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Crónicas no image

Published on Agosto 2nd, 2012 | by Paulo Pereira

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3.º Mêda +: A idade da afirmação

Como tantos outros, também eu não fazia ideia onde ficaria Mêda até ao dia da minha primeira visita, na segunda edição (o ano passado, portanto), para atuar com a Inoportuna. Devido a isso, seguem-se umas breves coordenadas: Mêda fica a 70 kms da Guarda, 100 de Viseu e pouco menos de 400 (!) de Lisboa. Tem pouco mais de 5000 habitantes… o que é indicativo do sucesso do festival, visto que a organização referiu a passagem de cerca de 3500 pessoas pela edição do ano passado e 4000 pela deste.

O que nos leva à génese do surgimento do festival. Mêda + é um festival de 3 dias com entrada livre e campismo gratuito, assim concebido para atrair o maior número possivel de festivaleiros (um pequeno aparte: a palavra “festivaleiro”, assim como “fado”, não existe fora da língua portuguesa – pormenor que diz muito a respeito da nossa cultura). Paredes meias com o parque de campismo encontram-se as piscinas municipais, a 1€ por dia (nos dias do festival e para os campistas), rodeadas por um imenso relvado e onde, por vezes, se tem direito a sessão DJ levada a cabo pelos mesmos (DJs) encarregues de encerrar as noites de concertos.

O crescimento do festival deve-se a todas estas condições mas, sobretudo do ano passado para este, a uma fundamental: a melhoria na seleção das bandas. Enquanto o ano passado teve como bandas cabeça de cartaz das duas primeiras noites bandas “do meio da tabela” (Diabo Na Cruz e Tara Perdida que me perdoem a metáfora futebolística…) e a última noite nem isso (Alma Fábrica e Dexxis depois de, à tarde os Fura-Fura e a Inoportuna terem tocado fora do recinto, nas imediações do tribunal, como meio de cativar a população que não se iria deslocar ao recinto), este ano… este ano, mesmo dando de barato que as bandas cabeça de cartaz das duas primeiras noites podiam igualmente ser consideradas “do meio da tabela” (Fita Cola e X-Wife), é indiscutível que a noite de encerramento ganhou peso (e que peso!) com a presença daquela que é, aos meus olhos e aos de muitos mais, a melhor banda portuguesa – Mão Morta. Para mais acompanhada dum valor emergente da música portuguesa de quem ainda vamos ouvir falar muito de futuro – Matilha.

Fora isto, a mesma estrutura base do ano passado: três bandas por noite seguidas de DJs. Posto isto… passemos à crónica da III edição. Primeira impressão ao entrar no recinto: o palco, relativamente ao ano passado, tinha sido mudado de local, ficando bem mais perto da entrada e ganhando qualidade sonora. O palco encontra-se num mini-anfiteatro natural a fazer lembrar o palco principal de Paredes de Coura.

Segunda impressão – que vinha já do parque de campismo e se confirmou no recinto: encontrei um paralelismo entre o Optimus Alive e o Mêda + no sentido em que, enquanto no Alive ouvi tantas línguas europeias que ainda pensei ser o único português presente, no Mêda + ouvi tantos sotaques/dialetos provenientes do Mondego para cima que pensei ser o único lisboeta. Exageros à parte, é perceptível (audível) que este festival começa a atrair cada vez mais público das redondezas… e nem tanto.

Terceira impressão (que, como a segunda, vinha do parque de campismo e se confirmou): o ambiente entre o público foi completamente harmonioso e a relação entre as bandas e o público, como vim a entender/sentir no fim do festival, era duma empatia rara. Talvez por o anfiteatro permitir que toda a gente conseguisse olhar os outros olhos nos olhos, bandas incluídas. Comunhão.

Dia 1: Quando chove e cai granizo em finais de julho e no primeiro de três dias de festival, isso pode não só ser mau augúrio como funcionar como um repelente para o público “de fora” – neste caso, a esmagadora maioria. Não obstante, o público “pegou o touro pelos cornos” e esteve pela piscina como se estivesse um dia de sol tórrido… de facto, antecipando o clima para os dias seguintes.

Coube aos Glockenwise (que trocaram de lugar no alinhamento com os Cepa Torta) a ingrata tarefa de dar o pontapé de saída. Era quinta-feira, véspera de dia de trabalho (não esquecer que para além dos festivaleiros de fora muitos “nativos” passaram pelo festival) e o clima ainda não tinha estabilizado, o que justifica o pouco público. Dadas as condicionantes, a banda deu um concerto que não deslumbrou – até por a matiz do seu som ser algo repetitiva, a meio caminho entre o indie e o punk – mas foi honesto. “Local Song For Local People” foi uma das diversas canções (já lá vamos…) deste festival que pareceram ter sido feitas propositadamente para ele. Quanto aos Glockenwise, deixaram a curiosidade de voltar a ouvir temas como “Stay Irresponsible” ou “Bardamu Girls” noutro contexto.

