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Published on Junho 25th, 2012 | by Manaíra Athayde

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FLIP: «Mais do que um evento, um programa de educação permanente»

Há duas semanas do evento, que decorrerá de 04 a 08 de julho, a FEST MAGAZINE realiza, em direto do Rio de Janeiro, uma entrevista exclusiva com Mauro Munhoz, fundador e diretor da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

O arquiteto revela que o projeto inicial nada tinha a ver com a criação de um festival e que a FLIP é hoje um grande exemplo de transformação da comunidade. Fala ainda sobre a importância da herança portuguesa para a região e os novos anseios do projeto enquanto referência de desenvolvimento social por meio do turismo de cultura.

Mauro Munhoz, fundador e diretor da FLIP. Foto: Manaíra Athayde

Como surgiu o festival?
A FLIP surge quando, há mais de uma década, o projeto de revitalização urbana que eu fiz para Paraty foi recusado pelos poderes locais vigentes na época, tendo em vista que o projeto atenderia a um ciclo de pelo menos vinte anos, e não apenas os quatro anos de mandato de governantes. O consultor de uma ONG me alertou que, para atingir uma profunda revitalização urbana, era preciso criar uma nota mais aguda no campo da arte e da cultura, que atraísse a atenção do público e não ficasse dependente de políticas públicas fundamentadas em poderes locais temporários. Como já existiam festivais de cinema e de música sedimentados, o campo da literatura se mostrou inédito, sem concorrência.

Então a escolha da literatura como foco do festival foi secundária? Isto é, tratou-se de uma medida mais estratégica do que de uma paixão, de um interesse particular que culminou no projeto.
O projeto abrange a dimensão cultural da produção do território, em que o espaço físico é sobreposto por toda uma lógica de base cultural e estética – e a literatura tem visivelmente todas essas componentes fundamentais no processo de evolução do território. A literatura se apresenta como uma área que apresenta em potência a transformação da realidade da comunidade, o crescimento da produção local e a construção da cidade como referência para o turismo cultural.

E hoje, há interesse em levar a FLIP, ou pelo menos um evento com estrutura similar, para outro sítio, ou mesmo ampliar os locais de ocorrência do festival?
Quando nos convidam para levar a FLIP para outra cidade, explicamos como o festival surgiu – da própria negligência de políticas públicas, como eu acabei de contar. O nosso objetivo é ter um trabalho cada vez mais enraizado no lugar, inovador e qualificado em todos os âmbitos, desde a infra-estrutura para a atividade turística à prestação de serviço à comunidade. O que deve crescer são as atividades locais permanentes e pensadas a longo prazo, com o envolvimento de toda a população, a exemplo da Flipinha (parte da festa dedicada às crianças), as oficinas de capacitação e a requalificação urbana, como fizemos com a Praça da Matriz de Paraty.

A Praça da Matriz de Paraty recebe a Flipinha, projeto da FLIP voltado para as crianças. Foto: Manaíra Athayde

O festival completa uma década este ano. Qual o próximo passo do vosso projeto?
Nosso próximo plano é realizar a Biblioteca Parque da Costa Verde, que agrega natureza e espaços de estudo, acesso a meios digitais e consulta de livros.

O que é que há de mais especial na FLIP? O que a distingue de outros festivais?
A cultura não pode ser pensada como pretexto, mas como fundamento. Por isso, a FLIP não é um projeto de um evento, e sim um programa de educação permanente, em que ensinamos à comunidade não somente a ler palavras, mas o mundo. Temos uma visão crítica da evolução do território.

Por falar em evolução do território… A cidade foi construída em 1667 por portugueses, que fundaram mais de 250 engenhos de cana-de-açúcar na região. Um século depois, ouro e pedras preciosas eram escoados para Portugal pelo porto paratiense. Qual a grande herança deixada pelos portugueses?
A arquitetura, sem dúvidas. Engenheiros militares portugueses construíram Paraty: as famosas ruas com calçamentos em pedra, a dinâmica das ruelas para a passagem dos carregamentos de ouro, a rede de saneamento básico bastante moderna para a época, sem falar nos próprios edifícios arquitetónicos. Tudo isto tem valor universal, bens que sejam encontrados somente num determinado lugar, e é isto que torna um lugar património histórico, em que o futuro é olhar para o passado e aprender a fazer dele um lugar para a vida contemporânea.

A cidade é marcada pela arquitetura colonial portuguesa. Foto: Manaíra Athayde

Depois do período colonial, Paraty entrou num profundo isolamento e se manteve intocada durante dois séculos, sendo redescoberta como Património Histórico Nacional em 1966. Por que até hoje a cidade, apontada como uma das favoritas para a lista da UNESCO, ainda não alcançou o título de Património Mundial da Humanidade?
Paraty é uma cidade que lidou muito bem com a construção urbana até o século XIX, mas não conseguiu superar os desafios do século XX e foi tomada por ocupações irregulares e um crescimento desmedido, que sucateou toda a inteligência do sistema urbano implantado nos séculos anteriores. Talvez esteja aí a explicação para algumas reticências quanto a tornar a cidade Património Mundial, embora ela reúna um conjunto de bens universais que só existem ali, bens que não são apenas materiais, mas culturais e sociais. Descobrimos, por exemplo, que nos estaleiros ainda se usa a palavra fenícia «alefriz» para se referir a uma espécie de encaixe de tábuas que gera um suco na madeira.

Diz-se que o povo brasileiro herdou dos portugueses a «mania de que tudo o que é de fora é melhor»…
Isto está se transformando muito. Começamos a dar mais valor ao que é nosso.

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