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Published on Junho 19th, 2013 | by Alexandre Nunes de Oliveira

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Milestone Project, Girona: dez dias de sinestesias

A cidade de Girona acolheu a segunda edição do Milestone Project. De 31 de maio a 9 de junho, uma semana e meia de concertos, arte urbano, conferências e gastronomia. Em lugar de festival, os organizadores consideram-no «uma experiência»: mais que celebrar, a aspiração é formar público e abrir as consciências, nesta difícil época dominada pela crise.

Abrindo frentes

Uma dezena de dias para escutar, degustar, observar e refletir. O projeto Milestone parece abarcar todos os sentidos e esse parece ser o seu sentido, juntando num mesmo certame gastronomia, street art, pensamento e música. Neste último âmbito, o mais festivo, as vedetas internacionais foram dois duetos bastante sui generis: as irmãs Cocorosie e o casal Amadou & Mariam, ambos cabeças de cartaz. Um pelotão de artistas locais de média dimensão, como Mishima, Antònia Font ou os interessantíssimos The Dirty Club, completaram o leque.

A secção de filosofia trouxe às salas gerundenses importantes figuras do pensamento espanhol contemporâneo, como por exemplo Ignacio Castro e Manuel Delgado, intelectuais com reconhecida dimensão crítica, com a intenção de dar suporte conceptual às investidas pela cidade dos graffiti e outras ações urbanas dos artistas Blu, Malakkai, Momo e Erica il Cane, entre outros. E a gastronomia esteve, naturalmente, bem servida. Recorde-se que Girona e a sua província possuem alguns dos melhores restaurantes do mundo (quais El Celler de Can Roca e El Bulli, que agora se transforma num centro de investigação) e portanto é uma das capitais mundiais da cozinha de autor. Quem se decidisse por provar os menús Milestone obtinha vales de descontos para os concertos.

Para saber mais, decidimos falar com Ignacio Moltó, mentor deste projeto multidisciplinar e com consciência social.

Um evento profundo e plural

Em julho de 2012, as principais artérias da cidade estavam cheias de propaganda anunciando a primeira edição. O Milestone Project parecia chegar com força a Girona, mas logo a adesão do público esteve longe de ser massiva. Desde o seu fantástico terraço com vistas à imponente fachada da catedral, o valenciano Ignacio Moltó, principal impulsionador do evento, não parece preocupado: «Este é um projeto a longo prazo. Do ponto de vista empresarial, o primeiro ano não foi rentável, mas do ponto de vista humano estou muito satisfeito». Adianta ainda que o projeto pode mesmo considerar-se um sucesso, porque a ideia é cimentar um modelo cultural que até à data não existia em Espanha, e de que há muito poucos exemplos no resto da Europa. «Portanto, necessita o seu tempo para germinar e estabelecer-se. Creio que teremos que esperar um par de anos e que a 4.ª edição marcará a maturidade», medita o organizador.

Destas primeiras palavras, intuímos complexidade. Ignacio vai chamuscando o seu cigarro acabado de enrolar, enquanto nos explica como nasceu a ideia: «Há muitos anos que tinha a inquietação de levar a cabo um projeto que conseguisse empurrar a música para fora da sua letargia, uma via para a música crescer e desenvolver-se, contra a tendência atual que é realmente para morrer, tal como todas as outras linguagens artísticas, expostas que estão à assimilação que o capitalismo está a realizar sobre todas as esferas da sociedade, causando um impacto negativo que afeta a capacidade de observação e raciocínio inerente ao ser humano.» As afirmações, contundentes e inusuais para explicar um acontecimento desta tipologia, surpreendem e fazem-nos supor que existe um fundo axiológico e uma estrutura programática no projeto, que o seu diretor se encarrega de frisar: «A música foi a base do desenvolvimento ideológico do projeto, mas logo se transformou. O principal objetivo é romper a barreira entre o público e a arte, recuperar a interação com a gente. A arte deve estar ao serviço duma sociedade viva, não deve ser um simples divertimento superficial, como muitas vezes se entende hoje em dia, mas algo mais profundo e capaz de criar sentido crítico. E para tal é imprescindível um pensamento forte, e cimentá-lo como base. Portanto, fez-se evidente que o evento teria que ter a participação ativa de pensadores, que tivessem agudeza e compromisso. Os pensadores contribuem com um banco de ideias que dá sustento e solidez ao projeto.»

