Festmag

Crónicas

Published on Novembro 27th, 2013 | by Filipe Pedro

0

Reportagem: These New Puritans, uma primeira noite de magia

Um regresso anunciado. Dois concertos. Primeiro a norte, no Hard Club, depois a sul, no TMN ao Vivo. Uma vocalista portuguesa – Elisa Rodrigues – com uma voz cândida que encaixa como uma luva nas estranhas camadas sonoras de “Field Of Reeds”, um disco de invulgar qualidade, à antiga, como poucos se fazem nos dias do rei “mp3”, para ouvir alto e bom som na velhinha aparelhagem estereofónica.

E “Field Of Reeds” é mesmo o ponto de partida para o concerto, no fundo uma espécie de prólogo para o ‘completamente fora do baralho’ “Hidden” – aqui a ordem lógica das coisas inverte-se e a conquista do público faz-se ao som do ‘hat-trick’ “Three Thousand”, “Attack Music” e “We Want War” – o potente single de “Hidden”, que segundo Jack Barnett apela à paz mundial.

Os singles do último álbum “Fragment Two”, “Organ Eternal” e “V [Island Song]” – este último a conhecer edição durante a digressão, e com direito a um vídeo animado lindíssimo, ganham ainda mais força com as variações controladas do ‘septeto’ comandado pelo maestro Jack.

Mas a Elisa [Rodrigues], o que é de Elisa. A cantora ganha terreno, voa sobre a banda com a audácia de uma águia mesmo nos temas de “Hidden” aos quais não deu a voz em álbum, mas que ganham nova vida com a sua interpretação.

De fora do concerto ficaram as singelas “The Way I Do”, “Nothing Else” e “Dream” (1/3 dos temas do álbum “Field Of Reeds”). Por outro lado, “Three Thousand”, “Attack Music”, “We Want War”, “Re-Want-War” e “Orion” foram as quatro/cinco repescagens de “Hidden”, o brilhante segundo disco dos These New Puritans.

Ausentes do concerto também todos os temas de “Beat Pyramid”. “Passado é passado”, considera a banda inglesa cujo passatempo preferido é inovar, disco após disco, nas colaborações de remisturas que propõe a terceiros ou na remistura da belíssima de “Mutual Core” para a islandesa Bjork, incluída na compilação “Bastards”.

O concerto no Hard Club, no Porto, foi o quarto da banda em Portugal, depois das atuações nos festivais Paredes de Coura e Alive, e na Casa da Música, no Porto. Quatro experiências distintas, uma evolução mais do que óbvia, dois álbuns – “Hidden” e “Field Of Reeds” – a figurarem em cobiçados lugares nas listas de melhores discos nos respetivos anos – ambos sem a inocência de “Beat Pyramid”, que ainda assim incluía alguns temas-bomba como “Elvis” e “En Papier”.

Podia ter corrido melhor? Podia. Mais um encore, talvez uma versão, um lado b ou um tema novo tivesse colocado a fasquia ainda mais alta. Elisa Rodrigues podia ter dito mais do que meia dúzia de palavras em português, algumas quase ‘tiradas a ferros’, e Jack Barnett também podia ter comunicado mais, na véspera da última noite da digressão europeia, no TMN ao Vivo, em Lisboa.

Tecnicamente lamenta-se alguma desatenção ao microfone do vocalista, que ao movimentar-se bastante e ao afastar-se periodicamente também não facilitava a função do técnico de som, prejudicado por um autêntico nevoeiro ‘sebastiano’ com o qual o técnico de luzes fazia questão de ‘inundar’ a sala – disfarçando, dizem as más línguas, a quantidade de público presente – a rondar as duas centenas de pessoas. Mereciam (muito) mais público. Mas Jack Barnett reconheceu, no final do concerto, que o bilhete devia ser mais em conta.

Hoje as maravilhas musicais dos These New Puritans têm continuação no TMN ao Vivo. A sala não é a melhor da capital – a escolha foi, aliás, amplamente criticada – mas um final de digressão de uma banda singular no pico da sua forma, merece que fechemos os olhos a algumas eventuais falhas técnicas. Só o saberemos daqui a uns anos, mas falhar este concerto é, provavelmente, o equivalente a deixar escapar Radiohead na apresentação de “OK Computer” no Paradise Garage, Bjork no Coliseu, Beck no Imperial ao Vivo ou Beastie Boys na Aula Magna.

A primeira parte do concerto, tal como no Porto, estará a cargo de Erica Buettner. A cantautora folk norte-americana, residente em Lisboa, pediu desculpa por não comunicar na língua de Camões, deixando a promessa de que um dia interpretará pelo menos um tema em português. O ‘fantasma’ de Aimee Mann marcou presença de forma constante, ainda que Erica com a sua boa voz aborde outros temas nas suas letras, e demonstre algum nervosismo, simplicidade e simpatia.

Alinhamento do concerto de These New Puritans no Hard Club (26.11.2013)
Spiral
Fragment Two
The Light In Your Name
Three Thousand
Attack Music
We Want War
Organ Eternal
Field Of Reeds
V [Island Song]

Re-Want-War
Orion

Tags: , ,


About the Author



Comments are closed.

Back to Top ↑