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Crónicas no image

Published on Novembro 23rd, 2013 | by Paulo Pereira

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G.B.H. + Dalai Lume + Asfixia: Celebração punk / punk’s NOT dead

No passado 3 de novembro terminou a semana (de 8 dias) mais intensa de que tenho memória no que toca à oferta de concertos punk/hardcore. Este foi o 3.º concerto na República da Música, 6 dias após o de DOOM, 8 após o de Biohazard – sendo que este último coincidiu com a actuação de Toy Dolls na sala TMN Ao Vivo, tornando impossível o que já seria extremamente complicado à partida: conseguir fazer o pleno e ir a todos, mesmo em caso de haver disponibilidade e dinheiro para tal. Eu próprio me fiquei pelo triplete mas de bom grado teria feito o póquer…

Com o espaço dividido em dois por um pano preto, tínhamos à entrada a zona do bar e merchandising onde se encontrava também o DJ Billy a servir bom som antes, durante os intervalos e depois das atuações. Retenho com agrado “A Cor Do Céu”, dos Acromaníacos, entre tantas outras pérolas. Do outro lado do pano, o palco.

Cheguei só suavemente atrasado para este concerto que ficará registado na memória coletiva do punk português como o dia do último concerto de Rui Rocker, guitarrista de Asfixia. Fi-lo por saber que a sua debilitada condição física “forçaria” a banda a uma atuação rápida e pontual. Poucos minutos passavam das 9 quando à entrada da sala ouvi a sua inconfundível guitarra e me apressei a entrar.

Apanhei o comboio já em andamento, com a banda já a tocar “Sistema”. O concerto foi enérgico e emotivo, embora alguns problemas de som com o baixo e o facto de nunca ter conseguido gostar da voz da vocalista Inês (uma questão apenas de timbre vocal, porque a sua presença em palco e fora dele merece nota máxima) me tenham impedido de o apreciar plenamente.

O ritmo rápido e incisivo da banda, aliado a letras cujo conteúdo é facilmente perceptível logo pelos títulos (“Geração À Rasca”, “Portugal Está a Rebentar”), contudo, conseguiu animar e aquecer as hostes a ponto de terem tido direito ao mosh dum homem só, que andava à frente do palco a correr em círculos e subiu a palco para mergulhar de cabeça em direcção ao chão.

O peso (e 2as vozes) do baterista aliados à imagem daquele homem (mais) magro e a receber oxigénio por um tubo enquanto rasgava na sua guitarra como se não houvesse amanhã foram as imagens que retive do concerto de Asfixia, que antes do final teve o ponto alto com “F.M.I.” (Finalmente Mais Impostos), “Basta” e “Asfixia”, já com a vocalista a cantar entre o público.

De seguida subiram a palco os Dalai Lume. Em forma, deram um concerto no qual se notou um crescendo de intensidade perceptível por o número de “moshers” ter passado de um para… três, que praticaram uma variante que até então desconhecia, o “mosh de arrastão”, onde os casacos de cabedal são usados para melhor se arremessarem uns aos outros no vazio. A festa estava a melhorar.

Com o vocalista Zorb comunicativo como sempre e a depressa conquistar a empatia dos presentes (entre outras coisas, digo eu, graças à camisa Maradoniana do México 86 que começa a ser imagem de marca), foram desfiando canções por entre intervenções mais ou menos sérias & mais ou menos politizadas, não deixando ninguém indiferente. “Filhos de Putin”, “Miseráveis” ou “Portugal” foram das melhor recebidas ainda que, e sem surpresa de maior, tenha sido com “Bairro Alto” e a inevitável “Dalai Lume” que o seu concerto tenha atingido o ponto alto…

…ou então não. Porque para o fim guardaram uma surpresa especial e bela, uma versão de “A Crise Continua”, hino maior dos seminais Crise Total, banda do já referido Rui Rocker, a ele dedicada e com a participação na voz duma amiga da banda exilada no Reino Unido. Só por o vocalista se ter dado ao trabalho de substituir a camisa de D10S para – literalmente – vestir a de Crise Total dava para antever o melhor. E a espetativa não foi defraudada, antes superada. Banda e público entregaram-se de corpo e alma à interpretação duma canção que todos terão crescido a ouvir e a cantarolar. Foi o momento mais intenso da noite, com a emoção a falar mais alto: tinha sido uma homenagem arrepiante. E merecida, tão merecida…!

Ao chegar a hora do concerto de G.B.H. a sala ficou, finalmente, composta. Não cheia, a rebentar pelas costuras, mas tampouco a meio gás como tinha acontecido na pretérita 2ª feira com DOOM. Afinal, ambos concertos foram em vésperas de dias úteis e os punks/anarquistas, citando a amiga Lena (numa conversa já velha de quase 20 anos!), “também têm de trabalhar para viver”. Ainda assim, neste concerto (ao contrário, por exemplo do de Toy Dolls) não se viram só exemplares da velha guarda do punk (de 30 e muitos para cima) mas também alguns da nova geração (sub-20), talvez numa proporção de 6 para 1. Os primeiros com as suas cristas e panças de cerveja, os segundos com roupas e penteados discretos/anónimos e (ainda…) magros manifestaram valentemente durante pouco mais duma hora o seu amor ao punk-rock.

