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Crónicas no image

Published on Outubro 31st, 2013 | by Paulo Pereira

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Reportagem: Toy Dolls & Mata Ratos ou «estaremos demasiado velhos para isto?»

Sábado à noite a sala TMN ao Vivo foi palco duma das maiores celebrações punk dos tempos mais recentes. Tratava-se do regresso a Portugal duma das bandas mais influentes do género acompanhada por um dos maiores pesos pesados da cena nacional. Passada uma hora das 21:30 (hora marcada para o início do espetáculo) a fila de fiéis à espera para entrar ainda passava do exterior da sala, em ângulo de 90 graus, em direcção ao rio. Mais ordeiramente do que é habitual nestes casos, todos foram entrando – inclusive o grupo de punks que pagou os seus bilhetes em trocos previamente cravados a quem ia chegando…

Uma vez dentro do recinto, apercebi-me – sem grande surpresa, diga-se – de que a vasta maioria do público era composta por “ónes” (trintónes e quarentónes… no mínimo!). Natural quando a banda principal tem uma carreira iniciada em finais dos anos 70 e a de suporte outra desde o início dos anos 80. Para muita desta gente Mata Ratos e Toy Dolls (sobretudo estes) pertencem às memórias dos tempos de liceu, quando o suporte no qual os seus discos rodavam eram as belas K7s gravadas com um álbum em cada lado. Ou com 3, caso a K7 fosse de 90 minutos.

O insistente ruído duma sirene deu o mote para o início das hostilidades. E poucas vezes o termo terá feito tanto sentido como neste caso. “Napalm Na Rua Sésamo” foi o pontapé de saída para um concerto irrepreensível dos Mata Ratos, com o seu som arrebatador a levar tudo à frente enquanto o vocalista Miguel Newton, como sempre, destilava fúria ao microfone nunca se inibindo de o partilhar com o público para que pudessem participar nos refrões. Houve mosh desde os primeiros acordes e até final do(s) concerto(s).

“No Meu Sonho Eu Era O Figo”, “Dança Com A Merda”, “Menina Da Rua”, “És Um Homem Ou És Um Rato”, “Leis Da Merda”, a cada canção o público respondia “presente” a plenos pulmões e passos de dança. “C.C.M.” (para quem, vindo doutra galáxia qualquer, ainda não saiba, é a sigla para “Cona, Cú & Mamas”) teve o vocalista a cantar o tempo todo entre (e com) o público e, nesse mesmo registo “javardcore”, o meu aplauso especial vai para a interpretação de “Xu-Pá-Ki”, esse hino ao sexo oral que começa com o singelo verso «Vinhas do campo e eras rosada / Até que me fizeste uma grande mamada». Que concerto! Brutal, intenso, direito ao osso.

E quando me ponho a pensar em como é que os Mata Ratos «mantêm a chama acesa» (copyright Dalai Lume) depois de 30 anos disto lembro-me do primeiro verso de “Última Rodada”: «Eu não quero que me fodam a cabeça / Eu só quero uma cerveja e depressa!». Palavras com as quais tanta gente se identifica que… a dada altura a cerveja acabou no recinto. Mesmo ao preço de 3€ – até um abstémio como eu sabe que isso não é preço que se pratique… muito menos num concerto deste tipo!

Após um intervalo e ao som de “Cloughy Is A Bootboy” teve início a festa que foi o regresso dos Toy Dolls. Definir o som da banda para quem não a conheça não é exercício fácil. Punk infantil? Os Ramones em versão ainda mais cartoonesca? Ritmos acelerados a acompanhar letras patetas (elogio) com o suporte de melodias (aparentemente) básicas e a voz do que parece ser um desenho animado com um “British accent” carregadíssimo? Se calhar tudo isto e mais qualquer coisa.

O trio de Sunderland, plataforma giratória de baixistas e bateristas com o único membro fundador/alter-ego da banda, Michael Algar aka Olga, a fazer a ponte com o passado remoto, deu um concerto épico, celebratório, emotivo… inesquecível.

