Festmag

Cinema e TV

Published on Fevereiro 5th, 2014 | by Catarina Sanches

“Ninfomaníaca”: Pode o sexo ser a fonte da vida?

De uma forma ou de outra, já todos nos sentimos algo incomodados por Lars von Trier. Seja pela inquietação que sempre provocam as suas obras ou pelas polémicas que teimam em seguir-lhe os passos, em muito motivadas por declarações pouco consensuais que o próprio cineasta assina sob o olhar incrédulo do mundo. Mas certo é que nada disto nos faz subestimar o poder de fogo dos seus filmes que nunca deixam nada a dever à provocação. Autor de alguns dos filmes mais instigantes que já pisaram a passadeira vermelha da sétima arte, as suas obras são sempre dotadas de uma impressão gráfica estonteante, quase angustiante, como é exemplo o filme “Anticristo” (“Antichrist”), ou a beleza surpreendente de “Melancolia” (“Melancholia”).

A última proposta, porém, veio adicionar uma dose extra de inquietação: Lars von Trier anunciou que iria fazer um filme sobre as experiências de um ser humano viciado em sexo. E como se não bastasse este quelque chose extra de perversão, o facto de este ser humano ser do sexo feminino fez com que esta história entrasse imediatamente em rota de colisão com aquela que é a cultura dominante – ainda que machista e claramente antiquada – que insiste em não encarar a mulher como um ser tão sexual como o homem. E foi assim que o anúncio deste “Ninfomaníaca” (“Nymphomaniac”) tão depressa quanto chegou, excitou e inquietou todos quantos dele ouvimos falar.

O filme desdobra-se em duas partes e o objetivo inicial era que este se estendesse ininterruptamente durante 5h30. No entanto, para que fosse admitida a sua entrada em território comercial sem censura à mistura, a super-longa foi cortada, pré-censurada e dividida em dois volumes de 2h. Ambos estão já nas salas de cinema portuguesas e posso desde já adiantar aos mais puritanos que não há motivos para constrangimentos. Não que o sexo não seja explícito, mas as cenas são incrivelmente curtas e as suas aspirações eróticas não vão muito mais além que uma ida ao ginecologista, para além de que esta abordagem não é propriamente algo novo para quem já está habituado à cinematografia ‘Lars-von-Triana’.

Na verdade, este não é bem um filme sobre sexo, mas antes um ensaio sobre a sexualidade. Este é um filme arrogante, que se debruça sobre a descoberta feminina através de um realismo nonsense, e que se constrói a diversos níveis de complexidade temática, não fazendo tenções de ser um filme simples ou de fácil acesso. A psicanálise, desde sempre muito presente em quase todo o cinema com a assinatura de Trier, volta a estrelar, atacando-nos com tantas referências cruzadas que nos empurra para um lugar onde o sexo que se faz a nu não é mais que uma personagem muito secundária.

Sobre a história, esta inicia-se quando quando Seligman (Stellan Skarsgård) encontra a ninfomaníaca Joe (protagonizada por Charlotte Gainsbourg, na idade adulta, e por Stacy Martin, na juventude) estendida no chão, ensanguentada e em muito mau estado. Após ver falhada a sua tentativa de a convencer a ir ao hospital, rejeita a hipótese de a deixar ao frio e resolve acolhê-la em sua casa. Já no interior, ambos iniciam um diálogo em tom confessional e a partir daqui o filme assume uma estrutura em tudo semelhante ao espírito de investigação, como que se estivéssemos perante uma sessão de terapia e psicanálise bem ao gosto Freudiano. Num ritmo lento e introspectivo, Joe inicia um relato dos desejos, fantasias e pulsões sexuais que pautaram a sua vida até então, através do qual assistimos a um conjunto de sublimações que entram em constante conflito, como se Joe estivesse na verdade a expurgar os seus pecados. Como se Joe fosse um espécie de Madalena arrependida.

Imagem 1

Em termos de estrutura da narrativa, em “Ninfomaníaca” é talvez mais convencional do que a utilizada noutros filmes, embora Trier continue a dividir a história por capítulos. São 8 no total, nos quais as passagens da vida de Joe são introduzidas através de ganchos que a protagonista vai ancorando a objetos decorativos ou outros elementos cénicos. Estes 8 capítulos vão-nos levar através de uma viagem que vai desmembrar todos os episódios e detalhes mais sórdidos da vida desta ninfomaníaca, naquela que é uma existência amarrada à incessante busca pelo máximo que a vida pode proporcionar, pelo máximo da luxúria, pelo máximo do sexo. Joe assume compreender o poder que encerra a sexualidade e a vagina de uma mulher e assume inteira responsabilidade pelo facto de os homens não serem mais do que meras peças de entretenimento. Até mesmo Jerôme (interpretado por Shia LaBeouf), que parecia reunir as condições necessárias a ser mais do que a resposta para a satisfação imediata de Joe, acaba reduzido ao jogo de perversão sexual, caça e conquista, êxtase e (in)satisfação.

