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Cinema e TV

Published on Dezembro 16th, 2013 | by Catarina Sanches

Crónica: Não ver “A Vida de Adèle” é negar-se à realidade

Não entender este amor é permitir que as energias que emanam dos preconceitos e da pequenez do pensamento triunfem. Precisamos de mais ‘Adèles’ e precisamos que a energia genuína dos seus gestos ocupe mais ruas, mais casas, mais corpos e lugares cada vez mais íntimos. Esta que é uma energia vulcânica que nos explode nas mãos para nos lembrar de que material são feitos os nossos sonhos.

O realizador Abdellatif Kechiche ainda não detém uma obra particularmente extensa mas já o consideramos um mestre incontornável da arte da expansividade. Os seus filmes são sempre prolongados, quase extenuantes e têm uma incrível capacidade de nos fazer suster a respiração a cada nova sequência dramática. Tal como já nos havia brindado em “A Esquiva” (“L’ Esquive”, 2003) e sobretudo em “O Segredo de um Cuscuz” (“The Secret Of The Grain”, 2007) – filmes que se caraterizam por interpretações brilhantes e pelo uso de elementos estéticos pensados e trabalhados ao detalhe. O resultado é uma experiência cinematográfica que desafia todos os nossos limites enquanto meros espetadores e que nos transporta para uma realidade tão intensa quanto são os nossos sentimentos mais íntimos.

Na verdade, os filmes deste mestre podem bem ser considerados algo mais do que cinema e o vencedor da Palma de Ouro em Cannes “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” (“La Vie d’Adèle: Chapitres 1 et 2”, 2013) vem provar isso mesmo. Tanto em linguagem como em expressão artística nada lhe parece ter sido negado e talvez seja por isso que o amor de que nos fala a história é bem mais do que um amor vivido à flor da pele. É um amor intenso, um amor de pulsão e que se vive à flor da respiração. É um amor que é obra prima e que podemos afirmar com segurança que ficará para sempre impresso na antologia do cinema que tem a coragem de transgredir limites e desfazer preconceitos.

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“A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é um drama emocional, psicológico e acentuadamente intenso que nos é contado através da personagem principal Adèle (protagonizada por uma atriz com o mesmo nome: Adèle Exarchopoulos) que, na flor dos seus 15 anos, inicia uma (quase) violenta viagem em descoberta da sua sexualidade. As sequências iniciais dão-nos a conhecer uma Adèle que mais não é do que uma comum adolescente francesa, daquelas que correm todas as manhãs para apanhar o autocarro e que pouco ou nada querem saber das aulas. A intimidade da personagem é-nos descrita através de close-ups extremos que sublimam o castanho intenso dos seus olhos, o traço empinado do seu nariz ou o fio de cabelo que lhe divide o rosto em duas metades desiguais.

O ambiente em casa é simples e humilde e aqui o realizador sublinha o lado mais ardente da protagonista através da forma voraz com que esta trinca, lambe, come, devora cada refeição. Este excelente retrato inicial do desejo latente do seu sexo tem o seu primeiro traço palpável num fugaz romance com Thomas (Jeremie Laheurte), um encantador estudante da mesma escola, mas este encontro acabará por não ter muita importância na história. É antes o breve cruzar de olhares com uma misteriosa rapariga de cabelo azul que tem relevância e que vem dar forma às fantasias que borbulham no íntimo do corpo de Adèle.

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O cabelo azul elétrico pertence a Emma (Léa Seydoux), uma estudante de belas artes de personalidade tão vincada quanto o aspeto físico. Uma noite de passagem por um bar de lésbicas é quanto basta para que entre ambas floresça um amor de força vulcânica e, a partir daqui, nasça o romance que vai dar origem à longa e sinuosa narrativa do filme. Um romance cujo vínculo mais intenso é o sexual mas sem existir qualquer tipo de aproximação deste sexo às roupagens que tipicamente pautam as sessões de pornografia de mau gosto. Este sexo penetra-nos o olhar e a mente através de sequências exaustivas, de suspiros prolongados, de entrelaçares intensos, de posições desafiantes, de olhares provocadores e com muita carne exposta no grande ecrã. É uma ligação sexual de tal forma intensa que acaba por exceder os seus próprios limites e ocultar todas as restantes dimensões de uma relação entre dois humanos.

Nestas outras dimensões residem as diferenças que existem entre Adèle e Emma e para as explicar talvez seja suficiente dizer que, enquanto uma ambiciona ser professora infantil, a outra pretende ser pintora e subsistir através da sua arte. Ao longo do filme estas diferenças vão sendo exploradas através de múltiplas variações e desenvolvimentos que oscilam entre a vida social e a familiar e que culminarão nas sequências que relatam o início da vida de ambas a viver sob o mesmo teto. Aqui assistimos ao triunfo das inequívocas diferenças sociais que existem entre elas e a temperatura emocional que até então pautava o filme dá lugar a uma realidade mais cruel e que não fala o mesmo dialeto do sexo.

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Sobre o sexo, este é de facto explícito e é também surpreendentemente fresco por ter a ousadia de romper com as típicas cenas lésbicas do cinema francês que retratam este amor através de um olhar voyeurístico e com um quê de mística. O sexo de Kechiche não é nada disso. É antes uma obra de arte que se desenha através de dois corpos vivos que não são encarados como objetos ao serviço do prazer do observador, mas antes como ferramentas que servem para evocar uma paixão física de uma imensurável intensidade emocional.

Mais dizemos: considerando que o sexo é uma atividade que todos praticamos (e sobre a qual pensamos ainda mais) não nos parece que seja intrusivo ou que existam motivos para recear estar frente-a-frente com este filme. Preocupante é antes o facto de o sexo não ser representado mais vezes através de produções desta qualidade e o receio deve ser dirigido aos filmes nos quais os protagonistas não têm relações sexuais e acordam todos os dias com cabelos miraculosamente penteados.

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Este é, sem dúvida, um filme absolutamente imperdível através do qual o realizador consegue fitar-nos olhos nos olhos – homossexuais, heterossexuais, bissexuais, transexuais, assexuados, pessoas, seres humanos – e falar-nos sobre todas as dimensões a que o amor tem direito: da paixão ao sexo, dos desafios à luta, ao erro da desilusão, aos pedidos de compaixão. Mantendo sempre o foco na questão do género e da identidade sexual o realizador conta-nos parte da história de todos nós que, de uma forma ou de outra, sabemos bem ao que soa o amor quando o fracasso bate à porta e deixa cair sobre terra todos os nossos sonhos e expetativas.

Neste filme o que nos é proposto é que abandonemos os lugares comuns que se exploram dentro das quatro paredes dos filmes mainstream e que caminhemos sem preconceitos rumo à autenticidade das relações humanas. Ver este filme é aceitar conhecer a vida a olho nu. E sim, o sexo também. Porque é assim que ele acontece. A nu.

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