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Crónicas no image

Published on Setembro 5th, 2012 | by Paulo Pereira

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Crónica do melhor dia do Bons Sons

Em abono da verdade tenho de dizer que o que me fez ter vontade de ir ao Festival Bons Sons foi a sequência (para mim) devastadora (elogio!) de concertos programados entre as 22:00 e a 01:00 de dia 17 – o segundo dos 4 dias de festival: Linda Martini/The Legendary Tiger Man/Paus?! Passe o exagero, por tal sequência de bons (ótimos!) sons seria capaz de ir a Beirute.

Chegado a Cem Soldos não precisei de muito para me aperceber que este não seria “mais um” festival: a aldeia em si ERA o recinto do festival! Não se tratava de haver um ou mais espaços nos arrebaldes da dita com palcos e “largueza” para “soltar os malucos”; o que havia era um aproveitamento total das potencialidades da aldeia para receber o público. Para além dos vários palcos (nos arrebaldes, o Palco Eira; no centro da aldeia os Palcos Lopes Graça e Giacometti) houve uma feira de Marroquinarias (que, admito, me provocou uma certa sensação de claustrofobia por não estar à espera de ver uma Feira da Ladra campestre coexistindo com o festival), uma bem interessante exposição dedicada à crítica/intervenção social, fruto do projecto “Portugal 2011 Ano Nacional da Crise” num armazém transformado por dias em Centro de Exposições, casas de portas abertas, um posto de informação onde nada era deixado ao acaso (ao guia detalhadíssimo entregue a cada festivaleiro acrescente-se o presskit valioso entregue aos membros da imprensa), uma igreja transformada em (outro tipo…) de palco (neste caso, relativo aos projectos da MPAGDP – Música Portuguesa A Gostar Dela Própria)…

… e por aqui começarei para “despachar” desde já a única atuação de que não gostei: na igreja/palco MPAGDP, apanhei um pouco da atuação de Abaixonado. Não conhecendo o artista em questão, depois de ter lido o que vinha no guia a seu respeito tive a sorte de ouvir outro artista (que atuaria noutro dia e cuja identidade será mantida em segredo) descrever-mo de modo mais compreensível (para mim) como sendo um sub B Fachada. E o pior é que era mesmo! A única razão pela qual lhe dedico (mais) estas linhas é que achei no mínimo curioso que, numa altura em que tanta celeuma estejam a causar as Pussy Riot, ninguém tenha pestanejado ao ouvir o artista em questão cantar profanidades vernaculares no altar da dita igreja. Independentemente disso, a música era de facto muito má.

Após este primeiro momento que não deixou saudades fui fazer tempo vendo a exposição previamente referida, passeando pelo recinto/aldeia e fugindo do palco onde atuava o António Zambujo. Assisti a um bocado do jogo de abertura do campeonato nacional num (no?) café da aldeia e ao sair parei um pouco num banco de jardim pouco tempo mas ainda assim o suficiente para ver os membros dos Paus passear por ali num registo de anonimato.

Pouco antes das 22:00 dirigi-me ao Palco Eira e em boa hora o fiz, visto que outra das imagens de marca do festival foi a pontualidade. Após uma breve apresentação subiram ao palco os Linda Martini. Um amigo que me acompanhava disse que, anos atrás, os seus concertos eram praticamente instrumentais (sublinhe-se o “praticamente”, até porque o tema que “antecedeu” a banda – “Amor Combate” – é vocalizado), pelo que, primeiro ponto a favor: as vocalizações, quer em uníssono (“100 Metros Sereia”) quer com vozes a cantar alternadamente deram outro corpo à música do grupo. E que música é esta? Pegando numa deixa fácil (chamar “Juventude Sónica” a uma canção não pode ter sido inocente…), faz lembrar uns Sonic Youth menos virtuosos e mais monolíticos (pode não parecer mas é um elogio!). Mais: inexplicavelmente, é música capaz de transmitir uma melancolia imensa, quase como se dum fado elétrico se tratasse, ainda que a anos luz do que define tal som – e ainda bem!