A conversa oscila entre patamares prosaicos e imaginários, científicos e filosóficos, prendendo-nos em absoluto à força das palavras já que, de resto, a protagonista está confinada a uma pequena cama. Para compensar esta ausência de movimento no momento presente, o realizador utiliza flashbacks explicativos (até demais) do passado da vida de Joe, bem como vídeos, imagens e até gráficos escolares. Já no ouvinte conseguimos detetar um olhar algo voyeurista sem nunca lhe percebermos qualquer julgamento moral, numa penalização ausente que não esperaríamos de alguém que se rege por uma doutrina judaica. Mas Selligman assume antes um papel e um discurso de psicólogo e vai tentando encontrar fios lógicos entre os acontecimentos, apelando a referências tão díspares como o são a música de Bach e “A queda da casa de Usher” de Poe, bem como outras trivialidades e atividades do quotidiano como a pesca ou o acto de cortar as unhas. Ao espectador é proposto que assuma igualmente esta perspetiva de contemplação e que em poucos minutos aprenda a lidar com uma promiscuidade que se vai conjugando harmoniosamente com o campo da lógica dos números, a arte dos sons e o conhecimento proveniente da literatura.

Imagem 2

Os capítulos funcionam de uma forma praticamente independente uns dos outros e o tom com que se desenrola a narrativa é também muito diferenciado. Enquanto que em algumas passagens somos abordados com um tom sério e factual, outros transportam-nos para lugares sombrios e complexos e há ainda espaço para umas pinceladas de humor, das quais merece destaque o episódio em que Uma Thurman personifica uma mulher perturbada pela traição do marido que leva os filhos a conhecer o quarto de Joe, que lhes é apresentado como ‘o local preferido do vosso pai’. De um tom muito diferente é também o segundo volume do filme. O primeiro termina numa espécie de coito interrompido, com a sugestão de uma segunda parte desconfortável e excessivamente perturbadora. No entanto, esta segunda parte vem antes arrastar-nos para um universo ainda mais profundo de ligações que se desenham por entre possibilidades intrigantes em jatos de vómitos de erudição ainda em maior escala. É um volume que nos leva por entre uma espiral interminável de ligações subliminares e, apesar de Joe se manter fria e amarga, e ainda que este volume tenha alguns episódios que envolvem mutilação e violência sexual, em momento nenhum sentimos que nos são injetadas aquelas doses cavalares de violência das quais ficámos, é certo, à espera. O gradual isolamento da personagem enquanto ser humano social e a sua incapacidade de assumir uma maternidade plena são os fios condutores deste segundo capítulo e, ainda que o foco de intensidade se concentre em cenas que nos reviram o estômago de uma forma suficientemente propositada, não sentimos que tenhamos de nos prevenir por aí além de danos morais ou psicológicos que possivelmente possam decorrer destes apontamentos sádicos, porém ligeiros.

Imagem 3

Este “Ninfomaníaca” é intenso, e requer tempo e disponibilidade para ser consumido. Mas não lhe reconhecemos os níveis de profundidade de “Anticristo” (“Antichrist”), não nos queima no sexo com a luxúria de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” (“La Vie d’Adèle: Chapitres 1 et 2”) e não nos leva a condenar a inércia do olhar e o voyeurismo como consegue “Um Estranho no Lago” (“L’Inconnu du Lac”). Não há qualquer espetacularização do sexo e o plano pornográfico, esse, nem se lhe sente o cheiro.

YouTube Preview Image

Este é um filme erudito sobre a sexualidade no qual aprendemos que o segredo para o melhor sexo é o amor, e que talvez o sexo possa ser a principal fonte da vida, caminhando portanto, de mãos dadas com a morte. É um filme que impõe respeito, assim como impõe a abordagem sobre o sexo que nos é proposta, mas esperava-se-lhe mais. Talvez tenha sido do marketing que antecedeu a estreia já que, desse, não se podia ter pedido muito mais.

Siga-nos aqui:

Tags: ,


About the Author



Back to Top ↑
  • PUB

    “Muvi2017”

    “Veracity”

    “VeraMarmelo”

    “MadeofThings”

  • Facebook

  • Fevereiro 2014
    S T Q Q S S D
    « Jan   Mar »
     12
    3456789
    10111213141516
    17181920212223
    2425262728