Os G.B.H. são daquelas bandas que, tal como os Exploited, Toy Dolls ou Ramones, definiram o seu som há mais de 30 anos e desde então nunca se afastaram da fórmula. Parecem estar sempre a gravar o mesmo álbum… o que, para quem gosta da fórmula, é óptimo! O quarteto – todos membros fundadores à excepção do baterista, que está na banda “só” há uns 18 anos, composto por cinquentões com muito calo, foi recebido em apoteose e não demorou a mostrar ao que vinha, entrando a pés juntos com “Unique” (primeira canção do último álbum produzido por outro fã da banda, Lars Frederiksen dos Rancid) e “Race Against Time”. A brava dança começara e não voltou a parar. Reparei que, agora que a sua volumosa crista dos anos 80 foi substituída por um corte mais… discreto, o vocalista Colin Abrahall assemelha-se bastante a Brace, o mais velho dos 5 gigolos do “reality show” “Gigolos” (passe a redundância e a irrelevância da informação).

Daqui em diante (e felizmente) tivemos mais do mesmo, com a banda a debitar os seus hinos “street punk” uns atrás dos outros, levando a plateia ao delírio. “Lycanthropy”, “Necrophilia” “Dead On Arrival” e a brilhante “Generals” foram interpretadas numa fase inicial do concerto, cuja “fronteira” terá sido a sempre popular “Alcohol” – álcool esse que terá sido o responsável maior por uma cena de pancadaria raríssima em concertos deste tipo (sim, porque os punks/anarquistas respeitam-se mutuamente mais que qualquer outra ”tribo urbana”) mas que, pelo menos, acabou tão depressa como tinha começado e sem sequer ter forçado à interrupção do concerto.

Visivelmente agradados com a recepção do público, foi com sorrisos nas faces que os músicos continuaram a distribuir felicidade pelos presentes. Eis senão quando em cinco minutos vivi o momento alto do concerto com a interpretação da dobradinha “Big Women” (esse clássico dedicado às gordelícias – copyright Alexandre Frota – deste mundo, já “versionado”, entre outros, pelos Ratos de Porão) e “Sick Boy” (com direito a dança e coros maníacos – e ninguém me tira da cabeça que a alcunha duma das personagens de “Trainspotting” saiu daqui). Mais ou menos por esta altura um careca (calvo, não skinhead) de barba grisalha e colete de ganga veio direito a mim da roda do mosh com as seguintes palavras: “já não tenho idade para andar nestas merdas”. Curiosamente, nem um minuto depois vi-o a mergulhar do palco…

A festa aproximava-se do fim. “Slit Your Own Throat”, “Give Me Fire”, “Drugs Party in 526” e “Diplomatic Immunity” mantiveram a fasquia bem lá em cima até se chegar ao fim “oficial” do concerto com “City Baby Attacked By Rats” seguida de “City Baby’s Revenge”, o que me mostrou há quanto tempo sou fã da banda: da primeira vez que ouvi a primeira destas canções o meu inglês ainda não chegava para entender o título; de início pensei que significasse “Cidade Bebé Atacada Por Ratos” quando na verdade significa “Bebé da Cidade Atacado Por Ratazanas”… o que faz muita diferença.

O fim estava próximo e veio com “Maniac”, um excelente e definitivo ponto final numa noite que voltou a provar que o punk não morre. É um bicho resistente… a barata da música!
Acabado o concerto, notei que a maioria das pessoas se precipitou para a saída. Daí a umas horas seria 2.ª feira e com ela viria mais uma semana de trabalho… recordo este pequeno diálogo que tive com o Eduardo (aka Zorb), de Dalai Lume:
Eu: «A que horas tens de te levantar amanhã para ir bulir?»
Ele: «Às 7…»
Eu: «Ahahahahah! Eu é só às 8! GANHEI!»

P.S. Menos duma semana depois deste evento o (Shô) Rui (Rocker) perdeu a luta contra a doença que o afetava. Terá abandonado este planeta fazendo aquilo de que mais gostava – música. Tive o prazer de o conhecer e chamar amigo e, não deixando de ser verdade que o punk português ficou mais pobre, o que realmente ficou mais pobre foi o mundo, porque estamos a falar duma pessoa verdadeiramente boa. Que descanse em paz, as minhas condolências aos familiares e amigos e…
… dia 30 haverá um concerto especialíssimo na Academia de Linda-a-Velha em sua homenagem, com dezenas de bandas prontas a tocar tarde e noite dentro. Como ele gostaria que fosse. Vamos? Eu sei que vou.

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CONCERTO HOMENAGEM RUI ROCKER

14H00-14H15-PEIXARIA BORREGO
14H20-14H30-M.A.M.A.S.
14H40-14H55-F.P.M.
15H05-15H20-OSSO RUIDO
15H30-15H45-OFFICER DICK
15H55-16H10-IN THE CISOS
16H20-16H35-ERRO
16H50-17H05-RUINA
17H15-17H30-PORTA VOZ
17H40-17H55-ROBOT DEALER
18H05-18H20-DALLAI RUIDO
18H30-18H45-FIGHT TODAY
18H55-19H10-CHAPA ZERO
19H20-19H35-MORDAÇA
19H45-20H00-SARNA
20H10-20H25-KAMONES
20H35-20H50-BANDA SURPRESA
21H00-21H15-VIRA LATA
21H25-21H40-ALBERT FISH
21H50-22H05-SIMBIOSE
21H15-21H35-PESTE E SIDA
21H45-22H00-BANDA REVELAÇÃO

*OS DJS BILLY E JONHY TOCAM NA MUDANÇA DE BANDAS E SE SOBRAR TEMPO NO FINAL DO CONCERTO.

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