Festmag

Crónicas

Published on Julho 22nd, 2013 | by Paulo Pereira

0

Crónica: Queens Of The Stone Age no SBSR (20/07/2013)

Quando se paga o bilhete de um dia para ir a um festival apenas e só para ver uma banda – sobretudo hoje em dia, nestes dias de Troika – isso é amor. Foi o que fiz. Para ver Queens Of The Stone Age.

Orgulho-me de ter visto centenas de banda e, provavelmente, dezenas de centenas de concertos no espaço de 21 anos – a partir de 1992, portanto. Contam-se pelos dedos duma mão os artistas de que gosto que nunca vi ao vivo, e entre esse grupo encontrava-se aquela que considero ser, hoje em dia, indiscutivelmente a melhor (a única?!) banda de rock n’ roll do mundo, acabada de lançar um álbum que aposto que ficará na história – muito por culpa (?) de um hino imediato que aposto que ficará para os anais desta década como “Seven Nation Army”, dos White Stripes, ficou para os da década passada. Falo de “… Like Clockwork” (álbum) e “I Appear Missing” (single/hino).
Em virtude de se estar num festival (Super Bock Super Rock, no Meco) no qual a banda de Josh Homme era cabeça de cartaz, até chegar a hora da sua atuação andei mais a fugir de sons horríveis (Ash, por exemplo) do que propriamente em busca de música que se assemelhasse mais a… música para os meus ouvidos. Ainda assim consegui tropeçar nos We Are Scientists e nos !!! depois de ter começado o dia a assistir ao concerto da outra única banda decente desse dia no palco principal – Miss Lava. Já agora e a talho de foice… por três vezes os Queens Of The Stone Age estiveram em Portugal, dessas três vezes para atuar em festivais. O que será preciso para os promotores se aperceberem que um concerto em nome próprio da banda lotaria qualquer sala lisboeta, do Coliseu à MEO Arena? Com tanto lixo que para aí anda a tocar esta lacuna soa-me a heresia… para não falar em estúpido desperdício!

Agora ao que interessa.

Quando a banda subiu a palco milhares de corpos estavam aglomerados, olhos no placo, salivando em antecipação e sorvendo as imagens animadas que davam conta do início das hostilidades. E que início!
Com a brutal “You Think I Ain’t Worth A Dollar But I Feel Like A Millionaire” (faixa inicial de “Songs For The Deaf”) o público ficou rendido e algo se tornou desde logo evidente para mim: estes Queens são agora uma monarquia absolutista na qual Josh Homme é o Rei (ou Rainha)-Sol ao contrário do que acontecera na sua (até agora…) melhor formação, a de “Songs For The Deaf”, na qual para além de Homme também Nick Olivieri e Mark Lanegan (já para não falar em Dave Grohl, que gravou este e a maior parte do último álbum mas continua a não passar de um sonho molhado para integrar a banda dada a sua teimosia em se assumir como mediano guitarrista e vocalista ao invés de como um dos melhores bateristas da história do rock) tinham papéis de relevo. Digo isto porque a referida canção, originalmente cantada/berrada a plenos pulmões por Olivieri, foi cantada por Homme no seu registo habitual – totalmente distinto – e, passada a estranheza natural dos segundos iniciais, a canção foi tão bem recebida como todas as outras. Ou seja, a mais-valia não é a árvore (voz) mas sim a floresta (canção).
De seguida foi interpretada a polka tripada que dá pelo nome de “No One Knows” seguida da primeira amostra do novo álbum, “My God Is The Sun”. O concerto viria a decorrer em registo “best-of” com revisitações a todos os álbuns (exceto o primeiro) e cinco temas novos. Chegados a “Burn The Witch”, dois momentos dignos de registo: o público a cantar (como já tinha feito aquando das duas canções anteriores), não as palavas mas sim os riffs de guitarra (novo paralelismo com o fenómeno White Stripes/”Seven Nation Army” da década passada) e um momento no qual Homme puxa dos galões e deixa provado que aquela é a SUA banda e quem manda ali é “El Patrón”: a meio da canção o baterista fez um mini-solo que serviu apenas para que Homme pudesse dar uns bafos num cigarro antes de fazer o seu solo. Like… a… boss!
Depois duma poderosíssima versão de “First It Giveth” foram apresentadas as outras canções novas, quase todas de seguida. A balada delicada e sinistra de “The Vampire Of Time And Memory”, interpretada por Homme ao piano foi a primeira e o novo épico “I Appear Missing” a última, com “aquele” vídeo a acompanhar a interpretação imaculada da banda, sobretudo a partir da segunda parte da canção, aquela em que a música nos parece, de facto, levar para outro nível de consciência. Arrepiantemente belo.
Entre umas e outras tocaram também uma canção em que as facetas sensual e a “javarda” se complementaram melhor ainda que no clássico “The Lost Art Of Keeping a Secret” (a seu tempo…). Pois bem, durante uma irrepreensível interpretação de “”Make It Wit Chu” que deixou boa parte dos presentes com vontade de fazer o bem sem olhar a quem – se bem que, se bem me lembro dos olhares femininos, o destinatário de boa parte dessa vontade era um ruivo gigante que de vez em quando soltava o seu falsete… – há um momento em que Homme, enquanto canta as palavras «the only thing I know for sure / Is what I wanna do» penetra, com o indicador duma das mãos, o buraco feito pelo polegar e indicador da outra. Assim, com um pequeno gesto, se transforma uma balada numa canção porca. Graaaaaande aplauso!
A reta final foi feita a velocidade de cruzeiro. Arrancou com outra das tais que aliam a javardice à sensualidade (lá está…), “The Lost Art Of Keeping A Secret”, essa bela balada dedicada a todas as mulheres comprometidas apetecíveis porque, como disse Homme ao iniciar a sua interpretação: «keeping your mouth shut is a long lost art» (sabe tanto, este senhor!), passou para o monolítico hino tóxico “Feel Good Hit Of The Summer” (“apenas” as duas primeiras canções de “Rated R”…), daí para a escorreita “Go With The Flow” com o seu teclado neurótico e, finalmente, para um pára-arranca alucinante e alucinado de quase 10 minutos de seu nome “A Song For The Dead”. E não me parece que alguém tenha sentido a falta de Mark Lanegan… ou de quem quer que fosse!

E pronto, missão cumprida. Próximo alvo: Ministry?!


About the Author



Comments are closed.

Back to Top ↑