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Published on Agosto 8th, 2012 | by Manaíra Athayde

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Jonathan Franzen e Ian McEwan, os mais aguardados na FLIP

Os dois escritores são as atrações internacionais mais esperadas da 10.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Ambos estão a divulgar os seus mais recentes lançamentos e, em comum, parecem mesmo ter apenas a Língua Inglesa.

No divã, com Franzen
Frases como «ok, eu estou divagando» e muitas reticências, pausas e elipses são comuns quando se conversa com Jonathan Franzen, que ganhou todos os redutos mediáticos quando saiu na capa da Times em agosto de 2010 como «o grande romancista americano».

O convidado mais aguardado da 10.ª edição da FLIP entrou no palco na sexta, 06 de julho, da mesma forma como nos concedeu a entrevista: trazia uma mochila enorme nas costas e um ar absorto de quem estava ali por acaso. Parece não ter agradado tanto assim a plateia e confessa, quando questionado sobre sua relação com o público: «Pouco antes de vir para aqui [Paraty, Rio de Janeiro], tive uma crise, entrei em pânico. Só pensava: “eles vão saber que eu sou uma farsa”. Sou uma pessoa…, ok, admito, faço terapia há tempos».

A Tenda dos Autores recebe cerca de 800 espetadores para a conferência de Frazen. Foto: Manaíra Athayde

O americano se assume como um romancista exagerado, que passa por cima dos anos bons e se concentra em tempos ruins. «Costumo, por vezes, afastar-me da vida e viver num mundo inventado», afirma. «A águia comendo o fígado de Prometheus… Sou eu comendo o meu fígado diariamente. Quando tento falar sobre isto de escrever parece uma espécie de terapia. Eu não preciso de terapia enquanto estou a escrever um romance. Eu me abro, mostro o meu fígado dia após dia, é um problema vital qualquer. Eu pareço uma pessoa com muita raiva de sua própria mãe», tenta explicar sobre a relação que tem com a escrita.

Psicanálise para quê?
Longe de quaisquer teores psicanalíticos, ao menos pelo que aparenta, o inglês Ian McEwan, que também lotou as 800 cadeiras da Tenda dos Autores, aparece mais descontraído à entrevista e à apresentação, no sábado, 07 de julho. Com quase quatro décadas de carreira, o escritor acaba de lançar o seu 22º livro, «Serena», e fala da relação de suas obras com o universo adolescente.

«É o início da vida adulta… Eu gosto de manter as linhas abertas, esteticamente é libertador trabalhar com a adolescência. São os primeiros passos, em que se define o curso da vida. Eu mesmo segui uma direção equivocada e dei um passo em falso», revela.

McEwan lança seu novo romance de espionagem, «Serena», na FLIP. Foto: Manaíra Athayde

Ian McEwan ainda diz que uma das mais importantes reflexões é sobre o passado. «Alguém que comete um erro consegue mudar, sim. As mudanças só são possíveis na reflexão e na meditação, o esquecimento é muito perigoso. Vivemos na era do esquecimento coletivo», ressalva. O escritor diz que, mediante o tipo de literatura ao qual se dedica, acusá-lo de ser manipulador é acusá-lo de ser romancista.

«Este é o prazer principal que eu tenho na vida. Não é ser sádico. É como fazer cosquinha nas guelras das trutas, assim o escritor também faz com o leitor. Ao escrever um livro, as primeiras impressões são cruciais. Depois das primeiras frases, as portas se abrem. Eu gosto de fazer cócegas nos leitores quando escrevo». E completa: «Talvez todos os romances sejam de espionagem, pois todos se prendem à narrativa da nossa existência. O romance é uma reflexão do processo de esconder informações e liberá-las devagarzinho. Não acho que seja uma questão de género».

Quando questionado sobre a associação de romances de espionagem a «livros leves», refuta: «O romance de cosquinha não é antagónico ao romance de tensão. Aliás, são um só. Primeiro fazemos essa cosquinha no leitor e depois levantamos os problemas. Há os gestos iniciais, os primeiros passos. Depois colocamos os problemas, as portas que rangem», afirma.

A escrita analítica e o entretenimento
Jonathan Franzen parece mais envolvido com a ideia de que a escrita «precisa de tensão, de estresse. E o mundo, por sua vez, o que pede de nós é equilíbrio», comenta. «Escrever é ficar muito tempo sozinho e conversar comigo mesmo. O importante para mim é escrever com o que me identifico, usar a capacidade de entretenimento para preservar a possibilidade de individualidade e o livre arbítrio, tentando salvar a humanidade, só isso [risos]», explica.

Engajado com romances analíticos e políticos, que retratam estruturas sociais e cernes familiares, Jonathan Franzen deixa claro as suas ressalvas quando dos padrões capitalistas, desde a própria estética pós-moderna que utiliza como nicho para a sua literatura a pequenas piadas que faz ao longo da entrevista, como comentar que a FLIP é patrocinada pelo Mastercard. «Há um “mastercardão” logo na entrada da cidade», brinca em tom sarcástico.

