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Entrevistas

Published on Fevereiro 3rd, 2014 | by Alexandra Silva

Grande entrevista: Hugo Ferreira da Omnichord Records

Alexandra Silva falou com Hugo Ferreira, um dos timoneiros da editora, que desde os comandos da Rádio Universidade de Coimbra nunca deixou a música.

A Omnichord Records é uma editora discográfica independente que surgiu em Leiria no ano de 2012. Representa vários músicos – Nice Weather For Ducks, First Breath After Coma, André Barros, Horse Head Cutters, La Inesperada Sol Dual, Les Crazy Coconuts, Team Maria, The Allstar Project – e pauta o seu trabalho pela dedicação aos sons mais alternativos que nas margens do Lis têm surgido nos últimos tempos.

Como surgiu a ideia de criar uma editora de independente?
A ideia de criar a Omnichord surgiu um bocado da constatação de que, assim de repente, em Leiria, estava a aparecer um movimento repleto de boas ideias e de boas iniciativas que, por sua vez, gerou e está a gerar belíssimas experiências musicais. A cidade que muitas vezes é mal-amada ou pura e simplesmente ignorada pelo resto do país e que não consegue minimamente fazer lobby e ganhar alguma preponderância tem características extremamente peculiares. É um dos maiores centros produtivos do país, com milhares de empresas (muitas exportadoras), com a mais baixa taxa de desemprego do país e com uma vida cultural desenvolvida sobretudo através de associações sem fins lucrativos. Leiria é, sobretudo, uma cidade e uma região onde as pessoas se juntam e fazem acontecer. Sem subsídios e sem conseguirem chegar ao resto do país mas continuam a fazer.

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A localização da vossa editora no centro do país é um fator adverso ao vosso trabalho ou por outro lado até podem precisamente beneficiar dessa centralidade?
É complicado chegares a Lisboa e quando dizes que és de Leiria toda a gente faz aquela expressão “Ah, lá de cima…”. Aqui entre nós ao fim da tarde desde Lisboa é mais rápido chegar a Leiria do que a Sintra ou a Setúbal e podem escolher entre duas autoestradas. Estamos a uma hora e pouco de distância e para a grande maioria das pessoas estamos longe. Isto não se passa só em relação a Leiria, Coimbra se não tivesse o Hospital e a Universidade tinha o mesmo problema (como Aveiro tem). Nunca olhámos para o nosso país como um todo e limitamo-nos a falar, a consumir e a aplaudir o que é feito em Lisboa e no Porto. Com esta bipolarização perdemos alguns dos melhores projetos que por cá se fizeram e que foram votados ao abandono e ao esquecimento, olhe-se para o Festival Imago, por exemplo. É preciso redefinir e reatualizar o mapa e, se com a Lovers & Lollipops e o Milhões, Barcelos entrou no mapa, acho que outras cidades têm que tomar o exemplo e mostrar ao país que elas também respiram e respiram melhor. Respondendo à questão, podemos beneficiar da centralidade se formos vistos como um possível centro e não como um apeadeiro onde há uns restaurantes porreiros e se faz uma escapadinha porreira da autoestrada. O nosso trabalho é tentar mostrar o que cá se faz, acreditamos que qualquer um dos nossos projetos tem condições para pisar qualquer palco porque só editamos música que gostávamos de comprar, de ver ao vivo e de oferecer aos amigos.

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Ainda assim tem muita coisa a acontecer.
Tens vários exemplos de atividades únicas no mundo como o Entremuralhas – um festival multidisciplinar no Castelo com três palcos cheio de belíssimas propostas musicais e com um público 70% internacional, o Há música na Cidade em que desde o rancho ao rapper todos tocam para a cidade numa tarde em que há mais de vinte palcos e dezenas e dezenas de concertos gratuitos. A revista online Preguiça Magazine. Foi por cá que nasceram os chamados “Concertos para bebés” e é por cá que tu ainda consegues ter pelo menos uma noite por semana em que danças numa pista cheia ao som de temas alternativos que vão do pós-punk ao indie, do electro ao industrial. Desde há mais de dez anos há concertos únicos feitos pela Fade In assim como projetos com escolas e a geração de espectadores tem crescido e tem feito música. Estes são alguns dos fatores que levam a que, depois de fenómenos como os Silence 4 ou da belíssima carreira de Sean Riley & The Slowriders haja uma nova vaga que urge dar a conhecer.

