filme e ajudam a contextualizá-lo. Concordas?
JMM – A banda sonora do filme é do compositor galego Sergio Moure. Aprecio muito o seu trabalho. Aliás, já tinha trabalhado com ele no meu filme anterior, “Un Buen Hombre”. O papel da música em “Lobos de Arga” é, sem exagero, 40%. Considero que os planos estão bem rodados, mas que o som e a música lhe dão muita vida. Demos muita importância à pós-produção e, sem falsas modéstias, acho que isso está bem patente no resultado final.

Gorka, próximos projetos?
GO – Acabei agora mesmo as filmagens de “Nemekitepá”, de Aitor Mazo e Patxo Tellería, uma comédia romântica rodada em Bilbao e em Barcelona. Deve estrear no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, em setembro próximo. Há outros projetos, mas Espanha está tão mal de soluções e de dinheiro que temos de confirmar quando e se se fazem.

A crise atrasou de algum modo o lançamento de “Lobos de Arga”?
JMM – Não. Bom, na verdade a crise é transversal à sociedade e afeta praticamente tudo. O filme estreou com 150 cópias e estavam previstas 200. Mas neste caso a dificuldade que tivemos para o vender tem mais a ver com a cegueira comercial das distribuidoras.

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