Música e pensamento. Arte e reflexão. Celebração e regozijo, mas com capacidade de análise e vontade de intervenção social e – porque não – política. É aqui que entra também em cena, e com naturalidade, o street art. Seguimos a linha que marca Moltó: «O projeto precisa do pensamento para ser sólido, mas também da arte para desenrolar-se. Vivemos numa era dominada pelo lucro, que é o princípio motor de empresas e bancos, e o recorte de gasto público, em educação, saúde, etc., que nos afeta a todos. As empresas estão a aproveitar-se do sistema público para seu benefício e fazem-no em contra da própria sociedade. A única forma de retomar o poder é que a sociedade o recupere ativamente.» Ora, segundo o promotor, uma das vias para este fito é acabar com a barreira entre a arte e a cidadania. «A arte urbana, pelos seus princípios, já busca esse sentido crítico e uma relação visível com a sociedade. Por isso, convidamos para participar artistas pictóricos internacionais cujas propostas têm força e impacto, mas igualmente um discurso coerente e vital», acrescenta.

Superando tensões: um modelo programático.

O grafite é efémero, mas não tanto. Algumas das intervenções no espaço urbano realizadas no ano passado ainda estão bem visíveis e os transeuntes não se furtam a comentá-las. Embora nem toda a gente esteja advertida da sua relação com o Milestone, ajudam a manter viva a chama do evento. Ignacio afina a ideia: «buscamos espaços que estão em desuso, como viadutos ou parques de estacionamento, que estão aí, mas são visualmente desagradáveis, para transformá-los esteticamente, mas também de modo que sejam capazes de surpreender e causar reflexão. Isto é interagir com o público e com a sociedade, é dizer às pessoas: estamos a fazer isto para vocês». Além disso, o fato das obras estarem visíveis todo ano, produz um efeito «de contaminação positiva, já que comunica as nossas intenções de forma continuada. O efeito surpresa convertê-se numa inquietude, faz que a gente sinta curiosidade e impulso para saber mais», considera. Mas entrevemos um paradoxo. Estas ações estão a ser executadas numa urbe onde o poder local, de clara orientação conservadora, habitualmente as proíbe e persegue. Não é aparentemente uma contradição?

Para o criador do certame, pragmático, as concessões são meios para atingir fins: «os políticos quando fazem conferências de imprensa dizem uma coisa, e logo fazem outra. Trabalhar com a política é o que acarreta, tem que se saber mexer os cordelinhos e mover-se bem, ser discreto e eficaz na ação. Quando se fazem as coisas de maneira demasiado rebelde ou ostensiva, por muita razão e argumentos que se tenha, cortam-te rapidamente as pernas». Por isso a ação tem que se levar a cabo de forma mais gradual, camuflada e silenciosa. Em que se traduz na prática a premissa? «Em que a autarquia não está interessada na profundidade do evento, mas na projeção e na repercussão, sobretudo internacional, que este pode dar à cidade. Portanto, a inclusão da arte urbana no programa não supôs nenhum problema, porque os políticos viram que, bem planificada desde o ponto de vista da comunicação, pode representar um atrativo turístico e ser proveitoso para a cidade.»

Na verdade, é nesta linha também que se pode perscrutar a integração da gastronomia no panótico programa do Milestone, já que de momento, esta secção se limita a que uma série de restaurantes da cidade apresentam um menú especial durante os dias do certame. Ignacio lucubra e reconhece as limitações: «considerando que o pensamento é o eixo vertebrador do projeto, a gastronomia é o segmento menos articulado do conjunto e naturalmente no futuro teremos que procurar formas de integrá-lo melhor no espírito desta experiência e ir além do atual figurino de ser um mero expositor de restaurantes». No entanto, Moltó considera-o como um vetor que vale a pena. Primeiro, porque a gastronomia também deve ser entendida como um valor cultural. E segundo, porque tem uma relação muito importante com o tecido social e aqui há um potencial enorme a explorar: «Os restaurantes e as pessoas que se ocupam deles são também agentes sociais, são parte da coletividade, e há muita gente válida, honesta e empenhada que, com uma correta contextualização podem dispor de uma valorização muito superior do seu trabalho. Temos que trabalhar mais a sua ligação com o pensamento, é certo. Mas de qualquer forma, a tendência normal do projeto será para alargar-se a outros âmbitos e sobretudo estabelecer redes com os coletivos e os agentes locais, que estes se impliquem e façam do Milestone um projeto seu também», afirma.

(Des-)localizar. Urbi et orbi.