Que papel pode ocupar uma editora como a Omnichord?
Em Leiria já existe há muito uma editora, a Rastilho, que tem um trabalho exemplar e de referência a nível nacional. Nós tentámos colmatar a lacuna para promover o que se vai fazendo localmente, gravando (temos o estúdio do João Santos dos The Allstar Project, onde se fazem maravilhas) e representando para concertos, numa lógica de voluntariado onde não ganhamos nada (e investimos bastante) porque acreditamos que há aqui um movimento interessantíssimo que precisa de ser ouvido.

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De onde surgiu a ideia para o nome?
O nome Omnichord surgiu do fascínio pelo instrumento da Suzuki que se chama precisamente Omnichord e que foi concebido para ser tocado mesmo por quem não tenha noções de notas e de pautas e que é usado pelos Nice Weather For Ducks (podeis ver e ler cenas em http://en.wikipedia.org/wiki/Omnichord). Tem belíssimos sons e acaba por ser um elogio ao “do it yourself” e à paixão pela música com que a maioria das bandas tem que contar hoje em dia.

Regra geral são vocês os “olheiros” ou as bandas procuram-vos?
Pode funcionar das duas formas mas confesso que centralizar a atividade de gestão e promoção de edições e de concertos e agenda de todos estes projetos num rapaz com muito boa vontade mas que tem um emprego que lhe ocupa mais de 10 horas por dia e família não é fácil e cada vez sobra menos tempo para ouvir (e responder) às propostas que chegam. Também é cada vez mais difícil sair para ver concertos todas as semanas por isso vamos estando atentos ao que se vai fazendo e procurando sempre ver as bandas ao vivo. Acreditamos na lógica de que, para além de boa música, a banda tem que ser muito boa ao vivo e é por isso que muitos dos nossos discos foram e serão gravados num fim de semana, com três takes ao vivo do mesmo tema e o melhor fica. Depois é só vozes e uma ou outra coisinha e está pronto para ir ao forno.

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Para onde achas que está a evoluir o mercado musical?
O mercado está a definhar e a desaparecer e com a ressalva de uma dúzia de nomes mais ninguém consegue viver da música. Para começar, gostava que se encarassem as coisas feitas em Portugal da mesma forma que se encara o que aparece de fora. Ou se é um nome consagrado e se pode fazer o que se quiser ou para uma banda em crescimento é muito difícil dar passos e ser apoiada no mercado nacional. Sempre que alguém lança um disco cá há muito aquela tendência do “É parecido com isto, lembra-me aquilo, de original não tem nada…” Um exemplo curioso, “Os Nice Weather For Ducks foram buscar o nome a Lemon Jelly” ou “First Breath After Coma é um nome de uma música dos Explosions In The Sky” são epítetos recorrentes para se começar a falar das bandas. É curioso mas não me lembro, assim de repente, de apresentarem uma banda de fora a mencionar esse facto. Assim de repente, Suede, que vem de Morrissey, Blonde Redhead, que vem dos DNA, Radiohead que vem dos Talking Heads, Ladytron que vem dos Roxy Music, Kooks que vem do Bowie, Madness que vem do Prince Buster, Sisters of Mercy que vem do Cohen ou Dead Cab For Cutie, que vinha duns Bonzo Dog…

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O que seria necessário fazer para alterar essa tendência?
Era importante tentar olhar para a nova música que se faz em Portugal (e que está muitos furos acima de outros países) e tentar acarinhá-la um pouco mais (da parte da imprensa e das salas e promotores) e tentar comprar os discos e ir aos concertos.

