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Crónicas no image

Published on Novembro 12th, 2013 | by Paulo Pereira

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Reportagem: Pixies – é possível regressar onde já se foi feliz

Falar dos Pixies é falar da minha história enquanto consumidor ávido de música ao vivo. Aquando da sua estreia em Portugal, nos idos de 1991, eram já a minha banda favorita. Não fui ao concerto por ainda ter 17 anos, sendo que a regra para os meus pais era soltarem-me no Mundo quando atingisse a maioridade – e nem um dia antes.

“Now my head is clear / My roof has walls / My daughter’s pure / My son is tall” in “Nimrod’s Son”

Durante meses tentei sensibilizá-los, debalde. Perdi o concerto e fiquei com um cabeção monstro que só piorou – e muito – quando, meses após essa data, a banda anunciou a sua separação. Fiquei inconsolável.

“I make you gray / You make me hard / Your Irish skin looks Mexican / Our love is rice and beans and horse’s lard” in “Bone Machine”

Claro que na altura não tinha como prever que 13 anos mais tarde (2004) os conseguiria de facto ver ao vivo num concerto de reunião da banda. Nessa ocasião arrepiante de júbilo semi-religioso em que vi uma multidão compacta como poucas berrar todas as palavras de todas as canções interpretadas também tive o meu momento zen ao encontrar a agulha no palheiro que era aquele meu amigo de longe que sempre me respondera à provocação “Eu vi Nirvana e tu não” com “Eu vi Pixies e tu não” e com ele ficar o resto do concerto.

“Please forgive me José Jones / You need these walls for your own / I’m moving out of this hospedaje / I’m afraid you’ll cut me boy” in “Crackity Jones”

Eis-me agora, meros 22 anos atrasado, a fazer os passos que queria ter feito em 1991, quando estava a começar a alargar o meu espetro musical com a ajuda do que se veio a tornar um guia fundamental enquanto semanário musical: falo do Blitz. À época os meus gostos de adolescente estavam formatados para 4 géneros: metal (Slayer), punk (Dead Kennedys), hip hop (Public Enemy) e pop (Prince). E recordo claramente ter folheado o jornal e dado com um artigo sobre uma banda intitulado “Pop Surrealista” com uma foto da banda que denotava uma normalidade desarmante (nada de penteados extravagantes, poses “show off”, tatoos, brincos ou piercings) excepto pelo gordinho que, de olhos esbugalhados, aparentava ter um travo de loucura. A minha curiosidade tinha sido conquistada – e depressa veio a fidelidade aos criadores desse som único.

“ – And while we’re at it baby why don’t you tell me one of your biggest fears?”
“ I said “ – Losing my penis to a whore with disease”
“ – Just kidding” I said “– Losing my life to a whore with disease” in “I’ve Been Tired”

E que som é esse? É uma pergunta para a qual não tenho resposta. “Pop Surrealista” continua a ser uma boa descrição. David Lynch em forma de banda também me soa adequado. Um exemplar em forma de música daquilo que nós, europeus, julgam ser a “weirdness” americana – onde religião, incesto, ovnis e armas são temas corriqueiros, onde o som do sexo é igual ao som do nascimento (vide “Hey”), onde tão depressa se fala de Lou Reed como de Paco Picopiedra aka Fred Flinstone em versão castelhana, tudo isto com uma noção de melodia pop à prova de bala por detrás, com distorção de guitarras (entre o hardcore e o noise) ou não, com a voz de Black Francis (Ou será Frank Black? Para simplificar, o “Chico Escuro”) a alternar entre um registo contido e um outro de lunática berraria algures entre o fanático religioso e o assassino serial.

“He took his sister from his head and impregnated her on the sheets” in “The Holiday Song”

Pontualmente, 4 vultos (3 dos quais familiares) sobem a palco e, sem uma palavra, atacam com a descarga sónica apropriadamente intitulada “Planet of Sound”. Há uma barragem de luz branca por detrás da banda que pouco mais permite ver deles para além dos vultos. Ainda assim (e naturalmente) foi possível apercebermo-nos de que o baixo tinha mudado de mãos femininas, com uma Kim Shattuck aparentemente mais devedora de Kim Gordon (dos Sonic Youth) que da sua antecessora Kim Deal (agora só nos Breeders) mas competente na interpretação dos temas antigos – segundas vozes incluídas. Admito ter estranhado ver ao lado dos demais elementos da banda uma “french maid” cinquentona, mas não sou crítico de moda. Adiante.

