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Published on Julho 31st, 2013 | by Paulo Pereira

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Reportagem: IV Mêda+ (25, 26 e 27/07/2013)

No último dia do festival, um membro da organização disse-me o seguinte: «Sabes que os Parkinsons estiveram cá este ano por tua casa, não sabes?». Isto porque, na despedida da anterior edição do festival, tinha dito a quem me quisesse ouvir – e eram uns quantos porque eu era «o gajo que tinha vindo sozinho de Lisboa» – que os Parkinsons seriam uma banda à medida do festival – ideia que repeti na crónica ao festival. Outro membro perguntou-me a pergunta que se impunha a seguir: «Então e quem é que queres cá ver para o ano?» A resposta a esta pergunta fica para o fim da crónica…

Neste 4.º Mêda+ (falhei o primeiro) seguiu-se o lema «em equipa que ganha não se mexe», ou seja, voltou a ser um evento de três dias, com entrada e acampamento gratuitos, com três bandas por noite seguidas de DJs e ainda com atividades durante as tardes na piscina (paredes meias com o parque de campismo e grande mais-valia deste festival) – este ano, aula de zumba (boa para lavar as vistas, sem dúvida) e “poetry slam” na relva (o qual dececionou um pouco na medida em que ninguém conseguiu convencer o Manuel Cruz a passar por lá). E com “fait-divers”/mitos urbano-rurais que fazem com que o nome do festival passe de boca em boca, tais como estes: o vocalista de Miss Lava, depois de ter atuado quinta, optou por não regressar com a banda na manhã seguinte, ficando no campismo, experimentando os prazeres da piscina e do hambúrguer especial (com francesinha) d’”O Morgado” (sei que é a segunda vez em dois anos que faço referência ao restaurante mas acreditem que não estou a ser pago para lhes fazer publicidade!) antes de uma churrascada em casa de membros da organização e os Parkinsons, depois da explosiva atuação de sábado, continuaram em festa com o público até à manhã seguinte, tendo feito a transição lógica do recinto para o parque de campismo e daí sabe-se lá para onde… mas com esta nuance: uma testemunha ocular minimamente credível (é membro da organização, que diabos!) diz tê-los visto abandonar o parque num mini “com 15 pessoas – 2 no capô”!

Dia 1
Consegui boleia de Lisboa até Mêda na carrinha dos Miss Lava (obrigado!) e, uma vez lá chegado, voltei a ficar alojado na “tenda dos podres” (ao fundo do parque de campismo, à direita), cortesia do baixista d’A Cepa Torta (obrigado!), este ano com alguns “upgrades” tais como um mini-frigorífico com reserva aparentemente infinita de minis.
Repetindo a presença do ano passado e desta vez dando o pontapé de saída estiveram os A Cepa Torta, banda local com cerca de três anos de existência a apresentar o seu álbum de estreia, “Amor e Outras Maleitas”. Um som fluido e escorrido pedia atenção às palavras que iam sendo cantadas, num registo rock “clássico” que alcançou pontos altos de interesse aquando da interpretação de “Dias de Raiva” ou “Embuste”. O entusiasmo do público era audível e compreensível e terá atingido o seu clímax quando outro local subiu a palco para se ocupar do baixo para que Bernardo, o baixista, pudesse cantar (de forma muito expressiva, diga-se de passagem) “Sweet Dreams (Are Made Of This)” – na versão de Marilyn Manson, não dos Eurythmics!
De seguida subiram a palco os Miss Lava. Apesar de não terem casa cheia quando começaram a atuar agarraram o público pelos colarinhos e em questão de minutos a casa ficou composta para o concerto da banda mais pesada a ter passado pelo festival.
Com riffs contagiantes e um groove irresistível os Miss Lava foram conquistando o público canção a canção, tendo sido evidente que pessoas que não os conheciam de lado nenhum saíram dali agradadas tanto com a prestação como com a descoberta. Menos de uma semana depois de terem atuado no mesmo palco (do SBSR) DA referência do “stoner” que são os Queens Of The Stone Age, os Miss Lava apresentaram-se em Mêda no seu pico de forma – e “Feel My Grace”, “Ride” e sobretudo “Black Rainbow” serviram para o demonstrar à saciedade.
A fechar a noite vieram os Fonzie. Tiveram a maior audiência da noite (notou-se que muita gente estava ali exclusivamente para os ver) mas também e claramente a mais jovem de todo o festival. Toda a geração “Morangos com Açúcar” (“menor de idade” é no fundo o que quero dizer) que estava pelo parque de campismo estava lá pelas férias mais que pela música e reuniu-se em peso uma única vez – durante este concerto de encerramento do primeiro dia.
Apesar de um erro de abordagem estratégica – começaram o concerto a puxar mais pela veia “pop” que pela “punk” depois da atuação de uma banda que tinha sido bem recebida e que se destaca pelo peso -, a banda foi ainda a tempo de corrigir o tiro ao lado e deu um concerto em que milhares de adolescentes se fartaram de saltar, cantar e gritar – o que os carateriza enquanto tal, portanto. Ilustração do que acabo de descrever foi a forma como o concerto acabou, com dezenas de fãs em palco a cantar com a banda “A Tua Imagem”. Esta e “A Grande Queda”, ambas curiosamente do último álbum/primeiro da banda a cantar em português em detrimento do inglês, foram duas das favoritas dos presentes.
Acabados os concertos, o frio e o cansaço depressa me impeliram do recinto para fora, pelo que não assisti à prestação de nenhum dos DJs – nem DJ Eddie Ferrer, nem DJ Rusty na noite seguinte nem sequer Hell Yeahh DJ’S De Vacaciones a encerrar o festival com festivaleiros a dançar, não até ao nascer do Sol mas até meio da manhã. Reza a lenda…