Por essa razão, estão em curso negociações com associações culturais da cidade, para que já a partir de 2014 façam as suas contribuições ao projeto e participem dele. Mas aqui também irrompe outra pergunta… Na verdade, porquê Girona? Há alguma idiossincrasia que a faça o local ideal ou propício para esta realização?

Moltó dispõe os seus motivos: «Há vários anos que estou atento e em contato com muitos municípios de Espanha, pelo menos aqueles que têm algum tipo de programação cultural relevante e com um mínimo de impacto internacional, o que me permite ter uma visão global do desenvolvimento cultural de cada cidade, dos movimentos que há em cada uma e quem são as pessoas que executam. Rapidamente descartei Madrid e Barcelona, pois estava claro que o destino do Milestone não podia ser uma grande metrópole, já que um projeto destas características se dissiparia num contexto cultural tão amplo. Também considerei Málaga, Gijón, A Corunha, ou Valência, donde sou natural. Aqui entrou em jogo o fator político: o sistema político institucional em Espanha é um desastre. A Catalunha e o País Vasco são as duas regiões que têm um sistema um pouco mais sério. Mas sinto que o País Vasco é mais fechado a gente de fora. Pelas condicionantes e localização, ao estar perto de França, convenceu-me sempre mais Girona. Chamava-me a atenção pelo seu tamanho, localização e capacidade organizar eventos de grande dimensão, como o Temporada Alta, um festival internacional de teatro e música que ocupa todos os meses do outono. Pareceu-me o lugar indicado para arrancar».

Daí, portanto, a necessidade de fortalecer o projeto com os movimentos já existentes localmente, porque se não se está em contacto com a sociedade, não se pode alicerçar, crê Ignacio. E prossegue: «os agentes culturais da cidade devem implicar-se, senão existe o risco de não ter sentido, de não subsistir ou de prostituir-se, entrando numa lógica puramente economista. Aqui ou noutra cidade, um modelo cultural deste calibre só pode ir avante com a vinculação da gente local.»

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Mas na sua essência, o Milestone é um conceito exportável e em breve poderá estender-se a outras latitudes. «Dentro de uns anos, com tempo e paciência. Quando a rede já esteja estabelecida e funcione de forma autónoma», advoga Ignacio. «De momento seria absurdo, porque necessita solidificar-se primeiro. E depois é necessário pelo menos um ano de investigação para arrancar noutra cidade, porque cada uma é diferente e antes de entrar em ação, faz falta ter um conhecimento da mesma, mas é perfeitamente possível», assinalando Paris, Bogotá ou La Habana como possíveis epicentros da primeira expansão da ideia.

Festival não, obrigado – o signo de Miles.

Mas pelos vistos, nunca será um festival. Os organizadores evitam cautelosamente esta formulação. Terão as suas motivações: «a palavra festival significa festivo e associo-a à pura celebração supérflua. Às vezes temos que a usar, por motivos de comunicação, para captar a atenção do público e das instituições, mas na verdade prefiro falar de um projeto ou experiência.», acalenta Ignacio, que aproveita para nomear o inimigo: «neste aspeto, o nosso antagónico é o Primavera Sound, que basicamente é um mercado. Como mostra cultural, é absolutamente nefasto, é um mero expositor de tendências efémeras. De momento é economicamente muito lucrativo, mas um dia acabará por rebentar, porque se depararão com problemas internos que não serão capazes de controlar. E relativamente à cidade, tem um interesse e uma relevância baixíssimos para a sua vida e as suas dinâmicas internas. Pode representar turismo e alguma rentabilidade financeira, mas não passa de uma atividade intrusiva e destrutiva, que não deixa uma marca orgânica e obviamente não canaliza nenhum tipo de reflexão sobre a sociedade».

Portanto, o Milestone quer-se outra coisa. E a solução do enigma já consta do próprio nome, como faz notar o seu organizador: «o termo Milestone já presta um significado muito concreto sobre o que pretendemos – é um marco quilométrico, um fito, um ponto de referência ou de encontro, mas também de inflexão e mudança de rumo. Há ainda uma subtileza para quem seja capaz de decifrá-la. No logotipo grande, há um pequeno apóstrofe entre miles e tone, ou seja, Miles’tone: o tom de Miles, que indica um reconhecimento a Miles Davis, que mudou o rumo do jazz por várias vezes. Um grande artista que marcou a cultural do século XX, como poucos, um génio ao nível de . Ou seja, que a própria palavra já o explica tudo», descerra Moltó.

Festival ou não, o Milestone Project já tem a sua próxima edição em preparação, que se espera a mais participada – e sobretudo participativa – até à data. Lá estaremos para aferir.

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