De seguida, e repetindo a presença no ano anterior, veio a banda “da casa”, Cepa Torta. Praticantes de um rock clássico e virtuoso tocado com alma brindaram os presentes com uma atuação misto de covers (Led Zeppelin ou Dire Straits com “Sultans of Swing”) e originais. “Dias de Raiva” foi o ponto alto da atuação e o melhor elogio que se lhes pode fazer é que deixaram o público devidamente aquecido para receber os cabeças de cartaz da noite.

Os Fitacola tiveram ao seu dispor a primeira mini-multidão do festival e fizeram bom uso dela, graças a um concerto energético que passou por todos os pontos da sua carreira. Apercebi-me também que, talvez devido à (maior) proximidade (os Fitacola são de Coimbra), a música da banda foi recebida duma forma diferente daquela com que é recebida, por exemplo, em Lisboa. Mais calorosamente. “Desafio Principal” terá sido a sua melhor interpretação… se excluirmos o encore com o clássico do grande Mãe do Rock Português José Cid. De facto, num dia de verão em que até granizo tinha caído, “Cai Neve Em Nova Iorque” encaixou que nem um preservativo e, como estes, proporcionou um final feliz à primeira noite.

Final? Nem por isso, porque de seguida vieram os DJs Los Ramonas que estiveram a dar rock, punk e afins serão fora – e quase provocaram uma epifania a alguém quando passaram Pantera.

Dia 2: Contado, ninguém acreditaria como o tempo tinha estado na véspera. O segundo dia do festival teve um sol radioso e tórrido que me levou (e a tantos mais) a passar praticamente o dia todo na mítica piscina. E só saí daquele relvado primoroso à beira-água plantado para procurar onde ver o jogo da Taça Deusébio. Encontrei um sítio perto do local onde a Inoportuna atuara no ano passado (de seu nome “O Morgado”, passe a publicidade) que me atraiu logo… pela cor (do toldo às paredes interiores, tudo vermelho.) Pareceu-me bom presságio e, para além das 5 batatas servidas pelo Glorioso ao Real KKK, ainda tomei contacto com a melhor gastronomia típica da Beira Alta: o kebab no pão e o hambúrguer especial aka bomba de colesterol, um hamburguer que parece uma bola de berlim prestes a explodir… coberto de queijo e molho de francesinha. Só para glutões… mas delicioso.

Este 2.º dia começou logo com aqueles que, não fora pelos Matilha, no dia seguinte, teriam de ser considerados a revelação do festival: Bisonte. Ao início da atuação estavam a tocar para uma imensa minoria, mas o som bruto, as palavras provocatórias (quer cantadas quer proferidas pelo cantor para o público), a irreverência e imprevisibilidade – tanto no som como nos passos do cantor – tiveram o efeito de três chapadas depois de nos terem sacudido violentamente pelo colarinho. “Laia” ficou-me na cabeça, assim como “E Depois do Adeus”, ou Paulo de Carvalho como nunca o ouviram. Moral da história: o Bisonte é grande. O Bisonte leva tudo à frente. E demais trocadilhos que possam ocorrer com o mesmo sentido.

Depois do Bisonte seria difícil manter a fasquia. Vieram os setubalenses Doups, com o seu britpop via Franz Ferdinand, e o melhor que se pode dizer é que foram esforçados e competentes na aplicação da sua fórmula pop. “Now I’m Going” puxa (como quase todas as suas criações) a bater o pezinho ritmadamente no chão mas o momento alto da atuação foi a chamada a palco do público para dançar (saltar) ao som de “Joyful”.

É-me difícil ser imparcial relativamente aos X-Wife sendo uma das pessoas que acha que o mundo seria um lugar melhor se o líder da banda, João Vieira, nunca a tivesse formado e tivesse seguido carreira unicamente como DJ Kitten. Dito isto, há que reconhecer que a banda deu um concerto profissional e competente, indo aos “hits” acumulados ao longo duma década de existência e dando primazia ao rock em detrimento da eletrónica. Entre outros, “On The Radio” e “Ping Pong” foram temas que puseram a Mêda aos saltos.

