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Cinema e TV

Published on Dezembro 30th, 2013 | by Catarina Sanches

Crónica: “Temporário 12”

“Temporário 12” é muito mais do que um filme. É um intenso e emocional jogo de espelhos de (sobre)vivências.

O filme cria um território que reflete sobre um tema social já muito comum ao discurso cinematográfico mas onde a reflexão sobre estes elementos temáticos acontece de uma forma autêntica e genuinamente emocional. Um território muito próprio que não deixa espaço para que se desenrolem confrontos ou desequilíbrios entre as particularidades das existências de cada um de nós.

Num dia de um Sol radiante um grupo de colegas de trabalho conversa descontraidamente sobre as peripécias que pautam o dia-a-dia da muito peculiar humanidade que vive num centro de acolhimento para adolescentes problemáticos. Um diálogo que se vai pintando em tons de humor e com boa disposição, não deixando no entanto de orquestrar um certo ambiente de tensão para um novo elemento da equipa que vai entrar na instituição nesse mesmo dia. Para aprimorar este ambiente eis que de repente surge um jovem a correr envergando apenas um par de cuecas, uma bandeira dos Estados Unidos da América ao pescoço e um capacete na cabeça.

Os primeiros minutos do filme são isto. E, os restantes, também o serão: este é um filme que não vai seguir uma linha condutora estruturante. Irá antes conduzir-nos através de patamares de força que se irão alicerçando entre a crueldade das adversidades e a pureza dos sentimentos humanos, entre momentos de uma enorme intensidade dramática e outros mais ligeiros que despoletam uma reação de déjà vu face aos episódios do nosso próprio dia-a-dia.

A temática não é nova e “Temporário 12” podia bem ser apenas mais uma gota no já vasto panorama cinematográfico que explora o universo das crianças com problemas emocionais, os paradoxos da educação e o paralelismo entre o papel orientador dos pais e professores durante a adolescência. Mas desnecessário é mesmo um adjetivo que o filme de Daniel Creton não pode receber. O realizador propõe-nos um mergulho profundo neste tema e explora certos desconfortos emocionais com tal detalhe que o resultado é uma explosão de sentimentos demasiado difíceis e complexos para que lhe possamos atribuir uma definição fechada sobre si própria. Este é um drama real sobre lutas diárias e onde há uma clara recusa da aproximação ao tema ao superficial.

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Curioso é que este argumento nem foi escrito na sua génese para dar origem a uma longa. Teve início numa curta-metragem premiada em 2009 no Festival Sundance, a qual colocava frente-a-frente um grupo de jovens educadores com um grupo de jovens em risco. A personagem principal era Grace (Brie Larson), a principal supervisora do centro e na história agora recriada para a longa esta mantém-se como fio condutor da narrativa juntamente com os fantasmas do seu passado. Explora-se agora a um nível superior o seu espírito de compromisso face à sua missão de educadora e a acompanhá-la está o namorado Mason (John Gallagher Jr.) que, além do envolvimento afectivo, acompanha a protagonista também no dia-a-dia do centro enquanto colega de trabalho.

O ambiente em que a narrativa se traça é pautado por uma enorme naturalidade que deixa espaço para que entre as personagens e os espectadores se criem laços de identificação profundos e através dos quais vai ser possível observar, captar e interiorizar cada minuto da história principal sem distrações de elementos circunstanciais ou outras trivialidades. Ao centro surge a própria escola, uma instituição aparentemente neutra mas que ao mesmo tempo é demasiado real e onde o cultivo da imaginação se vê confrontado com a chegada de alguns fantasmas evidentemente não desejados. À luta diária pela preservação do sonho juntam-se estas coisas regressadas do passado e que no presente se tornarão palpáveis aquando a entrada de Jaydan (Kaitlyn Dever) em cena.

Ela é uma jovem adolescente com problemas familiares e a sua entrada no centro vem iniciar uma roda-viva de vivências e de histórias de adaptação ao presente e de sobrevivência ao passado através de uma atmosfera profundamente rica em elementos humanos. O encontro entre Grace e a jovem é de uma veracidade incrível e vale mesmo ressaltar as prestações incrivelmente expressivas das duas atrizes envolvidas. De facto, sem nos darmos conta, estamos a descobrir com um nível de profundidade supremo e através das palmas das nossas próprias mãos quantos vértices tem o universo onde habitam a incapacidade de adaptação ao mundo, os problemas sociais, a rejeição da realidade do presente e a complexidade emocional de algumas memórias do passado. Não fossem as prestações tão incrivelmente reais e genuínas e não sentiríamos tanto no corpo esta histórias.

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Mas nem só destas personagens vive o filme e esta história reflete também sobre as barreiras que existem entre o papel de educador e de educando, confrontando-nos com a constatação de que estas podem bem ser mais ténues do que aparentemente o são, muito embora este facto possa não ser um elemento desestabilizador mas antes harmonizador. A forma como acontece esta subversão do funcionamento do sistema só é possível devido à inteligência com que o filme está minuciosamente construído desde o ponto de vista da construção formal das personagens à câmara intimista do realizador que captura com precisão e através de close-ups penetrantes algumas expressões faciais e corporais que captam momentos chave da condição humana de cada uma delas.

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O dilema de nos devermos manter como elementos exteriores quando se trata da nossa própria realidade pode bem ser a realidade da pessoa que está sentada exatamente ao nosso lado na cadeira da sala de cinema e, neste prisma, o filme orienta-nos para uma espécie de lugar onde impera a esperança e a crença na humanidade. É preciso chegar ao fim do filme para sermos sugados para um novo lugar onde inevitavelmente nos lembramos que o mundo real é bem mais cru e desumano do que aquilo que nos conta “Temporário 12”. Um alarme toca e um rapaz de cuecas corre porta fora da instituição com um capacete na cabeça e a bandeira dos E.U.A. enrolada ao pescoço. Estes são os últimos minutos do filme. O alarme, esse, fica a ressoar-nos no peito durante mais alguns minutos. Ou talvez por mais do que isso.

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