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Música no image

Published on Dezembro 25th, 2012 | by Paulo Pereira

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Cid Vicioso ‘12 ou o regresso da mãe do rock português

José Cid, auto-proclamado «mãe do rock português», com uma carreira de mais de meio século (!) a sustentar tal afirmação a roçar a bazófia nonsense, é por mérito próprio uma lenda viva no panorama musical luso. A atuação do passado dia 7, num Campo Pequeno cheio, para futura edição em DVD, foi nova demonstração disso mesmo.

José Cid deu aos seus fiéis mais de três horas de concerto com raríssimas interrupções e pouco menos de 40 canções. Com o inseparável piano ao centro do palco e a banda por detrás, formando um “U” invertido, Cid deu um excelente concerto para uma audiência que já estava conquistada antes mesmo do concerto ter começado.

E isso porque José Cid, independentemente da sua qualidade musical, tem uma mais valia intrínseca de incalculável valor: a de ser um «guardião de memórias ancestrais». Cada fã de José Cid tem uma canção sua que desperta lembranças de dias há muito passados, muitas vezes (como no meu caso) da meninice; “Sonhador” remete-me SEMPRE para um restaurante no Entroncamento onde, com aproximadamente 10 anos, conheci e engracei com a filha de um casal amigo dos meus pais, menina essa que nunca mais voltei a ver na vida.

Perante um público predominantemente burguês da escala etária supra 30 num estado de euforia controlada (passe o paradoxo) o artista foi desfiando o novelo daquilo que foram (são!) os pontos altos da sua carreira. Das baladas (“Na Cabana Junto À Praia” – épica, “20 Anos”, “O Melhor Tempo Da Minha Vida”) ao rock sinfónico vindo dos anos 60 via Quarteto 1111 (“El Rei D.Sebastião”) passando pela sua tangente à música tradicional portuguesa (“Verdes Trigais Em Flor”, “A Rosa Que Te Dei”, “Velho Moinho”, “Os Rapazes Do Campo E As Meninas Da Cidade”, “No Dia Em Que O Rei Fez Anos”), por canções novas (“Menino Prodígio”), pela genealogia do rock em Portugal – aproveitando o facto de na banda ter Mike Sargeant, guitarrista e seu parceiro musical desde sempre (“O Rock Dos Bons Velhos Tempos”, “Rock Rural”), pela aposta na internacionalização para o mercado anglosaxónico através da tradução para inglês de uma canção do seu repertório (“Too Many Nights”, anteriormente conhecida como “Longe Demais”) e pelo pop mais (“Uh! Au! Lobo Mau!”, “Como O Macaco Gosta De Banana”, “A Anita Não É Bonita [«A Anita não é bonita mas acredita que a noite cai» é uma frase cuja sabedoria relativamente ao amor para com as feias equiparo a uma que me foi dita pelo meu padrinho quando era pequenino: «é preciso é que seja de noite»], “A Pouco E Pouco (Favas Com Chouriço)”) ou menos (“Ontem, Hoje e Amanhã”, “Um Grande, Grande Amor” aka “Adieu Adiós…”, “Cai Neve Em Nova Iorque”, “Tocas Piano Como Quem Faz Amor”) kitsh. E mesmo para um fã de há mais de três décadas há surpresas, pérolas, autênticos O.V.N.I.s (Objeto Visto Nunca Imaginado) musicais.

Os deste concerto chamaram-se “O Poeta, O Pintor, O Músico”, homenagem ‘cidesca’ a «Garcia Lorca mas também a todos os criativos marginalizados pelo esquecimento», belíssima música que evoca a memória de certo «(…) companheiro anarquista» e, noutro registo, “Romântico Mas Não Trôpego”, uma ode à gerontofilia, uma canção marota para a terceira idade, o que se lhe quiser chamar, mas acima de tudo uma canção unificadora de plateias. E com quadras tão sublimes como «Romântico mas não trôpego / Ainda me sobra fôlego / Para fazer / Logo à noite uma orgia / Romântico à luz das velas / Festejo setenta anos / Tens de trazer contigo a tua tia», simplesmente, não há como falhar. Clássico absoluto!

E mais do que um músico com um saber quase enciclopédico com um repertório com quantidade e qualidade para fazer o que fez – dar um longuíssimo concerto sem pontos baixos (nenhum!) -, José Cid é também um comunicador e um entertainer nato. Elogia o público, mas fá-lo num registo muito seu: «As minhas fãs são as mais giras.» As mais giras? Mas as mais giras de onde? De Lisboa, de Portugal, do Universo? Não interessa. São as mais giras e ponto final!

Isto como introdução para cantar “Super Giras”, claro. José Cid não brinca em serviço. Incentiva também o uso das novas tecnologias em tempo real, diversas vezes interrompendo certas canções nas quais o coro popular tem mais peso para que as pessoas possam gravar a sua voz «com um coro de milhares de pessoas e o José Cid a tocar»… sabe tanto, este senhor!

E a Cid tudo se perdoa. Como ocorrido nas festas de Corroios este Verão, Cid fez referência às Doce antes de abordar uma canção por elas popularizada nos seguintes termos: «Vocês lembram-se das Doce? Eram bem giraças. Hoje em dia estão impapáveis». Em Corroios tinha dito o mesmo mas usando outro neologismo com o mesmo sentido de «impapáveis»: «incomíveis».

Tocando a enormidade de tempo que toca, Cid permite-se repetir canções para o fim. Os ‘hits’ mais populares (recordar que esta atuação foi organizada pela M80), para a mensagem (não tão) subliminar penetrar fundo: Cid é Rei (frase mais ouvida noite fora).

E ainda a cereja no topo do bolo: as canções de que Cid não gosta mas «tem de» tocar (como “O Macaco…”) são despachadas a grande velocidade e sem chatices: basta começar a tocar, cantar a primeira quadra e a partir daí o público faz a sua parte enquanto ele distribui acenos e beijinhos duma ponta a outra do palco. Like a boss…!

E gostava de o ouvir cantar ao vivo “Amar Como Jesus Amou”, não por ser religioso, mais por ser fã de kitsh, mas só me arriscaria dizer-lhe tal heresia com um capacete de futebol americano e colete à prova de balas – reza o mito urbano-rural que Cid rejeita totalmente a autoria de algumas canções. Esta é uma… calculo que “Uma Balalaika” seja outra!

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