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Música no image

Published on Fevereiro 7th, 2013 | by Paulo Pereira

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Reportagem Crise Total no Ritz Clube: Três décadas de Crise ao vivo

No passado dia 11 de janeiro Lisboa assistiu a uma das maiores celebrações cristáceas nacionais de que há memória. Para celebrar condignamente 30 anos de carreira (!) os míticos Crise Total não fizeram por menos e levaram consigo 4 companheiros de viagem – Dr.Bifes & Os Psicopratas, Albert Fish, Acromaníacos e Simbiose – para um concerto num palco maior como é o do Ritz que quem viu não esquecerá.

A história dos Crise Total confunde-se com a do rock português. Formados em 1983 a partir das cinzas dos Crise, formados em 1981, foram, a par com os Grito Final, das primeiras bandas punk portuguesas. Depressa ganharam estatuto graças aos seus concertos e canções que eram – e continuam a ser, tanto tempo passado – hinos imediatos. “Assassinos No Poder” terá sido o primeiro, tendo entrado na compilação “Ao Vivo No Rock Rendez Vous em 1984”. Atuações nessa e noutras salas com bandas (então) emergentes como Kú de Judas ou Mata Ratos elevaram-nos ao estatuto de banda de culto e deram origem até ao surgimento de gravações de atuações da banda – em tempos (de liceu) uma dessas K7s chegou a passar-me pelas mãos…

Em finais de 1986 a banda desmembra-se com a partida de dois membros para o estrangeiro. Apesar duma tentativa de reavivar a banda em 1988, parecia que a Crise terminara. Engano. Em 1995 e num contexto mais favorável – a cena punk/hardcore tinha crescido desde finais dos anos 80 e havia mais bandas assim como locais onde tocar – a banda ressurgiu com os membros fundadores João Filipe (bateria) e Rui Ramos (guitarra) acompanhados pelos membros de Subcaos e Porcos Sujos Libelinha (baixo) e Xico (voz). O CD “A Crise Continua” é editado em 1996 e os tempos seguintes trazem muitos concertos, nova mudança na formação (a saída do vocalista Xico e a entrada de Miguel, de M.A.D.) e nova paragem.

2003 traz novo ressurgimento da banda, apenas com Rui Ramos da formação original, a tocar com Varukers na Academia de Linda-a-Velha. A partir daí surgiu o conceito Crise (Quase) Total, concebido para apresentar ao vivo as canções que por esta altura já tinham alcançado o estatuto de clássicos até (ou sobretudo) para aqueles que nunca tinham tido contacto com elas dessa forma.

2008 traz as melhores novidades possíveis: a banda reagrupa-se com o regresso do vocalista original (Manolo) e uma nova secção rítmica a cargo de Rattus (Albert Fish) no baixo e Jonhie (Simbiose) na bateria a tempo de celebrar os 25 anos de carreira em palco. E desde então que a Crise tem sido Contínua…!

De regresso a 2013. À entrada do Ritz iam-se encontrando amigos e rostos familiares destas andanças enquanto se bebiam minis no tasco defronte. Linda-a-Velha, Alvalade, Sacavém, Margem Sul… todas estas comunidades estavam representadas, assim como membros de bandas tais como Peste & Sida, Mata Ratos, Trinta & Um, Kú de Judas/Censurados/Tara Perdida (o Ribas, portanto!), Viralata… o ambiente no exterior era de irmandade e antecipava-se algo de grandioso. Não nos enganámos. Foi mesmo.

Não cheguei a tempo de ver Dr.Bifes & Os Psicopratas. Mea culpa. Vi, isso sim, uma banda cheia de energia em palco a dar um concerto intenso. Eram os Albert Fish. Com o vocalista a chegar-se à frente a puxar pelo público o concerto foi sempre em crescendo tendo como (óbvios) pontos altos o dueto com Suspyria Franklin – de Les Baton Rouge – (“Rotten Love”) e a versão de “Autista”, da banda aniversariante, com o contributo de Zorb (Dalai Lume) na voz… não esquecendo os (já!) clássicos “Turning Point” e “Anti-Nazi Song”. A versão do streetpunk “à la Albert Fish” com melodias cantaroláveis q.b. para o serem logo à primeira audição mexe (mesmo!) com o público e lança a dança. Para segundo (no meu caso, primeiro…) prato não esteve mesmo nada mal!

Para começar a falar do concerto dos Acromaníacos é preciso primeiro dizer à laia de Monty Python: “And now… for something completely different.” Os Acromaníacos são três, parecem ter saído dum ginásio gay (redundância?) dos anos 80 com aqueles calções coloridos, tops justos cor de rosa (pois…) e fita na testa à John McEnroe/Mark Knoffler e dão um concerto do car… um concerto excelente.