As curtas e velozes canções iam-se sucedendo sem tempos mortos ou decréscimo do nível de adrenalina porque todas elas eram (são) hinos. Mesmo as canções apresentadas do último álbum “The Album After The Last One”, como “Dirty Doreen” ou a excelente “Credit Crunch Christmas” (ambas exemplo da tradição da banda de criar títulos de canções baseadas em aliterações, tal como a ausente do alinhamento desta noite “Fisticuffs In Frederick Street”) se encontram ao nível dos hinos maiores da banda como “Idle Gossip” ou “Nellie The Elephant”, esse único quase-hit da banda que originalmente era uma canção de embalar…

Olhando para o palco, que se via? Baixista e guitarrista em permanentes coreografias palco fora, ora correndo lado a lado ora em direcções opostas, com saltos programados para os momentos certos, instrumentos (de cordas…) a fazer os mesmos movimentos, vocalizações divididas entre os três membros (obviamente que com muito maior predominância para Olga mas não deixando de lado o baterista… The Amazing Mr. Duncan) e uma preparação visual (os óculos, fatos e gravatas apalhaçadas com botas da tropa) que não nos conseguia fazer parar de sorrir.

Durante a maior parte do concerto o coro do público fazia Olga deixar de cantar, quer refrões, quer letras inteiras. Como sucedeu, por exemplo, em “My Girfriend’s Dad’s A Vicar”: “God help me what can I do? / My girfriend’s dad is a vicar boo hoo / And he won’t let me be alone with you /Oh he’s a vicar and there’s nothing I can do”. Por oposição, em “Olga, I Cannot” deu especial prazer ouvir esta atípica “canção de dor de corno” que começa acústica, um “one-man show” do vocalista, até entrar na “normalidade” com frases do calibre de “I would if I could, but I don’t think I should / I can’t, well I can but I shan’t – it’s not good man!” antes de se chegar ao refrão mil vezes repetido “Olga… I cannot”, sendo que a última palavra é pronunciada de forma “tão” britânica que chega a soar alienígena (“aikénit”). Os sorrisos rasgados que se viam em cima do palco eram semelhantes aos que se viam em redor por todo o lado.

A festa continuou sem qualquer tipo de quebra tal a qualidade da matéria-prima (leia-se “repertório”) da banda: para cada clássico não tocado (“I’ve Got Ashma”, “Yul Brienner Was A Skinhead”) outro de igual qualidade o era (“Harry Cross”, “Spiders In The Dressing Room, “Dougy Giro”.) “Alec’s Gone” puxou pelas gargantas no refrão; “She Goes To Finos” originou um “lalala” colectivo de rara beleza; “Tommy Kowey’s Car” tornou a dança (ainda) mais frenética; “Lambrusco Kid” teve direito ao momento cénico da noite, com uma garrafa gigante do dito vinho a ser entregue a Olga, que a abre lançando “confetti” sobre o público e apresentando o baixista Tommy Goober para cantar. Entre tudo “isto” a dança não parou, havia gente a voar por todos os lados e, aqui e ali, a banda foi também servindo os seus mini-instrumentais (como “Toccata In Dm”) para controlar a intensidade do concerto.

O qual terminou com chave de ouro, com o último encore a ser apresentado por um Olga sem os óculos que são a sua imagem de marca a entrar em palco tocando “When The Saints Go Marchin’ On” com a guitarra por trás da cabeça e daí passando para o arrepiante momento que foi “Glenda And The Test-Tube Baby” com o público a cantar, primeiro “a capela” e depois durante a corpo da música o mítico (e bizarro) refrão «Victory / If Glenda she / Had a baby / Hoooeee!» Para lançar em definitivo o caos na sala ainda se ouviu “Dig That Groove” – depois disto, ninguém teria o que quer que fosse a apontar!

«D’ya think I’m getting too old for this?», pergunta a dada altura o (mais que) cinquentóne Olga, num palco com um rosto imenso caricaturado por trás de si que é, em simultâneo, uma caricatura sua & o logo da banda, exibindo o mesmo sorriso que mais tarde imortalizou em fotos que tirou com fãs – muitos dos quais também músicos por si influenciados. Respondendo à pergunta: «Hell, NO!»

E o melhor elogio ficou para o fim: nesta mesma noite perdi o concerto de outra das minhas bandas favoritas, de seu nome Biohazard. Nem por um momento me lembrei de tal coisa.

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