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Crónicas no image

Published on Junho 10th, 2012 | by Paula Lagarto

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Reportagem Optimus Primavera Sound (dia 3) – O silêncio é de ouro e as palavras também

De branco. De lado. De óculos escuros J.Spaceman olhou no máximo duas vezes e bateu uma vez palmas para o público que à chuva ouviu Spiritualized. Às escuras no palco. De casaco vestido. Com a barba longa Warren Ellis cumprimentou o público logo nos testes de som dos Dirty Three. Mas o público do Primavera do Porto respondeu com o mesmo entusiasmo quer à falta de palavras de uns e às longas histórias dos outros. Porque os dois ambientes foram mágicos.

Ao final da tarde, uma rapariga loura ao meu lado até das pestanas pingava água da chuva que não parou – nem desmobilizou quem quis ver do principio ao fim Spiritualized. Valiam sacos do lixo por cima da roupa, impermeáveis e toalhas de piquenique distribuídos pela organização, lenços, chapéus de chuva ou mesmo nada sobre a cabeça e o corpo. Uma constipação ou a estreia de Portugal no Europeu de futebol ficava para mais tarde. E o impenetrável Spaceman em cima do palco lembrava, como se fosse preciso: “Lord Let It Rain On Me” (Senhor deixa que a chuva caia sobre mim). O alinhamento acabou com o ‘hino’ que juntou ainda mais público e banda: “Come Together”.

A chuva obrigou a trabalho extra no palco principal para retirar a água que se acumulou e fez cancelar a atuação dos Death Cab For Cutie. Quando o atraso era longo, nos microfones ouviu-se que a banda tinha de seguir viagem sem atuar. A opção foi subir ladeira acima, evitar a lama, e chegar até I Break Horses, que com toda a certeza nunca esperaram ter tanto público. Uma atuação que irei lembrar-me por causa do golo da Alemanha contra Portugal que assisti através de um telemóvel, que serviu de televisão para as más notícias.

Os Afghan Whigs mataram saudades a muita gente e contaram-me que no final entraram por terrenos de Prince. Nessa altura matava eu saudades de Lee Ranaldo. Ao contrário de há uns meses na Casa da Música, esta noite O sempre membro dos Sonic Youth não estava sozinho e mostrou como se faz a arte do ‘noise’ com um arco na sua guitarra elétrica. Acabou com uma homenagem personalizada aos Talking Heads, cantando “Thank You For Sendig Me An Angel”. Minutos depois, Lee Ranaldo estava do lado esquerdo do palco a fotografar Warren Ellis.

Ellis, que é demasiadas vezes associado ao compatriota australiano Nick Cave, começou a atuar com o palco às escuras. Foi testar o volume de som e cumprimentou quem o esperava. Com as luzes acesas dedicou a primeira música ao “Justin Bieber’s ass”, que fica sem tradução, não por pudor, mas por medo de estragar a piada. Da atuação instrumentalmente virtuosa, fizeram parte histórias, muitas histórias. Warren imitou Jim Morrison, fez o público traduzir para português o tema “Sometimes I Forget You’ve Gone” e contou o desejo de um encontro coletivo no seu quarto de hotel, que incluia café, banhos, peixes, LSD e depois um “sítio onde se pudesse comer um bife mais ou menos”.

No palco em baixo, assistia-se ao incómodo dos Kings of Convinence – que substituíram no cartaz a Björk -, com o som dos Dirty Three a impossibilitá-los de apostarem nas suas versões mais acústicas. Com filas de duas horas para levantar os bilhetes para os concertos de domingo na Casa da Música e a indicação de que a entrada no Hard Club é por ordem de chegada, o fim do Primavera para mim foi com The XX.

Um concerto a preto e branco, tal e qual como num filme rodado que se quer ver vezes sem conta. No registo contido habitual, mas que faz entrar em histeria o público, as vozes de Romy Madley Croft e Oliver Sim foram mais que um cobertor para a alma para combater o frio e humidade da praia ali mesmo ao lado.

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