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Crónicas no image

Published on Julho 1st, 2013 | by Paulo Pereira

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Reportagem: Tumulto Fest no Ginásio Clube de Corroios (29/06/2013)

Estava uma tarde tórrida quando cheguei a Corroios para assistir ao meu décimo concerto da minha banda favorita. De tal forma o calor atacou que, horas mais tarde, durante a atuação dos cabeças de cartaz, foi possível ver um “stage-diver” usando nada mais que… uns calções de banho.

Os corpos (já) em tronco nu adiavam o mais possível a entrada no Ginásio Clube enquanto se refrescavam com litrosas – conhecedores das limitações do espaço e da regra do “saíste, não voltas a entrar”, temiam desidratar ou sufocar (porque não ambas?) uma vez lá chegados. E de mais que uma boca ouvi relatos de certo e determinado concerto de Ratos no qual o calor e a densidade populacional eram tão elevados que pingava suor do tecto. Posso confirmar que assim foi na Incrível Almadense, há pouco mais de vinte anos, no meu primeiro concerto deles – seu segundo de sempre em Portugal. Felizmente desta vez não foi caso para tanto; para além desta casa não estar tão claustrofobicamente cheia como a outra, os organizadores tiveram a peregrina ideia de abrir as portas laterais do recinto entre cada atuação.
Acabei por perder metade das bandas deste Tumulto Fest (Chalenge, Utopium e For The Glory) em virtude dos meus acompanhantes – Linda A Velha hardcore! – terem adiado ao máximo a entrada. Para além dos problemas acima referidos, outro se lhes juntou: aparentemente (não posso confirmar, não bebo álcool) o preço da cerveja no interior do recinto era escandalosamente elevado – sobretudo se nos lembrarmos que em redor do Ginásio Clube há vários cafés, tascos e minimercados. Assim sendo, fui esperando, esperando… e quando se me esgotou a paciência e entrei (sozinho, apesar de tudo… pirrónicos!) já os For The Glory tinham acabado de tocar.
Reza a lenda (e as estóicas testemunhas que a partir das 6 da tarde entraram no recinto) que os Chalenge abriram as hostilidades às 6, com os níveis de energia no máximo, a destilar o seu hardcore para uma plateia maioritariamente composta de conterrâneos seus (eles vêm das Caldas). Seguidamente foram os lisboetas Utopium a servir grindcore para todos (que nesta altura já seriam poucos mais que meia-hora antes) e depois chegou a vez duma banda que (como todas as outras que tocaram a partir deste momento) já nada tem a provar: For The Glory. Por esta altura a sala já se encontrava composta pelo que houve momentos de “brava dança” assim como a chamada ao palco do vocalista da banda que se lhes seguiria para a interpretação duma canção.
Terá sido minutos após isto que entrei no recinto…
Assisti a uma enérgica prestação de metalcore (com muito trash à mistura…) cortesia dos Switchtense que, graças ao empenho do seu vocalista, atraiu para a frente do palco gente suficiente para se começar a fazer a festa rija. Riffs poderosos antecediam cavalgadas rítmicas acompanhadas pela voz gutural do vocalista. Bom concerto.
Já não consigo escrever sobre os Simbiose. Se estão a celebrar 20 anos de carreira, é possível que os tenha acompanhado desde o início. Aquele híbrido punk-crust-metal toca-me “lá” e não lhe consigo resistir… nem sequer descrever. Com o vocalista a usar uma t-shirt de Ratos (o respeito é uma coisa bonita), assim que subiram a palco chamaram o público para o mais perto possível do palco (como sempre) e depois serviram o de sempre, batidas rapidíssimas com riffs viciosos a enquadrar uma voz poderosa e a transmitir fúria a cada sílaba. A dança intensificou-se, o ambiente compôs-para o que estava para vir. E para ir direto ao assunto concluo afirmando que os Simbiose deram um excelente concerto e que são “a” banda capaz de agradar a qualquer fã de música extrema – independentemente do subgénero a que pertença – venha ele de onde vier.