Dia 2
A prática confirmou o que sabia em teoria: este seria o dia mais fraco do festival. O início dos concertos foi atrasado o mais possível porque à hora prevista para o início das hostilidades havia… duas pessoas no (como?) público. OK, eram mulheres e bem giras, mas… repito: duas.
Que posso eu dizer dos Gula e dos Feromona para além disto: não conhecia nenhuma das bandas e findos os respetivos concertos fez todo o sentido que assim fosse?! Não que me fossem desagradáveis ao ouvido – eram-me apenas indiferentes.
O rock dos Gula soou-me mais monótono e com letras encaixadas a martelo que propriamente épico e poético, sendo a voz outra “menos-valia”. Ainda assim “Morte Lenta” e sobretudo “O Que Ficou Ficou”, ambas do seu EP de estreia “O Ano da Fome”, tiveram boa receção da parte do público que, ainda assim, não demorou a compor o recinto.
Dos Feromona sabia apenas e só que, dali a 48 horas estariam no Music Box, ao Cais do Sodré, para dar o último concerto de sempre. E eu, que nunca os tinha visto (ou sequer ouvido) pensei: será que vou ver algo que tenha pena que venha a acabar? Não. De todo.
Ao longo de 10 anos a banda construiu uma carreira baseada num som que parte do rock para depois ir beber a tantas fontes que transforma o som numa massa indistinta e sem personalidade vincada. Há toques de indie, grunge, pop (portuguesa…) dos anos 80 e uma melancolia “blasé” na voz que nunca poderia ser senão de origem portuguesa. “Psicologia” e “Sábado à Tarde” foram os pontos altos. R.I.P.
Para encerrar a noite vieram os Supernada – e automaticamente a fasquia foi bastante elevada.
Pontos prévios a esta crítica: Manuel Cruz é um dos maiores génios da música portuguesa. E Supernada nada tem a ver com Ornatos Violeta; são mais rock, menos (espampanantemente) criativos e, no fim de contas, mais previsíveis.
E são uma banda bizarra, uma vez que, tendo sido formados quase na mesma altura que os Pluto (essa outra banda pós-Ornatos que contava também com os Supernada Manuel Cruz e Rui Lacerda), e ao contrário deles, fizeram carreira em palco antes de gravar o que quer que fosse. “Nada É Possível”, o seu álbum de estreia, foi lançado o ano passado… 10 anos após o surgimento da banda.
Esses 10 anos de calo adquirido tocando músicas desconhecidas do público fazem dos Supernada um conjunto de músicos que toca de olhos fechados, criando o suporte necessário para os devaneios do vocalista. Assim sendo, juntando a competência da banda à forma (para mim, inadjetivável) como o cantor trabalha e brinca com as palavras e acrescentando ainda uma pitada de desinibição e inspiração no contacto com o público (que os não queria deixar sair de palco), fomos brindados com um SENHOR concerto. Os pontos altos poderiam ter sido “Invisível Mundo”, “Arte Quis Ser Vida” ou “A Ver Vamos” não fora por uma pequena surpresa no final: o cantor chamou a palco algumas miúdas para cantar uma canção típica de Mêda (isto depois de, durante o concerto, se ter apropriado da “catch phrase” do festival: «Oh prima anda aqui ao micro!») mas, perante a sua (delas) demora em começar houve um “cromo” deste festival (o auto-proclamado «Preto Mais Lindo do Universo») que subiu ao palco e foi ao micro proferir o seu lema – que, por coincidência ou não, trazia estampada ao peito: «FUCK YOU ALL!» E para que não houvessem dúvidas… repetiu a graça. E assim acabaram os concertos do segundo dia, deixando-nos – por mais que um motivo – com um sorriso rasgado no rosto.