Que balanço fazes destes dois anos de atividade?
Estes anos foram muito interessantes e estamos sempre a aprender muito. Foi importante sair várias vezes para Espanha e ter reações de fora para entender que afinal o que fazemos é relativamente ou muito bem feito e que temos que continuar a tentar marcar a nossa posição.

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Estás sempre à espera de encontrar a ‘next big thing’?
Não acho que haja next big things e nunca entendi esse conceito. Há big things. Esse next é um epíteto que vai fabricar ou potenciar um hype e que é da exclusiva responsabilidade dos especialistas em especialidades. Uma coisa ou é boa ou nem por isso e normalmente não é por uma banda lançar um disco mais ou menos que depois vai lançar um bom. É como ires a restaurante e teres um prato com muito bom aspeto e muito bom sabor. Isso é a “big thing”. Se estiver ligeiramente salgado quer dizer que pode ser a “next big thing”? Nós só lançamos discos que nos deixam apaixonados e que achamos que a generalidade das pessoas devia ouvir e podia gostar, por isso todos os lançamentos, de um ou outro género, para nós são grandes.

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De momento só representam bandas da zona? Gostariam de se estender para outros projetos e até para o estrangeiro?
Já houve várias propostas e algumas bem interessantes de nomes já com alguma dimensão e que a nível de imprensa e de impacto poderiam ter uma mais-valia mas, ao mesmo tempo, iam desvirtuar um pouco o conceito de montra de um determinado movimento, onde todos se conhecem e passam a ser como família. Tenho é muita pena que não se possam lançar dez ou doze discos por ano porque há material para isso. Talvez se alargue um pouco com os anos mas para já não pensamos nisso e o que gostaríamos era que cada região tivesse as suas editoras e que depois conseguíssemos trabalhar juntos para mudar a bipolarização da geografia musical portuguesa. Há, no entanto, uma exceção no catálogo de representações da Omnichord, que são os espanhóis La Inesperada Sol Dual, por uma simples razão: sempre que podem estão em Leiria, já cá tocaram várias vezes e sempre com imenso sucesso, vêm cá passar férias, fins de semana, aos eventos culturais… Adotaram esta cidade como sua. Para nós, passaram a ser locais.

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A Omnichord Records editou recentemente disco de André Barros que estagiou nos estúdios dos Sigur Rós. Que portas se podem abrir para estes músicos portugueses que representas?
Curiosamente e em relação a alguns discos há melhores reações do estrangeiro que de Portugal, no festival Monkey Week os Nice Weather For Ducks e os First Breath After Coma foram consideradas na lista das melhores surpresas das últimas edições e os Les Crazy Coconuts foram distinguidos pela organização como o projeto musical mais original que viram em anos. Até hoje a rádio que mais passou Nice Weather For Ducks foi provavelmente a RNE3 espanhola, que os descreveu como “Animal Collective, mas com canções” e passou todos os dias, semanas a fio, vários temas do disco. Quem mais linhas lhes deu foi a francesa “Les Inrocks” que os destaca como banda a seguir e lhes dedicou meia página. Mas isto são interessantes mas pequenas incursões que senão forem sedimentadas num apoio português se tornam muito difíceis de produzir efeitos. Tens imensos exemplos de bandas que continuam numa “segunda divisão” e que deviam ser muito maiores e que resultam em qualquer parte do mundo, independentemente de cantarem numa ou noutra língua e de serem ou não instrumentais, assim de repente atrevo-me a dizer meia dúzia como A Jigsaw, Sensible Soccers, Osso Vaidoso, Ermo, Beatbombers e Throes+The Shine. A música portuguesa está cheia de valores incríveis e Leiria está pujante com o pós rock dos míticos The Allstar Project, o rock musculado dos Born A Lion (que vão lançar em março) e dos Horse Head Cutters, a indie dos Nice Weather For Ducks, dos First Breath After Coma e dos Les Crazy Coconuts, a folk surpreendente dos Bússola e o génio de composição do André Barros. E para além destes há muitos nomes a descobrir e outros tantos a crescer.

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