No seu punk cheio de refrões e riffs inesquecíveis após primeira audição (exemplo imediato e paralelismo com a banda homenageada: assim como me bastou ouvir “A Crise Continua” uma primeira vez para não mais a esquecer, o mesmo se aplica ao “Homem Merda”…) há toda uma lírica brejeira que faz dos Acromaníacos uma banda excelente para se ver em cima dum palco. E mesmo não tendo havido desta vez nenhum performer que subisse ao palco para “interpretar” o “Homem Merda” (como já aconteceu noutros concertos…) ninguém pode dizer que os Acromaníacos não tenham dado um senhor concerto. Com o nada subtil “Subtil” a abrir hostilidades, até ao final apoteótico com o previamente referido “Homem Merda” desfilaram outras pérolas bardajónicas tais como “Florimerda”, “Ar, Cú & Ris” (que pérola de título!), “Bolachinhas Nuku”, “A Abelha Maia É Uma Puta” ou “Piriquito”.

Entre este e o concerto seguinte tive um momento de audio-saudosismo proporcionado pelo DJ Billy, responsável pelo som ouvido antes, nos intervalos e pós-actuações. Por entre dezenas de clássicos punk/hardcore nacionais & estrangeiros ouvi uma canção que me levou de volta aos tempos de liceu, duma das primeiras bandas que algum dia vi tocar – precisamente nesse meu antigo liceu. Falo dos Vómito, banda de Queluz que mais tarde veio a “ceder” dois elementos (e uma canção, “Orgia Paroquial”) aos Peste & Sida. Subitamente ouvi acordes familiares e dei por mim a cantar: “O meu cão é zarolho / O meu cão não faz mal / O meu cão é para mim / O mais lindo de Portugal!”.

Último aperitivo antes do prato principal – os Simbiose. Sendo fã da banda e já os tendo visto mais vezes que a todas as outras bandas juntas (aniversiantes incluídos), continua-me a ser difícil verbalizar o que faz deles tão bons. A brutalidade das duas vozes associada à velocidade a que são debitados os ritmos dá origem a uma massa sonora que nos atropela, qual rolo compressor a 100 à hora. Os Simbiose seguem um rumo do qual não se desviam um minuto que seja – e só assim faz sentido. Com a sua saída de cena deixaram o ambiente “au point” para o momento por que todos esperavam, e será este o maior elogio possível à sua prestação… após terem feito desfilar pérolas do bojardcore como “Fake World” (literalmente a abrir hostilidades!), “Buried Alive”, “Pointless Tests”, “Total Descontrolo” e “Betrayal”.

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Chegara o momento. Ao som de “Derrame De Sangue”, os Crise Total iniciaram a celebração. Não foi preciso chamar o público para a frente, todos se aproximaram o máximo possível do palco. A celebração tinha começado! À medida que iam tocando (depressa) se tornou evidente que todas aquelas canções (de “Queremos Anarquia” a “Desumanização”, passando por “Assassinos No Poder”, “Vozes”, “Polícia De Intervenção” ou ”Pátria Amada”) estavam na ponta da língua dos presentes. Esse coro permanente e um ambiente de festa que incluiu slam dive e stage dive à discrição terá surpreendido os próprios membros da banda, que foram apanhados a trocar olhares emocionados entre si. A festa estava a ser épica. Os Crise Total nunca deixaram de fazer parte da banda-sonora das vidas dos presentes…

Sempre guiados pela guitarra urgente de Rui Ramos, a dada altura do concerto os Crise Total ganharam um reforço nas vozes – Zorb, dos Dalai Lume, veio acrescentar poder de fogo à atuação. Mais tarde, novo reforço de peso é chamado a palco para as mesmas funções, o ex-vocalista Miguel. O concerto, sempre em crescendo, aproxima-se a passos largos do final.

E que final… com “o meu” hino de Crise Total “A Crise Continua” a puxar à dança bravíssima, o concerto acabou em beleza. Ou… teria acabado mesmo? Com um coro popular fortemente ‘insistencialista’ a pedir “Santa Inocência”, não havia como não a interpretar. Juntamente com “Foi Portugal”… foi o “encore” perfeito.

O concerto tinha acabado, mas a festa – assim como a Crise – é contínua. Bem-hajam, Crise Total. Venham mais trinta… daquela que provavelmente será a única banda a ter partilhado palcos com os Xutos (maior lenda do rock nacional) e os Ratos de Porão (lenda do hardcore mundial)!

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