Dia 3
O dia dos pesos-pesados. Sou sincero: para mim teria bastado a presença dos Parkinsons e dos Wraygunn para ter ido ao festival. É daquelas duplas de sonho, sinónimo de (pelo menos) duas horas de puro prazer. Antes, porém – mas já depois de ter conhecido as “5 Princesas Católicas” (a elas voltarei no término do texto) – havia nova banda desconhecida a avaliar: The Indigo.
O seu som soou-me tão inócuo e “chapa quatro” que pensei: juntá-los no cartaz aos Gula e Feromona seria perfeito – era da maneira que nessa (hipotética) noite nem me deslocaria ao recinto. É certo que o rock ‘n’ roll já tem uma idade considerável e que custa cada vez mais inovar, mas que diabos… deviam haver mínimos olímpicos a cumprir! Não basta (aliás, não devia bastar…) ter acesso a instrumentos e a estúdios – vide o exemplo do que aconteceu aos Rabification em meados dos anos 90.
“Estou Tentado” e “Estou do Lado Certo” (em estreia) conseguiram chegar a algumas pessoas, assim como a versão de “Psycho Killer”, dos Talking Heads. Só foi pena terem escolhido tocar uma cover da mesma canção que os A Cepa Torta tinham tocado na noite de estreia do festival…
De seguida veio a banda pela qual me propus fazer cerca de 800kms. É-me difícil ser imparcial relativamente aos Parkinsons por uma e só uma razão: eles são uma das minhas bandas favoritas de sempre. É de realçar que não são, nem “uma das minhas bandas punk favoritas de sempre”, nem “uma das minhas bandas portuguesas favoritas de sempre” nem sequer “uma das minhas bandas punk portuguesas favoritas de sempre” – é todo um outro patamar.
Dito isto, tenho também a dizer que muitos fãs de punk português deverão concordar comigo quando digo que os Parkinsons são, em termos de som e atitude, o mais próximo que há dos Sex Pistols – mas dos Sex Pistols “vivos” (os de ’77), não aqueles senhores zombies degradantes e degradados (ainda que fossem os mesmos…) que vi em Paredes de Coura 30 anos depois (!!!). E esta é, simultaneamente, a melhor descrição e o maior elogio que lhes posso fazer.
Segui a banda desde o seu início – coincidente com o do milénio – e, com a saída do vocalista Al Zheimer (primeiro) e com a separação da banda (pouco depois) pensei ter presenciado a passagem do mais brilhante cometa musical produzido em Portugal (rima e é verdade). Felizmente equivoquei-me; os Parkinsons reuniram-se e depois de os ter visto num espaço minúsculo (Club Noir) e noutro imenso (palco secundário do Optimus Alive) rendi-me às evidências: a magia continuou, agora com a presença do (ex?) Bunnyranch Kaló sentado atrás da bateria.
Desde o início, com a poderosa “Primitive”, os Parkinsons ficaram de imediato com o público na mão. Daí em diante foi só servir mais do mesmo (o que não é pejorativo quando esse “mesmo” tem tamanha qualidade), do genial álbum de estreia (“She’s a Bad Girl”, “Angel In The Dark”) ao álbum do regresso (“So Lonely”, “Girl From Another World”), passando pelo “álbum maldito” (sem Al Zheimer – “New Wave”). Que mais há a dizer? Que o concerto foi excelente devido à segurança à prova de balas vinda da bateria, à dinâmica comanos de comprovado sucesso entre Vítor Torpedo (o guitarrista) e Pedro Chau (o baixista) e àquela figura magra de tronco nu, o filho (mais para neto…) que Mick Jagger (pela postura em palco) e Iggy Pop (por tudo o que faz fora do mesmo) nunca tiveram e que passa quase tanto tempo entre o público como em cima de palco. Long live the Parkinsons!
Para encerrar o festival com chave de ouro veio outra banda, tal como a anterior, nascida das cinzas dos seminais Tédio Boys, de Coimbra (de onde vieram todos os Parkinsons menos o que canta e o Lendário Homem Tigre aka Paulo Furtado) – os Wraygunn.
O concerto arrancou a todo vapor e depressa a audiência ficou rendida à sensualidade animal transmitida pelo som híbrido de soul, gospel, funk e blues que é imagem de marca da banda. Um som cheio e um excelente jogo de luzes proporcionaram aos presentes um verdadeiro ataque sensorial, levando-os a um estado de euforia.
Com as divas Selma Uamusse e Raquel Ralha a espalhar magia e com o percussionista João Doce no papel de (segundo) agitador, todo o concerto foi ocorrendo num crescendo que acabaria por levar Paulo Furtado para fora do palco, para junto das grades de segurança para tocar mais perto do seu público. “Tales Of Love”, “Do You Wanna Dance” (as excelentes canções que dão início ao último álbum da banda) e “Soul City” foram algumas das canções melhor recebidas, mas “guardado estava o bocado para quem o haveria de comer”: durante a interpretação de “All Night Long”, Paulo Furtado parou a música, chamou dois membros do público e entregou, a um, a sua guitarra, e ao outro, o seu microfone. Posto isto, deixou-os em palco para o substituir na sua parte (!) da canção enquanto, munido dum micro com cabo extra-longo, se infiltrou na plateia e por lá andou a fazer amizades e a cravar cerveja…
Este episódio de rara beleza e a (enérgica) interpretação do hino “Drunk Or Stoned” serviram para pôr um ponto final no IV Mêda+. Obrigado e até para o ano!