Para além das 3 canções previamente referidas, “O Amor É Não Haver Polícia” e sobretudo “Dá-me A Tua Melhor Faca” conseguiram arrebatar o público que correspondeu em calor ao que vinha de palco. Amor com amor se paga – e neste caso ninguém ficou a perder.

Cerca de meia hora mais tarde, a algumas centenas de metros de distância, foi chegada a altura de assistir à atuação de Paulo Furtado aka The Legendary Tiger Man no Palco Lopes Graça. Uma palavra chega para descrever o concerto: irrepreensível. Extremamente comunicativo, não deixou que houvessem momentos mortos ao passar de um instrumento para o outro e com a “souplesse” de quem já anda nisto há muito tempo revisitou temas da totalidade dos seus álbuns, do pioneiro “Naked Blues” ao seu disco a meias com uma multidão de cantoras, “Femina”. Mostrou ser capaz da mais melodiosa harmonia assim como da mais desvairada injeção de adrenalina – tudo apenas e só com guitarra(s), microfone(s), bombo e tarola. Ah!, e esse instrumento tão importante para um “one-man band” como é o kazoo…

O melhor elogio possível é que as interpretações de “The Saddest Thing To Say” (com a participação de Lisa Kekaula em video) ou “Life Ain’t Enough For You” (sem Asia Argento) não desiludiram quem quer que fosse. O que diz muito se tivermos em consideração tratar-se de dois duetos em que o “confronto” voz masculina/voz feminina define boa parte das canções.

Cerca de meia hora mais tarde, novamente no Palco Eira, o momento mais aguardado da noite – e não apenas por mim: o concerto dos Paus. Depressa me apercebi de algo que já suspeitava – a sua música ou é amada ou odiada – sem meios termos. Com as baterias a exigirem protagonismo desde logo pela colocação em palco e com um baixo e um/dois teclados (dependendo das necessidades, Makoto Yagyu trocaria as suas 4 cordas por um segundo teclado a juntar ao de João Pereira), a música dos Paus é uma entidade visceral que, mais que para ser entendida (ainda que tenha momentos vocalizados), existe para ser sentida. E como o foi! Desde “Mudo e Surdo”, a segunda música, que fui como que agarrado pelo colarinho (imaginário) e massacrado por aquela combinação de ritmo (mais) e melodia (menos) que inebria e atordoa… Por entre “Tronco Nú”, “Malhão”, “Muito Mais Gente”, “Pelo Pulso” ou “Ouve Só” consigo distinguir “Mete As Mãos À Boca” como ponto alto do concerto (também) pelo alucinado crowd surfing de Makoto (que lhe correu desta vez muito melhor que no Meco…) e os momentos em que Joaquim Albergaria (quiçá reminescências do seu papel de frontman em Vicious 5) comunicou/puxou pelo público e abandonou a bateria para cantar como os pontos baixos. Se nos Vicious 5 ainda era tolerável, em Paus é perfeitamente dispensável… e prejudica o produto final. Mesmo assim, excelente concerto!

Antes de abandonar o recinto ainda voltei ao Palco Noites Longas (o Palco Lopes Graça para o “after-hours”) para saber o que seria (a) Batida. Música eletrónica à mistura com sons angolanos, dançarinos em palco vestidos de guerreiros e uma atitude de folia hedonista para acabar a noite com um sorriso nos lábios. Pela parte que me toca, missão cumprida!

Nota: Não poderia terminar este texto sem referir que, à 3ª edição do festival, tenham sido atribuídas as receitas para dois projetos sociais na aldeia – o Lar Aldeia e a Casa Aqui Ao Lado. Porque os festivais e as suas gentes existem 4 dias a cada 2 anos mas a aldeia de Cem Soldos precisa de subsistir todos os dias do ano. E com o Bons Sons tem-se um bom meio para ajudar a atingir esse fim!

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