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Crónicas no image

Published on Novembro 8th, 2013 | by Paulo Pereira

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Reportagem: Suede no Coliseu – a Britpop foi há 2 décadas (mas continua a bater)

É dos livros (dos que imagino existirem embora nunca tenha lido): a cada novo género musical que surge depressa se encontram dois colossos mais ou menos antagónicos mas é (também) à margem da fama e sucesso de tais colossos que se encontram os projectos mais fascinantes. Agora com exemplos práticos – e ambos vindos do mesmo período histórico: no grunge havia Nirvana (bom) vs Pearl Jam (mau). Nas margens os excelentes Alice In Chains, Melvins e Mudhoney. No que toca à britpop – que é o que hoje interessa – tínhamos Blur (bom) vs Oasis (mau) e nas margens a excelência dava pelo nome de Pulp, Supergrass e… Suede. Obviamente.

Depois de três álbuns geniais e não iguais (não há para estes lados o “síndrome Ramones”, o da banda que descobre uma fórmula e passa a carreira a reproduzi-la) a transição de milénio não foi meiga para a banda e os álbuns seguintes desenharam uma curva descendente na carreira da banda, com “Head Music” a tentar dar um passo maior que a perna (e “Crack In The Union Jack”, tema que encerra o disco, só pelo título serve para ilustrar a maré tóxica navegada – sobretudo – pelo vocalista da banda) e “A New Morning” sendo tão irrelevante que foi o único que não contribuiu com nada para esta noite. Um interregno de mais duma década não facilitou o regresso às lides de palco pela simples razão que “Bloodsports” é um regresso à boa forma mas… as “novas gerações” estão a receber o disco como se fosse o de estreia da banda, quando “Bloodsports” não é “Suede” e o mundo em 2013 não é o mesmo de 1993…

E foi isso que falhou, o facto de não estarmos em 1993 (vá, 1995 e não se fala mais nisso!) para termos estado perante um acontecimento ímpar. Nesse tempo, um concerto com a intensidade e qualidade que este teve teria tido Coliseu cheio e rendido; assim teve “apenas” o público incondicionalmente rendido à banda, o problema sendo que o público era o menos numeroso em concertos daquela sala desde o bizarríssimo concerto de Atari Teenage Riot na fronteira do milénio – talvez meia plateia e bancadas encerradas.

Ao entrar, e estranhando tamanha liberdade de movimentos, deambulei pelo público em busca de rostos familiares. Quando encontrei um e me dirigi a ele, inadvertidamente toquei (não posso usar os termos “empurrar” ou “atropelar”, aquilo nem uma carga de ombro foi) alguém que me alertou do seguinte facto:
“– Isto não é um festival de Verão!”

Limito-me a registar este monumento à estupidez humana, abstendo-me de o comentar. Assim como o autor desta imbecilidade, a maioria do público aparentava ser pequeno-burguês (isso ainda existe? É que não queria usar o termo “betaria”…) a navegar pela faixa etária dos vinte e muitos/trinta e poucos.

Assim sendo, o tiro de partida do concerto dificilmente poderia ter sido melhor, com “Pantomine Horses”, pérola do álbum de estreia. Logo de seguida e como que a querer deixar bem claro que não voltaram para ser uma banda de tributo a si próprios, dispararam três canções novas, “Barriers”, “Snowblind” e “It Starts And Ends With You”. O melhor que se pode dizer é que, sobretudo a primeira e a última, são “singles” perfeitos – o que relança o problema da música (não só) dos Suede no séc.XXI: o que é um “single”, mesmo?

O público (fidelíssimo) demorou o seu tempo a reagir a estes novos sons, mas a partir do momento em que Brett Anderson, sendo o “performer” nato que é, se apercebeu de que teria de dar “aquele” contributo extra para obter a reacção desejada, não se fez rogado e deu ao público o que ele queria… e mais um pouco.

Novamente surge a comparação com o “antes”: se nos tempos áureos lhe bastaria qualquer gingar de ancas para levar a plateia ao delírio, hoje em dia tem de andar “that extra mile” para o conseguir. Salta, usa o cabo do microfone como se dum laço se tratasse, corre à frente da primeira fila enquanto canta e chega mesmo (em “The Drowners”, esse momento sublime do álbum de estreia) a infiltrar-se entre o público e a deambular por entre eles (nós) enquanto canta. A banda é extremamente competente e boa no que faz, mas sempre foi o carisma e sex-appeal do vocalista a carregá-la; se antes tinha reminiscências de Bowie na sua fase “glam” (pela androginia), agora, quarentão, assemelha-se mais a um Bowie “anos 90” (pelo “dandy” em que se veio a tornar, todo de preto, roupas justas, camisa aberta até ao umbigo).

Voltando ao concerto propriamente dito, à quinta música iniciou-se uma sequência de rara beleza que culminou com a recente “Sometimes I Fell I’ll Float Away”: “Filmstar”, “Trash”, “Animal Nitrate” e a arrepiante “We Are The Pigs”. Só por estes 20 minutos já teria valido a pena!

Curiosamente, o último álbum teve tantas canções interpretadas como o primeiro, com a cereja no topo do bolo a ser a interpretação dos hinos com 20 anos de idade “So Young” e “Metal Mickey” no final do alinhamento inicial. Até lá tinham havido novos pontos altos com a mais roqueira e hedonista “Can’t Get Enough”, o novo épico “For The Strangers” (sim, que há para aí tanta gente desconhecida capaz de nos fazer felizes…!) ou a dengosa “The Two Of Us”.

Sinceramente e depois de um concerto de tamanha qualidade o encore soube-me a anti-clímax, senão vejamos: houve uma “She’s In Fashion” acústica e desinteressante e dali se passou para o óbvio hino cantarolável “The Beautiful Ones”. Mesmo assim, posso dizer que este terá sido (e de longe!) o melhor concerto de “britpop” do ano – quiçá do século, tendo como termo de comparação o concerto que os vi dar em 2002, pré-separação, na Aula Magna.

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