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Crónicas

Published on Dezembro 2nd, 2013 | by Filipa Marta

Mexefest: Uma viagem musical por salas quentinhas da Avenida

Um claro vencedor de seu nome Woodkid (fala-se mesmo em concerto do ano), a excelente representação portuguesa (Márcia, Sequin, Moullinex e Da Chic) e as boas prestações das Savages e dos Tropics constituem um cenário de cobertura possível de dois dias intensos de Vodafone Mexefest que, com as suas falhas, continua a ser o mais importante festival nacional do outono/inverno na descoberta e confirmação de novos talentos. Uma viagem de Filipa Marta (texto) e Rute Gonçalves (fotos).

A noite de sexta-feira finalmente veio e com ela trouxe o festival de ‘inverno’ mais aguardado por Lisboa. Pelas 20:00 apareci no cinema S. Jorge para colocar a pulseira no pulso e fiquei petrificada com tamanha multidão, posta em filas intermináveis para fazerem o mesmo que eu. Já todos tinham bilhete mas atrevo-me a dizer que muitas pessoas esperaram pelo menos uma hora para conseguirem a dita pulseira, e com isto, acabaram por perder alguns concertos. Podia ter sido a chamada ‘hora de ponta’ mas não, esta situação manteve-se até por volta das 23:00, o que é inadmissível por parte da organização de um festival que já acontece há alguns anos (antes Super Bock em Stock, hoje Vodafone Mexefest).

Fui ver Juba. Bom som, voz baixa, dinâmica interessante entre os quatro rapazes em palco e ganharam pontos ao distribuírem o seu disco aos presentes, gratuitamente. Entre um café na varanda do S. Jorge e dois dedos de conversa com amigos, entrei numa sala esgotada para ver Márcia. O tema “Cabra-Cega” pôs um senhor noutro comprimento de onda, que sem vergonhas nem etiquetas, se foi colocar em frente à vocalista, na plateia, em pé e a dançar que nem um desalmado, virando-se para o público, incentivando os demais a imitarem-no. Foi um momento muito engraçado, com Márcia a entrar também na brincadeira, embora não tenha sido o suficiente para meter as pessoas de pé, como pediu a vocalista.

Houve uma declaração de namorados que Márcia pronunciou ao microfone e juntamente com o seu convidado Samuel Úria interpretaram a canção «Eu Seguro». Neste tema também houve um momento peculiar no qual o próprio Samuel se enganou na letra. Márcia, que tem sido uma presença quase constante neste festival, tem crescido como artista e isso foi comprovado pela entrega do público num concerto cinco estrelas.

Depois de vestir mil casacos atravessei a avenida e fui assistir ao concerto intimista de Sequin na loja Delta Q. Ana Miró nas teclas encantou os presentes com a sua atuação, e que boa surpresa foi. Um set dançável, eletrónico e bem-disposto. Sem dúvida a manter debaixo de olho.

Este ano o Vodafone Mexefest acrescentou mais salas ao seu roteiro e o Coliseu de Lisboa foi uma delas. Entrei para ver Savages a ‘partirem a loiça toda’ – descrevo-as como uma espécie de ‘Anna Calvi’ punk -, pelas propriedades vocais de Jehnny Beth. Já as tinha visto em Barcelona no Primavera Sound e posso dizer que no Coliseu foram melhores, com uma presença poderosa, com a cor preta a predominar no cenário, delineado por um som estridente, esquizofrénico e sexy. O jogo de luz e fumos foi muito bem conseguido e deixou o público literalmente vidrado naquelas quatro raparigas a dominarem brilhantemente os seus instrumentos na interpretação dos temas de “Silence Yourself”.

No alinhamento da noite queria ver John Grant, mas o receio de perder Woodkid foi maior e optei por me manter no interior do Coliseu à espera. Como ‘gato escaldado da água fria tem medo’, em relação ao que me aconteceu na edição do ano passado, onde não consegui entrar para ver Django Django nem Alt-J, mesmo sendo num espaço com mais capacidade, não arrisquei.

Sala cheia para Woodkid, um rapaz de barba, tatuado, baixinho e de ‘cap’ na cabeça, que trouxe no bolso uma banda sonora de arromba, só ficou mesmo a faltar uma orquestra real. Não podemos descurar o ‘background’ de Woodkid aka Yoann Lemoine como diretor de vídeos músicais, designer gráfico e músico para perceber a grandiosidade do que aconteceu na noite de sexta-feira no Coliseu de Lisboa. Tudo foi pormenorizadamente pensado neste espetáculo que além de sonoro era, sobretudo, visual.