«– Então e quem é que queres cá ver para o ano?» foi, se bem se lembram, a questão que me foi colocada por um membro da organização imediatamente após o fim do festival. E a resposta foi: Sam The Kid. Não só por ser o único artista «da minha terra» (Chelas), não só por gostar da sua música, mas por estas duas razões que me parecem ser de peso:
1 – O festival tem-se mostrado de tal forma aberto a uma grande variedade de géneros musicais que já se começa a justificar (ou a sentir falta…) a presença do hip-hop;
2 – Para não alienar os (mais) jovens entre os festivaleiros (aqueles que este ano encheram o recinto por Fonzie, o ano passado por Fita Cola e há três anos por Tara Perdida) – afinal, e apesar desta opinião não ser consensual, os fãs de punk-pop e os de hip-hop são maioritariamente adolescentes…

Já agora, organização do Mêda+: caso o Sam The Kid não esteja disponível deixo um plano B (ainda e sempre na área do hip-hop): Valete ou Chullage (Margem Sul) ou Mind Da Gap ou Dealema (Porto). Venha daí ritmo e poesia para a edição de 2014!

P.S. Princesinha do chapéu de coco e óculos escuros a revelar parte dos olhos: obrigado pela força, sem ti esta reportagem não existiria! Beijo, Hugo.

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