Que me desculpe o DJ Victor Pirez mas (pelo menos o início do) seu set estava a ser demasiado gélido para uma noite que já de si estava fria. Dei-lhe dez minutos para me seduzir. Não o conseguiu.

Dia 3: Depois de voltar a acordar com mais gente na tenda que aquela que lá estava quando me deitei (o preço a pagar, digo eu, por não ter tenda e ter sido posto na “tenda dos podres” – atenção que isto não é uma reclamação, bem pelo contrário!) e ter passado a segunda tarde consecutiva a torrar na piscina, era chegado o “dia M”. Sim, porque (e Mulher Homem que me desculpem por não entrarem neste raciocínio) tinham sido 2 (na verdade, 3…) “Ms” a convencer-me a regressar a Mêda: Matilha e Mão Morta.

A abrir, Mulher Homem, companheiros de editora (MAR – Movimento Alternativo Rock) e de digressão de Matilha. Um trio composto por vocalista (com dois microfones, um dos quais com efeito de eco), guitarrista e baterista. Tiveram um vocalista extremamente comunicativo (até demais) e apresentaram um rock esquizofrénico, entre o furioso e o plácido, com laivos “arty” e letras pouco óbvias. Até nos títulos das canções: “Se o Sufoco Falasse”? Para já estranhei, talvez com uma segunda audição se venha a entranhar – ou não.

De seguida veio a revelação do festival – Matilha. Bateria, baixo, voz e sintetizador. Melancolia a rodos nas letras aliada a uma sonoridade vibrante, onde o ritmo marca o pulsar do som da banda e o sintetizador se encarrega de o levar até destinos imprevistos. Tiveram um concerto em absoluto crescendo, iniciando-o com pouca gente à frente do palco até o terminar com uma pequena multidão a cantar as suas letras e a empunhar um cartaz inspirado numa sua canção: “Fiquem Mais Um Pouco”. Essa, aliada a “Andar Perdido” (candidato a “single” nacional do ano, na minha opinião) e ao “Fim”, canção com que encerraram o concerto (poema de Mário de Sá Carneiro) foram pontos altos dum dos melhores concertos do festival.

Para encerrar com chave de ouro… Mão Morta. Que dizer? Há 20 anos que vou a concertos em geral e de Mão Morta em particular. Já os terei visto dezenas de vezes e nunca os vi dar um concerto fraco. Não haveria de ser aqui…! A entrada foi poderosíssima, com “Tu Disseste”, “Velocidade Escaldante” e “Arrastando o Seu Cadáver” a serem servidas com mestria. A partir daí foi um desfilar de clássicos (“Barcelona”, “Novelos da Paixão”, “Oub’lá”…) com espaço para surpresas: um tema novo (!) chamado “A Ver o Mar” e outro, pertencente ao álbum “Corações Felpudos”, que quase nunca é apresentado ao vivo, chamado “Destilo Ódio”. A tripla final foi também digna de realce: “Anarquista Duval”, “Budapeste” e “1.º de Novembro” a encerrar com um Adolfo possuído a vociferar sons ao micro ao ritmo da ladainha da música. Geniais. Como sempre.

De seguida, a dupla de DJs Mete Cá Sets ocupou o palco e levou a multidão a permanecer até ao raiar do Sol. Que tipo de música passaram? Tudo e mais alguma coisa. Para o menino e para a menina. Para mim Snoop Dogg chegou! Às tantas, em horror, oiço algo que mais tarde me vim a aperceber ser uma canção de D’Zrt. Passado o choque, só me restou concluir que, assim como para eles, “Para mim tanto me faz”. A festa estava a acabar. E que festão foi!

À laia de conclusão devo afirmar que, pelas bandas, pela harmonia entre os festivaleiros, pela beleza natural, pela já mítica piscina, pela hospitalidade das pessoas e pelo custo reduzido (transportes e alimentação), o Festival Mêda + merece entrar no roteiro de cada vez mais festivaleiros. Como Martin Luther King, também eu tenho um sonho: quero ver os Parkinsons em Mêda. Se for para o ano podem desde já contar com a minha presença.

NOTA: Provavelmente desconhecendo (porque 1998 não foi bem há 15 dias) o mito urbano-rural da “Elsaaaaaaaaaaaaaaa!” (grito omnipresente no Sudoeste desse ano, em busca duma suposta Elsa que se tinha perdido das amigas), os festivaleiros Mêdenses criaram um mito em tudo semelhante. Será que para o ano, assim que lá chegar, vou logo ouvir alguém a berrar “Oh Saraaaaaaaaaaaaaa!”?

PP aka M@d Professor de Mêda (texto e fotos)

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