A distribuição dos músicos em palco, teclados, trompetes, bombos, as poses estudadas de Yoann, vídeos sincronizados e feitos para criar o efeito de estarmos num filme e mais uma vez o jogo de luzes e fumos estavam espetaculares. Foi, sem a mínima dúvida, o melhor concerto do festival e, atrevo-me a dizer, do ano. Um espetáculo onde as sensações entram em delírio, de tal forma que me deixou sem palavras. Nunca tinha presenciado nada assim. Woodkid interpretou os seus temas mais calmos e auto-biográficos, que poderiam ser chatos se não fosse todo o ‘arranjo’ envolvente, que conseguiu captar ainda mais a atenção do público presente.

Ouviu-se um coro de vozes em “Iron” ou “I Love You” e houve direito a encore com “Run Boy Run”. Yoann estava estupefacto pela tamanha entrega do público português, que não o queria deixar ir embora do palco. Foi um concerto mágico que só quem esteve presente é que sabe realmente o que aconteceu, e terminou com o teaser para “The Golden Age”, o próximo vídeo de Woodkid.
Como Woodkid tocou durante mais tempo, quando saí para ir ao Ateneu ver RAC, o concerto já estava a terminar e não o consegui ver.

No sábado fui direta ao Coliseu de Lisboa para o concerto de Daughter. Já os tinha visto este ano no Primavera Sound, em Barcelona, e, sinceramente, não foi nada de outro mundo. Uma rapariga tímida e fofinha, Elena Tonra, com músicas que apelam ao sentimento, tudo muito rígido e sem grande improvisação e sem aquele wooooh que estaria à espera.

Difícil foi escolher qual concerto ver a seguir quando havia cinco ao mesmo tempo aos quais queria assistir: Erlend Oye, Braids, Tropics, Silva e Mr. Mitsuhirato. Tropics foi o eleito e corri a Avenida em direção ao Hotel Florida onde a banda iria atuar. Cheguei mesmo em cima do início do concerto e deparei-me com três rapazes fechados em si e nos seus instrumentos, sem interagirem com a plateia, apesar de interpretarem maravilhosamente os temas. “Pop Up Cinema” foi o mote da noite com direito a coro.

Rumo a Oh Land, na estação ferroviária do Rossio, que estava, para desconsolo meu, esgotadíssimo. Como era no espaço em questão, dei a volta pelo exterior e consegui assistir através do Largo do Duque de Cadaval com vista lateral para o palco. Já depois de terem tocado três canções tentei ‘furar’, juntamente com amigos, a saída oficial reservada para o concerto de modo a entrarmos no espaço do festival e a assistirmos ao concerto de uma melhor maneira.

Os seguranças inicialmente não o permitiram até uma onda de pessoas (que tinham pulseira) revoltadas com a situação, forçarem a entrada. E, realmente, havia muito espaço no recinto que estupidamente não estava a ser ocupado. Em relação às condições da banda achei o som muito mau, distorcido, e a interação e performance fracas, e para quem a viu (como eu) em 2011, no mesmo festival mas na sala do cinema S. Jorge, lembra-se que foi um dos melhores desse festival. Neste, não sei se foi pelo espaço, mas Nanna Øland Fabricius não conseguiu ‘agarrar’ o público e mostrar o melhor que sabe fazer.

Sem ficar até ao fim do concerto de Oh Land, as minhas perninhas levaram-me ao ‘picnic’ da Discotexas com os seus ananases, no Coliseu, com Da Chick em ação para uma sala meio cheia. Consegui derreter-me a dançar “Cocktail” e “Lotta Love”, com uma prestação animada da vocalista Teresa Freitas de Sousa e dos seus rapazes em palco. É caraterístico Da Chick gritar ao microfone com um estilo ‘meio’ MC, que lhe dá uma certa piada e a diferencia como artista.

É este o seu espetáculo e dentro disso, gostei pela animação que lhe deu e pelo ‘girl power’. Logo depois veio Moullinex em formato trio ‘super fashion’, de fatos vestidos e instrumentos em riste. Foi uma boa surpresa ver Moullinex sem ser em formato dj set, a porem um Coliseu inteiro a dançar e a tocarem maravilhosamente bem e de forma suada cada tema. A parte final deste ‘picnic’ ficou nas mãos de Xinobi dj set, com a eletrónica a tomar conta da mesa de mistura. Pessoalmente, achei um set um pouco chato que não conseguiu manter o público a dançar e no interior do Coliseu.

Fazendo um balanço, um aspeto positivo desta edição é o aumento das salas e o facto de terem incluído o Coliseu no roteiro para aquele tipo de bandas que são transversais ao público do Mexefest mantendo, por outro lado, os concertos intimistas. A parte negativa foi, sem dúvida, a fila gigante para a troca de pulseiras, o começo tardio dos concertos (início a partir das 20:00) e a sobreposição dos mesmos. O cartaz também não era nada do outro mundo, com primazia a bandas portuguesas de início de carreira. Também não vi o chocolate quente nem as castanhas que no ano passado inundaram a Avenida da Liberdade com a marca Vodafone. Até para o ano!

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