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Literatura no image

Published on Agosto 1st, 2012 | by Manaíra Athayde

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A FLIP de Dulce Maria Cardoso e José Luís Peixoto

Os dois escritores representam Portugal na 10.ª edição da FLIP. Dulce lança «O Retorno», com memórias sobre o próprio drama familiar que viveu ao retornar de Angola, após a independência do país. Já Peixoto resgata a lembrança do pai e lê na íntegra o livro que escreveu meses após a morte dele. Em comum, os dois escritores trazem na bagagem reflexões sobre as profundas mudanças nas estruturas familiares e a relação entre passagens biográficas e a criação ficcional.

Dulce Maria Cardoso, em família
A romancista, que comemora uma década de carreira, participou da mesa «Em Família», no dia de maior público do festival, sábado, 7 de julho. Ela dividiu o palco com os escritores Zuenir Ventura e João Anzanello Carrascoza, todos a lançarem livros com o tema fulcral sobre as estruturas familiares.

Dulce Maria Cardoso conta que a sua mãe foi morar aos 11 anos de idade para São Paulo, com um tio, e que por isso ela e os irmãos cresceram a «ouvir histórias de lá». O interesse por histórias, especialmente as que falam sobre a família nuclear e as diferenças geracionais, interessam a escritora porque «a família é um laboratório do comportamento humano, onde os dramas podem ser experimentados», ressalva.

Ainda afirma que a profissão que exercia antes de se tornar somente escritora a ajudou no labor da temática. «Trabalhei muitos anos como advogada e não conheço amores mais fortes ou ódios maiores que os que existem no seio familiar».

«O Globo», «O Estado de São Paulo» e «A Folha de São Paulo» publicaram entrevistas com a escritora portuguesa. Foto: Manaíra Athayde

Em «O Retorno», livro lançado na FLIP, Dulce Maria Cardos desponta memórias sobre os retornados, levando para a ficção resquícios do que viveu com a própria família, que residiu por mais de uma década em Angola e foi expulsa depois da independência do país.

Dulce Maria Cardoso faz uma profunda leitura sobre as mudanças nas estruturas familiares. «O casamento por amor é uma possibilidade recente, pois a família como proteção também é um modelo recente. Era mais comum os amores condenados, os casamentos de conveniência, as famílias empresariais, em que se ter mais filhos significava ter mais trabalhadores para ajudar no sustento da casa», aponta.

A escritora ainda sublinha que «o grande desafio dos nossos tempos não é só satisfazer as necessidades, mas manter a excelência de proteção, em que a família deve ser sempre uma casa e nunca uma prisão», conclui.

Na terceira vez, uma primeira leitura
Não obstante à temática, José Luís Peixoto apresentou na Casa da Cultura, na sexta-feira, 6 de julho, o livro «Morreste-me», que leu por completo e prendeu o público por mais de uma hora ininterrupta de leitura.

«O que acabou de acontecer aqui para mim é muito confortável, que é deixar os próprios livros falarem. Posso dizer muitas coisas sobre aquilo que escrevo, mas só aquilo que escrevo é que pode se mostrar de facto aos leitores», declara o escritor.

O livro foi escrito há 15 anos, quando Peixoto tinha 22 anos de idade e estava a lidar há poucos meses com a morte do pai. Publicação de estreia do escritor, em 2000, «Morreste-me» é lançado este ano no Brasil como edição de oferta de «Livro».

«É um livro muito especial para mim, pois foi o primeiro que publiquei. Por isso tive vontade de fazer esta leitura na FLIP por saber que é um lugar que acolhe tão bem os escritores. Quem aqui vem já tem uma generosidade muito grande para com aqueles que escrevem», afirma.

O livro «Morreste-me» lido na íntegra na Casa da Cultura. Foto: Manaíra Athayde

Em casa
José Luís Peixoto participou na FLIP pela primeira vez em 2005, como convidado numa das mesas principais, na Tenda dos Autores. Em 2008 mediou algumas apresentações e participou de debates. «Quando vim há sete anos era completamente desconhecido no Brasil. Na altura estava a ser publicado o meu primeiro romance aqui, embora já tivesse vários livros em Portugal e em outros países», lembra.

Peixoto ainda revela que o festival potenciou o seu leque de contatos internacionais. «Aqui na FLIP, na altura [2005], existiram contactos que fizeram os meus livros serem publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos, o que é de uma importância imensa na minha carreira e na projeção do meu trabalho no mundo, porque essas edições por sua vez deram origem a outras», revela.

O escritor de «Nenhum Olhar», «Cemitério de Pianos» e «Livro», todos já editados no Brasil, autografou exemplares por mais de duas horas após a apresentação em Paraty. Falou que a relação com os leitores brasileiros acaba por ser «muito marcada» pelos livros que tem disponíveis cá, que não são os mesmos que tem disponíveis em Portugal. «Alguns demoram para atravessar o oceano, por isso a forma como as pessoas me vêem aqui é um pouco diferente porque não conhecem todos os livros».

José Luís Peixoto ainda passará por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Palmas antes de regressar a Portugal. E ele ressalva: «Mas já estou de regresso marcado ao Brasil em setembro, quando irei ao Festival Literário em Belém do Pará».

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