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Published on Março 21st, 2012 | by festmag

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“Petite Messe Solennelle”, de Rossini, na abertura do Festival Terras Sem Sombra

A Igreja Matriz de Sines recebe, a 24 de março, pelas 21:30, o concerto de abertura do Festival Terras Sem Sombra de Música Sacra 2012, com uma obra-prima de Rossini, a “Petite Messe Solennelle” para solistas, dois pianos, harmónio e coro.

Esta peça constitui um arranque à altura das expetativas do programa delineado para esta edição do festival pelo seu diretor artístico, Paolo Pinamonti: mostrar o papel do canto no universo da música religiosa, desde a polifonia do Renascimento até à vanguarda atual. Resgatadas do silêncio pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, as velhas igrejas alentejanas são, pelo “espírito de lugar”, pelos valores arquitetónicos e artísticos e pelas condições acústicas, espaços privilegiados para uma iniciativa com este perfil, que une o passado e o presente.

Sob a direção de Giovanni Andreoli, um dos mais destacados maestros europeus da atualidade, bem conhecido pela atuação à frente do Coro da Arena de Verona, vão cantar em Sines algumas das mais belas vozes da ópera: a soprano María Bayo, a mezzosoprano María José Montiel, o tenor Alexandre Guerrero e o barítono Damián del Castillo. A este elenco superlativo associam-se os pianistas Marta Zabaleta e Miguel Borges Coelho, com uma carreira culminante em França, enquanto Kodo Yamagishi assume a interpretação ao harmónio. Como poderosa moldura vocal, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que conhece atualmente uma nova etapa da sua longa história. Ingredientes que fazem deste concerto um momento particularmente significativo da temporada musical portuguesa.

Situada no coração do centro histórico de Sines, dominando a baía, a Igreja Matriz constitui uma referência para a região. Herdeira da basílica visigótica que aqui foi erguida no século V, sob a invocação de São Torpes, no século XIII tornou-se a sede não só da paróquia de São Salvador, mas também de uma colegiada da Ordem de Santiago. Aqui recebeu o batismo e tomou as primeiras ordens sagradas Vasco da Gama, que terá nascido na alcáçova do vizinho castelo. Mais tarde, em pleno século XVI, o templo foi alvo de várias remodelações, ao gosto manuelino. O atual edifício, porém, é fruto de uma campanha de obras, já na primeira metade do século XVIII, sob a orientação de João Antunes, arquiteto régio, que trabalhou assiduamente para as ordens militares. Austero e imponente, possui, além de uma importante tradição musical, sobretudo no domínio do cantochão, uma acústica notável.

Rossini, um marco na história da música religiosa

“Será música sacra a que acabo de fazer ou sagrada música?” Como explicou Cristina Fernandes no comentário a esta obra no catálogo do Festival, a questão foi colocada por Rossini no manuscrito da Petite Messe Solennelle, composta em 1863, mais de 30 anos depois de ter posto um ponto final à sua carreira operática. Não se trata apenas de mais uma das ironias caras a este mestre incontestável da ópera buffa, conhecido pela jovial verve humorística. Nela está implícita uma realidade da vida musical dos inícios de Oitocentos – a secularização da sociedade deu progressivamente lugar à secularização da música, ou seja, a arte que antes servia a glória de Deus passou a ser ela própria objeto de veneração, enquanto realidade autónoma, nas salas de concerto do século XIX.

Tal como Mozart, Rossini usou um estilo musical bastante semelhante na ópera e na música sacra. A sua atitude para com a criação musical foi a de um compositor perfeitamente inserido na sociedade e solidário com o público. Na Petite Messe Solennelle são evidentes os sinais desta nova era, pois não foi composta para uma cerimónia litúrgica (embora o compositor tivesse também em mente essa função), mas para a sala de concertos. Escrita quando contava 71 anos, pode dizer-se que constituiu o seu testamento musical.

Criador de quase 40 óperas, Rossini convertera-se num herói nacional em Itália e numa celebridade em toda a Europa. A maioria das suas obras teve um sucesso enorme e as árias favoritas do público eram entoadas pelas ruas. Porém, depois de ter atingido o cume da fama, com a estreia de Guilherme Tell, em 1829, abandonou a ópera, mas não deixou de compor, escrevendo obras religiosas. Durante as últimas quatro décadas de vida, parece ter-se dedicado a fazer o que lhe apetecia sem os constrangimentos da profissão. Devemos entender neste contexto também o seu comentário sobre a Petite Messe, designando-a como “o último pecado mortal da minha velhice”…

Dedicada à Condessa Louise Pillet-Will e interpretada na sua residência parisiense, em 1864, tornou-se um sucesso, aguardado com expetativa. A receção na imprensa foi altamente elogiosa, gerando comentários como “pequena missa, obra imensa”, a “manifestação suprema do génio de Rossini”, “uma data na história da música religiosa”. Segundo escreveu um dos críticos, “não se falava de outra coisa no meio musical para além da Missa de Rossini”. Na estreia estavam presentes ministros, embaixadores, o núncio apostólico, membros da Academia, diretores de teatro e compositores. A Petite Messe foi escutada com grande entusiasmo e no intervalo, a seguir ao Gloria, foi servido um buffet “digno de Rossini”, cuja celebridade se estendia também aos dotes culinários.

Músicos, espetadores e voluntários unem-se para preservar o litoral

Para além da programação musical, o Festival Terras Sem Sombra desenvolve diversas atividades de sensibilização ambiental, no âmbito da salvaguarda da biodiversidade local, tornando este projeto de descentralização cultural um conceito único que alia música, património e biodiversidade. Trata-se de uma ação aberta aos voluntários que queiram dar-lhe o seu contributo.

No dia 25, o Festival Terras sem Sombra une esforços com o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade, o Laboratório de Ciências do Mar da Universidade de Évora e o Município de Sines para uma ação intitulada “Um Litoral para Todos”. Esta iniciativa incide na diversidade de organismos e habitats da faixa costeira portuguesa, abrangendo também a componente geológica. Estará presente o Prof. Mário Ruivo, figura pioneira dos estudos oceanográficos em Portugal.

Uma das mensagens que lhe estão associadas prende-se com a necessidade de acautelar a gestão sustentável dos recursos marinhos, enquanto garante não só da sua conservação, mas também da sua rentabilidade económica. Desenvolvem-se igualmente atividades para a proteção da flora autóctone da faixa costeira alentejana – um “ponto quente” da diversidade biológica na Europa ocidental.

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