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Ácidas no image

Published on Novembro 7th, 2012 | by Hernâni Duarte Maria (realizador)

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Crónicas ácidas: «Para que servem os festivais de cinema?»

Com este título inicio uma série de crónicas sobre cinema e as suas mais variadas vertentes, quer sejam festivais, filmes, curtas-metragens, realizadores, atores ou demais assuntos na FEST MAGAZINE. O título poderá ser provocatório, talvez seja, mas a pergunta que faço e deixo no ar é essa mesma: «Para que servem os festivais de cinema?».

Refiro-me somente ao ambiente do universo cinéfilo nacional, pois deverá ser do conhecimento geral, em particular para quem trabalha neste meio, que em Portugal existem imensos festivais de cinema, mostras de cinema, concursos de vídeo, extensões e sub-extensões de festivais. Todas estas inerências levam-me a questionar para que servem os festivais de cinema?

Servem para mostrar a produção nacional? Servem para promover o cinema nacional? Servem para as fotos nas colunas sociais? Servem para isto e para aquilo? Ou servem somente os que não servem o cinema?

Perguntas para as quais tenho resposta, mas como sou uma pessoa cordial não responderei, pois o meu objetivo é somente questionar o caminho seguido por estes eventos, não apontado a este ou aquele, somente fomentar o diálogo e partilha de ideias.

Aqui reside o cerne da questão – supostamente os festivais de cinema existem para promover o cinema, isso, promover o cinema, o cinema que está associado aos realizadores de renome, com percurso, e que são premiados, está vedado a outros. Não estou a dizer que esta temática seja recorrente nos festivais nacionais, nem pretendo colocar todos no mesmo saco, mas que existe um barramento a outros cineastas, outras visões e perspetivas, isso sim, existe.

Não podemos cair no erro de no cinema nacional – que praticamente não existe e que sobrevive com antibióticos e doses massivas de choques elétricos para se manter à tona – termos estas incidências do agora és ‘tu’ o selecionado e depois sou ‘eu’.

A primeira utilidade de um festival será sempre o de mostrar o cinema nacional, não mostrar o cinema internacional, fomentando a produção nacional e os novos talentos. É o que se pretende e o que se procura, para isso os festivais são mostras importantes, mas o que se constata é que isso pouco acontece nos mais variados festivais de cinema que por cá proliferam.

O rol de filmes nacionais selecionados, em comparação com produções internacionais, é sempre diminuto. Depois temos o discurso do costume: «não temos indústria, os filmes não chegam aos festivais, não têm qualidade». Mas o que interessa isto? No meu ponto de vista o que interessa é mostrar o que se faz por cá, quer seja mau, assim assim ou bom. Os festivais de cinema têm o dever e a obrigação de mostrar tudo, e não somente as elites do cinema.

Enquanto não modificarmos este paradigma dos grupos, das conversas de esquina e das palmadinhas nas costas o cinema português estará fatalmente condenado.

Termino com uma frase e uma pergunta. A frase é de Charlie Chaplin: «Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação». E repito a pergunta, num convite à vossa reflexão: «Para que servem os festivais de cinema?».

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About the Author

realizador cinema independente da Paradoxon Produções algarve



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