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Crónicas no image

Published on Abril 18th, 2013 | by Paulo Pereira

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Bizarra Locomotiva: 2 décadas tem esta viagem

Honra lhes seja feita, os Xutos & Pontapés, goste-se ou não da música, sempre tiveram o mérito de puxar por bandas mais novas, convidando-as para atuarem consigo. E ao celebrar os seus 15 anos de carreira, nos idos de 1993, os Xutos encheram o Campo Pequeno dando a 1.ª parte a duas bandas emergentes da cena nacional – Lulu Blind e Bizarra Locomotiva.

Nessa tarde em que os vi pela primeira vez, Armando Teixeira num canto com a sua maquinaria, o baterista no oposto e Rui Sidónio com a tarefa dupla de cantar e encher um palco imenso, fui conquistado. Antes do concerto acabar já tinham feito um fã fiel. De tal forma que, 20 anos após essa tarde solarenga, dirigi-me ao Ritz para assistir à celebração da efeméride.

O concerto foi espelho do que é a banda: puro e directo. Sem extravagâncias nem acessórios supérfluos. Celebravam-se 20 anos de carreira; poderia ter havido alguma banda de suporte ou surpresa cénica (como um regresso ao casulo de dentro do qual Rui Sidónio saía no início de concertos anos atrás) ou convidados especiais (ex-membros ou artistas que tenham colaborado com a banda como Fernando Ribeiro dos Moonspell, por exemplo), mas… não.

O que teve este concerto de especial, então? A duração. Foi maior que a dos concertos habituais e os fãs/fiéis tiveram assim direito a ouvir músicas há muito não ouvidas, como a lasciva “Candelabro do Amor”, a brutal “Druidas” ou a poderosa “Apêndices”, todas do auto-intitulado álbum de estreia (curiosamente as duas primeiras tocadas de seguida). O concerto começou com a adoravelmente mórbida “A Fala do Feto Com Cabeça de Cão Antes do Aborto” como intro, deixando a melodia fúnebre acasalar com as palavras tétricas de forma a criar o ambiente para o que se seguiria.

Sem necessitar de outras palavras para além das cantadas, a banda agarrou o público pelo pescoço e levou-o numa viagem furiosa. Os primeiros sons vieram em Inglês, com “Growth Pains”, do 2º disco, único cantado na língua de Shakespeare. Mais tarde seria também revisitado com esse brutal “pára-arranca” chamado “Fear Now”.

A viagem que decorre há 20 anos é presentemente conduzida por um vocalista que vocifera palavras negras enquanto vai arrancando partes da película preta que o cobre quase integralmente no início do concerto até ficar em farrapos chegado ao final do mesmo, por um guitarrista maquinal (elogio!) que se apresenta em palco com vestes S/M “kinky” (sobretudo a máscara…), por um teclista fantasmagórico responsável pela produção dos sons mais bizarros da música de Bizarra e um baterista que suporta e alimenta o colosso de ritmo produzido pela Locomotiva.

A viagem desta noite da Locomotiva visitou todas as suas estações (e apeadeiros, com a sua interpretação muito personalizado de “Se Me Amas”, gravado para “XX anos XX bandas, álbum de tributo aos Xutos & Pontapés) sendo que foi de “Bestiário” que veio a maior representação (a regressada “Cavalo Alado”, “Grifos de Deus”, “Gatos do Asfalto”, “O Peixe Vermelho do Jardim dos Suplícios” e o épico “Escaravelho”, escolha óbvia para terminar o concerto”).

Por oposição a este reconhecimento prático daquela que será a sua obra-prima, de “Homem Máquina”, disco que se lhe seguiu e eventual “faux pas” que valorizou mais a electrónica que a animalidade, apenas foram tocadas “Cada Homem (Mata Aquilo Que Ama)” e esse momento de euforia colectiva chamado ”Homem Máquina” que vê Rui Sidónio descer à plateia e com esse público saltar e cantar o refrão, após o que se esgueira para vir a aparecer no balcão do Ritz…

Prova da vitalidade/validade actual da banda é o facto de outros dois pontos altos do concerto terem saído do seu último disco, “Álbum Negro” – uma excelente interpretação de “Coisa Morta” (a anteceder “Homem Máquina”) e, já no encore mas antes da última canção da noite (“O Anjo Exilado”), uma assombrosa “Procissão dos Édipos” que acabou efectivamente com “os sinos” a ressoar ritmicamente nos nossos ouvidos pelo que pareceu uma eternidade…

O concerto tinha de acabar antes da meia-noite. Foi hora e meia bem suada e bem vivida. E o sinal de ainda assim poder dizer que adoraria ter podido voltar a ouvir “A Hiena”, “Ódio”, “Moscas”, “Ultraviolência”, “Câmara Ardente” ou “Êxtases Doirados” só serve de elogio – em 20 anos criaram mais hinos que os que cabem em 90 minutos. Longa e próspera viagem!

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