Chegada que foi a hora esperada tudo aconteceu como o esperado – e como é bom quando isso acontece!
Desde a chegada daqueles quatro vultos a palco até final a euforia traduzida em slam-dance e stage-dive à bruta foi constante. O que para quem não conheça pode parecer perigosíssimo e selvagem é na verdade uma manifestação física de prazer noutros contextos identificada como “dança” – e se nos lembrarmos disso e prestarmos atenção aos sorrisos nos rostos dos “voadores” e dos “centrífugos”…!
Sem novidades desde o já longínquo “”Homem Inimigo do Homem”, de 2006 (se bem que conste que estejam já a trabalhar no seu sucessor) a banda veio em registo “best of” e bastou-lhes ser igual ao que se conhece para ter proporcionado a muitos dos presentes o concerto do ano. É preciso lembrar que esta instituição do punk/hardcore leva já 32 (!) anos de carreira, sendo que Jão (o guitarrista e líder silencioso) é o fundador, Gordo (o vocalista) leva meras 3 décadas com a banda, o baterista Boka leva 22 anos como Rato e o caloiro Juninho, actual ocupante da “cadeira giratória” que é o lugar de baixista na banda vai a caminho da sua 1ª década em funções. Isto para dizer que esta é (desde 2004) a sua formação ideal.
Durante hora e meia foram sendo disparados bojardos hardcore (“bojardcore”, portanto!) uns atrás dos outros, sem pausas nem tréguas – uns 30, de “Crucificados Pelo Sistema” a “Crocodila” (para mim, a segunda melhor interpretação da noite), de “Suposicollor” a “AIDS, Pop, Repressão”, de “Sofrer” a “Crianças Sem Futuro”… e tudo isto quando, minutos antes da entrada em palco, o Gordo estava sem voz, a qual recuperou após beber um whisky de penalty.
Apesar dessa e doutra “fraqueza” (a seu tempo…) a banda continuava a disparar hinos e o público a receber cada canção como se fosse o hino da sua vida – e até podia ser o caso! Foram a algumas versões – “Work For Never” dos seus ídolos Extreme Noise Terror (“a banda mais punk do mundo”, segundo o Gordo) ou “Buracos Suburbanos”, dos conterrâneos Psykóse e mantiveram o desfile de clássicos: “Morrer”, “Mad Society”, “”Crise Geral”, “”Anarkophobia”, “F.M.I”, “Atitude Zero”, “Quando Ci Vuole”, as micro-canções (não menos poderosas devido a isso, antes pelo contrário…) do disco de estreia “Pobreza”, “Caos” e “”Que Vergonha”…
A minha pérola pessoal foi a atípica “Somos A Turma”, da versão brasileira de “Feijoada Acidente”, essa cantiga de escuteiros tóxicos tocando “violão”na praia (é preciso ouvir…) que começa com o inspirado verso «Somos a turma que mais fuma maconha / Somos todos bêbedos e não temos vergonha». O Gordo acabou por se esquecer da letra da última quadra, mas não importou, a magia já tinha acontecido!
O concerto tinha terminado mas ninguém arredava pé. Foi então que Jão se chegou ao micro com as seguintes sábias palavras: «Tamo véio cara, o João tem 50 anos, pô!» Vai daí, começa a tocar e canta «Tudo acontece…» ao que o público responde «… na periferia!» e foi assim, com mais um regresso emotivo e vibrante ao álbum de estreia (de 1984…) que terminou mais uma visita da lenda.
«Pô, cara… da primeira vez que tocámos em Portugal muitos de vocês ainda não tinham nascido!», disse a dado momento do concerto o vocalista. Fiquei a pensar nisso e olhei para a t-shirt da banda que trazia vestida: tem a mesma idade que a sua primeira visita ao nosso país!
Velho? Pode ser. Mas como os Ratos de Porão demonstram em palco, e citando já não sei quem: «Age ain’t nothing but a number». E o meu é o 19. O deles também deverá andar por aí…

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