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Crónicas no image

Published on Março 26th, 2013 | by Paulo Pereira

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Yo La Tengo ou um “cult-study” à portuguesa

Bandas e artistas há que em Portugal resultam sempre melhor que no resto do mundo – de dEUS a Ben Harper, dos Therapy? (ainda serão vivos?) aos Tindersticks passando por estes eméritos cidadãos de Hoboken, Nova Jérsia.

E para quem não conheça, quem são os Yo La Tengo? Um power trio (mesmo quando em vertente acústica, como o foram na primeira parte deste concerto) influenciado pela folk, pelo punk e pelo experimentalismo à la Sonic Youth (arrisco dizer que em doses equilibradas entre si) capaz de tocar das pérolas mais delicodoces aos desvarios mais carregados de distorção. Todos três são multi-instrumentistas pelo que em palco ouvimo-los viajar por entre guitarras, baixos, órgãos – para além de repartirem entre si igualmente as vocalizações.

Com 29 anos de carreira e – talvez ainda mais relevante – com o line-up cristalizado desde há 20 (com o casal fundador Ira Kaplan – o guitarrista e Georgia Hubley – a baterista a contar a partir de 1993 com o baixista James McNew), a banda passou pela Aula Magna a 1 de março para apresentar o seu 13.º álbum – igualmente o 1.º desde 1993 a não ser produzido por Roger Moutenot, “Fade”.

Dividido o concerto como foi em duas partes, deu-se início às hostilidades a horas “impróprias” para concertos em Portugal – pouco passava das 21.00! Provavelmente em consequência disso (muito) menos gente assistiu à parte acústica que à eléctrica, ainda para mais tendo havido um generoso tempo de intervalo entre ambas.

Com os elementos da banda sentados à frente duma árvore cada (imitando a da capa de “Fade”) deu-se início às hostilidades com um “Ohm” surpreendentemente contido mas que de imediato transmitiu o carácter onírico inerente à música dos Yo La Tengo. Seguiu-se uma delicada “Two Trains”, igualmente do novo álbum, e daí em diante canções novas (tais como ”The Point of It”, “Cornelia and Jane” ou “I’ll Be Around” – curiosamente ou talvez não, interpretadas de seguida) partilharam espaço com outras (bem) mais antigas – anos 90 em peso – como “Satellite” (única canção original do alinhamento pré-James McNew), “Double Dare” (do álbum de 1993 “Painful” – curiosamente o 2.º mais visitado a seguir, naturalmente, daquele que estavam a promover) ou “Tom Courtenay” com o qual encerraram a parte acústica… nunca esquecendo as versões “alternativas” que são igualmente imagem de marca da banda. Calhou a sorte a “Gentle Hour”, dos Snapper, cantada por McNew.

Para a segunda parte, já ligados à corrente – embora tenham reentrado em palco, paradoxalmente, ao som de… Caetano Veloso! – começaram por interpretar um electrizante “Nothing To Hide” seguido de nova nova canção – “Before We Run” – com ligação direta ao segundo grande momento da noite (depois do maravilhamento provocado por duas belas novas canções no início do concerto), chamado “Sudden Organ” no qual Ira, “comme d’habitude”, parece extrair do dito órgão sons impossíveis num frenesim maníaco antes da canção “normalizar” e retomar a placidez inicial. O concerto acabaria com a sequência composta pela versão de “Little Honda”, dos Beach Boys (poderosíssima!) seguida de novo momento alto do concerto: “Ohm”, agora em versão eléctrica e com Ira a fazer à guitarra o mesmo que tinha feito minutos antes ao órgão. Para acabar em beleza, seguiu-se o experimentalismo feroz de “Pass The Hatchet, I Think I’m Goodkind”.

Mas qualquer fã de Yo La Tengo sabe que para além do acústico e do elétrico eles têm também o lado “cover band”. “Aquilo” não iria ficar assim. Não poderia!

E não ficou.

O encore apresentou três versões de rajada, da mais pop (“I Can’t Seem To Make You Mine”, dos Seeds, canção que pelos vistos já conhecia antes de a conhecer… pelo simples motivo que já a tinha ouvido gravada pelos Ramones no seu disco de versões dos anos 60 “Acid Eaters”!) à melhor (“A Message To Pretty”, dos seminais Love), passando pela mais obscura (“Frenzy”, dos Fuggs). Posto isto… “gran finale” com “Big Day Coming”, último regresso da noite a 1993.

Último regresso da noite a 1993… mas o ponto final viria dum passado ainda mais distante, recuperando a “folk” de “Griselda” (dos Holy Modal Rounders) incluída num álbum de versões de 1990 chamado… “Fakebook”! Neste caso pode-se falar em coincidências ou mesmo premonições, já quanto ao nome do outro álbum de versões editado mais recentemente e chamado “Fuckbook”… não!

Concluindo, arrisco dizer que na minha condição de “penta-espetador” de Yo La Tengo este terá sido o seu melhor espetáculo (e o imediatamente anterior, igualmente na Aula Magna, claramente o pior…) porque, para além de tudo o que descrevi até esta linha, a própria banda está mais solta e desinibida (na medida do possível). Foi possível vê-los a tentar fazer conversa com o público nos tempos mortos tais como os dedicados a afinações – mas não só e Ira (claramente o líder) teve duas saídas que marcaram pontos: primeiro ao pedir a aproximação do público afiançando que eles não eram o tipo de banda que tirava as camisas e saltava para o meio do público expondo-o aos seus “sweaty torsos” (palavra do artista) e depois pedindo ao técnico de luz que os deixasse iluminados porque não eram uma “goth band”.

Pois não, são muito melhor que isso. São verdadeiramente inadjetiváveis – no que a palavra tem de positivo! Conseguiram-me conquistar pela 4.ª vez (pois…) sem terem tocado as duas canções minhas favoritas, “Stockholm Syndrome” e “Autumn Sweater”… e sem que tenham feito qualquer tipo de falta. Não é, de todo, para todos!

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