“Sitting here wishing on a cement floor / Just wishing that I had just something you wore / I miss your kissin’ and I miss your head / And a letter in your writing doesn’t mean you’re not dead” in ”Cactus”

Até porque atrás referi os temas antigos – ora, para o fazer é porque também houve espaço para temas novos. E não foram um nem dois, mas nada menos que… sete! Num alinhamento com trinta e poucos temas. Que (bom) abuso! Não obstante, desses novos temas apenas dois, “Bagboy” (o single do regresso) e “Magdalena 318” teriam lugar num álbum deles – e mesmo assim, apenas no “Bossanova”, o seu penúltimo disco, o qual o tempo parece ter posto no seu devido lugar – afinal, foi o único ao qual a banda não requisitou uma música que fosse!

“Like a small bird pretty while it’s crapping on a new day / Cover your breath, polish your speech” in “Bagboy”

Depois do visceral “Cactus”, a banda interpretou 4 novidades intercaladas por um hino incontornável chamado “Wave Of Mutilation” e, para além das compreensíveis variações na intensidade com que se receberam umas e outras canções, continuo a achar arrepiante o poder dos Pixies concretizado em fazer milhares de pessoas cantar a plenos pulmões um refrão acerca de mutilação…

“I’ve kissed mermaids, rode the El Niño / Walked the sand with the crustaceans” in “Wave Of Mutilation”

O concerto foi um desfi(l)ar constante de canções, com a mínima comunicação possível com o público. Entre aquelas com melhor acolhimento popular destaco a “trilogia dos ossos partidos” (“Bone Machine”, “Break My Body” e “Broken Face”), as monstruosas “Debaser” e “Tame”, a fritaria enrolada com a pop que tão bem caracteriza “Alec Eiffel” ou as mais perturbadas que perturbadoras “The Holiday Song” e “Nimrod’s Son” – na qual me apercebi em tempo real da gravidade do atraso mental do cidadão que estava à minha frente, o qual conseguiu (nos raros instantes em que não estava a assobiar ou a urrar) cantar a parte “he was a son of a motherfucker”… já a parte “he was a son of incestuous union” era demasiado elaborada para aquele cérebro de dimensões inversamente proporcionais às do corpo.

“There was this boy who had two children with his sisters / Who were his daughters, who were his favorite lovers / I got no lips, I got no tongue / Where there were eyes there’s only space” in “Broken Face”

Não faltou nenhum dos (3) hits radiofónicos (sim, na altura da sua “primeira vida” a rádio ainda era um bom meio transmissor de música…), a saber, “Monkey Gone To Heaven”, “Here Comes Your Man” e “Where Is My Mind” (esta a fechar o alinhamento original e prova provada de que, após a sua inclusão no final de “Fight Club”, parece ter ganho nova vida e novos ouvintes), mas a minha atenção esteve sempre apontada para o ruído (“Crackity Jones”, “Caribou”) e para as bizarrices/escolhas menos óbvias – como aquela sequência de quatro temas raramente tocados composta por “Tony’s Theme”, “Something Against You”, “I Bleed” e “Brick Is Red”.

“A fish is fast / And Jimmy’s cast / Hang me” in “Brick Is Red”

A meu ver, o momento menos conseguido do concerto, par a par com a apresentação dos novos temas, foi a interpretação daquele pequeno bibelot surrealista intitulado “In Heaven (Lady In The Radiator Song)”, canção originalmente surgida (em versão a capella) na estreia cinematográfica de David Lynch, “Eraserhead”. Esta versão delicada consegue ser menos eficaz na transmissão da mensagem que na sua versão berrada a plenos pulmões pelo Chico Escuro – sendo que, entre uma coisa e outra, também chegou a ser melosamente cantada por Kim Gordon.

“If man is five / Then the devi is six / And if the Devil is six / Then God is seven / This monkey’s gone to Heaven” in ”Monkey Gone To Heaven”

E para o encore ficou guardada uma sequência obviamente pensada para deixar toda a gente incapaz de pedir mais – quer dizer… depois de nos terem ofertado 33 canções (!) serviram-nos uma trilogia “gourmet”: “Hey”, “Caribou” e “Gouge Away”. Era preciso ser muito ingrato ou exigente para não ficar saciado com isto…!

“Chained to the pillars / A 3 day party / I break the walls / And kill us all / With holy fingers” in “Gouge Away”

Posto isto só me apetece dizer: voltem (fiquem!) Pixies que estão perdoados! E também dedicar a um amigo meu tombado na manhã do concerto, Rui Rocker, guitarrista de Crise Total e Asfixia uma música interpretada no Coliseu de seu nome “The Sad Punk” – dedicada a todos quantos tiveram o prazer de o conhecer.

“And evolving from the sea / Would no be too much time for me / To walk beside you in the sun” in “The Sad Punk”


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