Quando questionado por que no início da carreira, no final dos anos 80, ele escrevia artigos atacando os «célebres escritores mediáticos» e anos depois aceitou sair na capa da Times, ele responde: «Estava irritado e agressivo naquela altura. Desespera-me a cultura mediática americana. Os romances medianos desapareceram. Agora são as super estrelas e os ninguéns e eu estava ressentido na época por não ser nenhum nem outro. Sentia-me um ninguém, é verdade. As grandes corporações compram as pequenas editoras e só pensam no lucro», diz.

O escritor diz se sentir «no lado dos ninguéns». Foto: Manaíra Athayde

Ainda em defesa, continua: «Culturalmente eu estou no lado dos ninguéns, embora a minha condição tenha mudado. Como diz uma música da Jennifer Lopez: “tinha pouco, agora tenho muito” [risos]. A cultura não é um elemento marginal suplementar, é preciso reconhecer profundamente a maneira de pensar dos outros e isto é de ordem da cultura».

Franzen e Foster Wallace
Essas ambivalências também se fizeram presentes na relação de Franzen com David Foster Wallace, com quem teve uma profunda amizade, interrompida com o suicídio do escritor nova-iorquino em 2008. «A nossa relação era baseada em comparar, contrastar e conferir o que cada um estava a fazer. Eu pensava: “Ele foi tão estudado pelos académicos, assim como eu gostava de ser…”. E ele pensava: “O Franzen ganhou muito dinheiro, será que vou ganhar também?”», conta. Franzen e Foster Wallace fazem parte da mesma geração temporal e estilística, onde a filosofia e a política têm papéis fundamentais na construção dos romances.

Liberdade
«O 11 de setembro foi um ataque mediático e político baseado no ataque terrorista. Levei muito tempo para escrever esse livro porque estava à espera de que passasse toda aquela onda para dar a minha visão de romancista», explica Franzen sobre a sua mais recente publicação, «Liberdade». «Um dos meus personagens principais é um jovem republicano, desiludido. Eu estava com muita raiva na altura em que comecei a escrever aquilo. É uma coisa estranha a política, é uma espécie de água e óleo que flutua sobre o resto», argumenta.

No seu mais recente romance, Franzen faz uma releitura do 11 de setembro. Foto: Manaíra Athayde

O escritor de «As Correções» e «Como Ficar Sozinho» diz assumir em «Liberdade» o seu lado feminino mais aguçado. «Eu próprio já critiquei vários romancistas que escrevem do ponto de vista feminino. Eu dizia: “Vamos lá, sejam machos!”. Patty [protagonista] parece esquisita, mas ela tinha que vir. Eu queria personagens masculinos, são mais difíceis também. E se o personagem for como eu, eu detesto, rejeito imediatamente», confessa.

Processo criativo
Ian McEwan diz que, no seu caso, «a escolha artística e de personagens não é consciente. Entro como sonâmbulo no processo, é como pintar: um traço leva a outro traço, que tem que ser consistente e coerente com o traço anterior para aparecer a forma, aparecer o rosto. As personagens nos escolhem», explica.

O escritor inglês afirma que as personagens, após a escrita de um livro, não continuam a fazer parte de sua vida e que «a melhor forma de matá-las é falar sobre elas, como estamos fazendo aqui. As minhas personagens congelam, eu gosto de ter o palco limpo, começar de novo. Ler os outros através de seus olhos, adivinhar as suas sensações, ser outra pessoa. Ter a outra mente descascada, acessível de forma singular». E continua: «Você pode ensinar a técnica da escrita, mas é uma questão vital, intrínseca. Escrever não é um esforço constante, você habita o personagem e tudo segue. Os meus livros têm finais ambíguos, enquanto a maior parte dos romances de espionagem possuem finais felizes sem ambiguidades. Duvidar, contestar: esta é a arte da criação».

Tanto Ian McEwan como Jonathan Franzen ressalvam a importância de aprender a fazer personagens com grandes escritores e destacam a literatura russa no panorama da literatura universal, a citarem em comum Leon Tolstoi, Fiódor Dostoievski e Anton Tchekhov. McEwan ainda menciona James Joyce e Kafka como autores de referência. Frazen diz ser leitor dos escritores brasileiros Bernardo Carvalho, Chico Buarque e Milton Hatoum.

No Brasil
Quanto ao Brasil, Ian McEwan é pontual: «Gosto da literatura de espionagem que se desenvolve aqui, pois reflete muito sobre conflitos de espaço. Também adoro ouvir o português brasileiro: é encorpado, líquido, sonoro». Conta com bom-humor que o filho começou a namorar uma brasileira e acabou por ir morar em São Paulo. «Ele me ligou dizendo: “Pai, este é o meu país”».

Jonathan Franzen, que sobre a família mencionou apenas ter se separado numa conturbada fase depressiva e tempos depois ter retomado o casamento [com Valerie Cornell], tentando conciliar a vida prática à entrega absoluta à escrita, diz que no Brasil o que mais gosta «é de ver os pássaros raros que só existem aqui». Franzen também é conhecido por ser um grande observador e defensor de pássaros, coincidência ou não símbolos da liberdade. Quem sabe seja o indício da «liberdade» que o escritor tanto diz procurar.

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