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Música

Published on Dezembro 8th, 2013 | by Paulo Pereira

Reportagem: Young Gods em Lisboa (06/12/2013)

A 6 de dezembro a sala TMN ao Vivo assistiu ao enésimo regresso dos suíços Young Gods a um dos, segundo o vocalista e líder Franz Treichler, três países onde foram melhor recebidos ao longo de mais dum quarto de século de carreira – sendo os outros dois a sua Suíça natal e Inglaterra.

Mas o motivo deste regresso deixou um sabor agridoce… novamente de acordo com Treichler, a presente digressão serviu não só para celebrar os 25 anos do lançamento do auto-intitulado álbum de estreia e o regresso de Cesare Pizzi, depois de duas décadas afastado da música, ao “seu” lugar de “maquinista” original da banda (substituindo Al Comet) mas também para (e passo a citar) “dizer obrigado e – talvez – adeus”.

Este “power-trio” do rock (?) industrial (completo com o baterista Bernard Trontin) veio apresentar um alinhamento baseado exclusivamente nos dois primeiros álbuns, o já referido “The Young Gods” e “L’Eau Rouge”, álbuns que precederam o “hype” vivido pela banda na primeira metade dos anos 90 – altura em que abdicaram parcialmente do francês em detrimento do inglês. E não se pode falar em “one-hit wonders” porque a História registará pelo menos “Gasoline Man”, “TV Sky”, “Skinflowers”, “Kissing The Sun” ou a belíssima “She Rains”…

Perante uma plateia (bem) composta pelo que parecia ser um grupo de fãs acérrimos (duvido que algum dos presentes estivesse a assistir a um concerto de Young Gods pela primeira vez), a banda deu início às hostilidades com “C.S.C.L.D.F” (“Comme Si C’Était La Dernière Fois”, “Como Se Fosse A Última Vez”…). De início apenas com Pizzi aos comandos e Treichler a dar voz a uma melancolia lúgubre e maquinal com o toque de dissonância a vir da forma como desconstrói a seu bel-prazer a métrica aparentemente linear do refrão, repetindo-o não até à exaustão mas até ter o público na mão. Sim, porque quando Trontin se juntou a ambos, para interpretar a mais marcial “Jusqu’au Bout”, a 2ª duma sequência de 8 canções de “The Young Gods”, o público já era uno com a banda. Há tradições que são para manter – e esta dura desde 1990…

“Fais La Mouette” leva-nos para outro momento alto da noite. Treichler grasna como a gaivota que dá nome à canção, ajudando a criar um ambiente de fantasmagoria onírica (o jogo de luzes a isto não será alheio) que leva o público a um estado de encantamento. Por momentos a voz de Treichler remete-nos para a de um Adolfo Luxúria Canibal e quando se silencia para dar espaço ao momento instrumental, apropriadamente, acompanha o som com os seus tão caraterísticos movimentos a meio caminho entre o bailarino e o xamã em transe. “The Irrtmum Boys” traz-nos o inglês pela primeira vez na noite nesta canção construída em redor dum riff de guitarra e que, a par com a seguinte “Jimmy” (provavelmente a mais “orelhuda” das canções do disco de estreia), é das tais que fez com que os Young Gods tenham sido em tempos conhecidos como “a banda rock que não tem guitarras (visíveis…)”.

Por esta altura já Franz Treichler, no seu português acima da média e com suave sotaque brasileiro, tinha encetado comunicação com o público, qual mestre de cerimónias. Sem cerimónia foi o momento que se seguiu: “A Ciel Ouvert” é uma música verdadeiramente inquietante – e é o melhor elogio que lhe posso fazer. E por falar em elogios, que melhor elogio se pode fazer a uma (outra) música senão este: não sentimos nela a falta da participação do melhor vocalista do Mundo. A que me refiro? À épico-festiva “Did You Miss Me?”, com os seus harmoniosos arranjos de cordas samplados, que já foi interpretada (com a banda) por nada mais nada menos que Mike Patton. E não é que hoje foi a primeira vez que me apercebi que os noruegueses Turbonegro citaram (tocando) este refrão (“Hello, it’s good to be back”) colado ao seu clássico “Age Of Pamparius” aquando da sua tournée de reunião? De facto, não há coincidências… De seguida, “Percussionne” e o seu som industrial opressivo marcou a transição para “L’Eau Rouge”, o segundo álbum.

“Crier Les Chiens”, de poderoso riff (novamente, as “guitarras invisíveis”) e refrão memorável, antecedeu uma algo inócua “Pas Mal” (“Mais Ou Menos” é aqui nome E apreciação da canção em questão). Já o encadeamento entre “L’Eau Rouge” (hipnotizante no seu ritmo circular e apontamentos de cordas) e ”L’Amourir” (com a sua batida electrónica que desemboca em final “noise”) dificilmente poderia ter sido melhor escolhido.

O concerto aproximava-se do fim. “Si Tu Gardes”, última canção do alinhamento, voltou a levar-nos a “The Young Gods”, peça melancólica com ritmo semi-militar e apontamentos quase alienígenas que nos deixaram num pacato transe sensório… que viria a ser desfeito pelo encore. Antes, porém, Treichler fez questão de explicar a razão de ser do concerto (ver parágrafo inicial da crónica), após o que se lançou (lançaram) a dois momentos altos, não só do álbum de estreia, mas de toda a carreira: primeiro um minimal (e animal) “Feu” e depois com aquela que apostaria ter de ser a última canção do encore – “Envoyé”, o mais perto que os Young Gods alguma vez estiveram do punk ou o “momento Ministry” da banda. Com uma energia e velocidade impressionantes a música foi interpretada “da maneira tradicional” até que, sensivelmente a meio, Pizzi incorporou um momento de electrónica que os melhores Underworld não desdenhariam antes de regressar ao ritmo original e vir a acabar em peso absoluto.

Só que ainda não era o fim. Inesperadamente houve um 2.º encore no qual se interpretou, de “L’Eau Rouge”, a viagem tétrica que é “La Fille de La Mort” que, ao longo dos seus quase 10 minutos, começa por nos enlevar ao ritmo duma valsa feliz para, após momentos de confusão (naturalmente propositada), evoluir para um pesadelo que nos deixa como que prostrados no chão.

Agora sim, tinha acabado. Não só este como talvez a história dos concertos de Young Gods por cá. Acabando como comecei, citando Franz Treichler: “A razão para o sucesso dos Young Gods em Portugal deve-se ao facto de se tratar de música com o tipo de conteúdo e energia que correspondem à alma do povo português”.
“Chapeau”, meu caro Franz, “chapeau”! E “adieu” ou melhor (porque a esperança é a última a morrer): “à tout a l’heure”!

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