Festmag

Música

Published on Fevereiro 24th, 2014 | by Paulo Pereira

Reportagem: Resurrection Fest / Tour of Chaos

No passado dia 13 a República da Música apresentou um concerto com um alinhamento que é o sonho molhado de qualquer adepto de música extrema – as lendas vivas (mais de 30 anos de carreira cada…) do grindcore (Napalm Death), os – também – sobreviventes do punk-rock original (Exploited) e ainda os Hatebreed, a celebrar 20 anos de existência no espectro do metalcore ou, como os próprios dizem, “Celtic Frost hardcore” – aos quais se juntaram os lisboetas Primal Attack, a promover o seu álbum de estreia, “Humans”.

O evento foi um sucesso, com prestações intensas das bandas e com uma sala a rebentar pelas costuras como nunca antes tinha visto. Infelizmente, as condições do espaço (sobrelotado?) limitaram a devida fruição dos concertos. O calor era demasiado, assim como a humidade e o fumo. A excessiva concentração de pessoas tornava o ambiente claustrofóbico, sendo muito difícil a movimentação para onde quer que fosse, e sentia-se a noção de estar em perigo. Muita gente, incluindo este vosso escriba, sentiu-se (mais ou menos) mal no decurso dos concertos. E não há nada mais perigoso que passar mal num “mosh-pit” – a rever pela organização em eventos futuros.

Não tendo chegado a tempo da atuação dos Primal Attack, o serão para mim começou pela melhor parte (sim, aqui não consigo ser imparcial), ou seja, pela atuação dos Napalm Death. Veteranos tanto da cena musical em geral como de atuações em Portugal em particular, foram iguais a si próprios e não deram tréguas do primeiro ao último instante dum concerto ultra-agressivo – elogio, sentido elogio…

Aos primeiros acordes de “Silence Is Deafening”, instalou-se o caos que se manteve durante as atuações de todas três bandas, com “mosh” valente e à bruta à boa maneira dos anos 90; para além dos (ainda) costumeiros momentos de “slam dance” e “stage dive” (os “circle pits” do Inferno estavam reservados para a atuação de Hatebreed…) assisti à ressurreição da catapulta, movimento no qual um elemento do público se coloca de costas para o palco, une as mãos e convoca um segundo elemento para que venha em corrida e ponha um dos pés nas ditas mãos para que estas o projetem no ar voando em direção ao palco.

Ainda que com um som muito deficiente de início (na referida canção o microfone do vocalista começou por estar demasiado baixo e o do guitarrista desligado, o que impossibilitou de todo que se ouvissem os gritos da “bruxa histérica”, ou como me refiro ao falsete gritado de Mitch Harris), a performance da banda a todos conquistou, rasgando sorrisos em muitas caras feias que ali estavam, claramente, a matar saudades. “– Estás-te a vir?”, perguntou um a outro. Não estava, ainda que o parecesse, e não me parece que fosse relevante estar a ouvir uma canção sobre liberdade sexual (“Errors In The Signals”) na altura em que lhe foi feita tal pergunta.

Com um alinhamento que ignorou quase por inteiro a sua colheita da década de 90 (excepção feita a “Breed To Breathe”), foi com clássicos como “Unchallenged Hate” (que provocou uma reacção impressionante por parte da audiência) ou “Suffer The Children” que se atingiram os picos de intensidade duma atuação devastadora. Como ficou evidente no “triplete” final, verdadeiramente épico: ao clássico “Scum” seguiu-se “You Suffer”, a mítica canção de 2 (?) segundos e, para acabar em beleza, a versão de “Nazi Punks Fuck Off” dos grandes Dead Kennedys.

Entre este e o concerto que se seguia fui reconhecido por alguém que veio ao meu encontro abraçar-me e dizer o seguinte, com um sorriso de orelha a orelha: “Isto hoje é para punks da velha guarda!”

De seguida vieram os Exploited, instituição punk britânica sobrevivente dos anos 70 que nunca parou de espalhar a sua mensagem de revolta. Agora, com álbum novo e com uma formação que só mantém o líder incontestado Wattie Bucham, coadjuvado por elementos que se juntaram à banda já no séc. XXI (um dos quais, o guitarrista, com curiosas parecenças com o vocalista de Monster Magnet), regressaram para um concerto que fã nenhum irá esquecer… ainda que por maus motivos.

Novamente problemas de som, aos quais não terá sido alheio o facto da banda não ter tido tempo para fazer o “soundcheck”, não estavam a impedir que o público entrasse em delírio ao reconhecer clássicos duma vida como “Dead Cities” ou “Beat The Bastards”. O som cru e agressivo da banda impulsionava o público em dança desenfreada mas depressa se suspeitou de que algo se passaria com o vocalista Wattie que, em completo contraste com o enérgico e comunicativo baixista Irish Rob, estava apático, de olhar vítreo, a cantar aparentemente em maior e maior esforço e praticamente sem se dirigir ao público.

Chegado o momento do clássico maior “Sex And Violence” são chamados a palco fãs para cantar a letra (as mesmas três palavras do título) enquanto Wattie se ausenta do palco. Já com o vocalista de regresso ainda houve tempo para “I Believe In Anarchy” antes do momento da noite (infelizmente): a banda começa a tocar, Wattie canta a primeira quadra, cala-se, curva-se para a frente, acocora-se. A música pára, o baterista apressa-se a ir ao microfone avisar que o vocalista está “fucking ill” e precisa ir para o hospital. Tinha tido um enfarte. Veio-se a saber mais tarde que tinha sido o 2.º em 48 horas…

YouTube Preview Image

Depois duma espera maior que o previsto e com os níveis de desconforto (o calor, o tal calor…) a atingir os limites do insuportável, eis que sobem a palco os (únicos) americanos (da noite) Hatebreed – que não demoraram a mostrar ao que vinham.

Confesso que foi com surpresa que os vi ser cabeças de cartaz dum alinhamento que tinha dois pesos pesadíssimos como Exploited e Napalm Death, mas admito que não desiludiram. Aliás, a sua entrada em palco (as três primeiras canções) foi poderosíssima e os “circle pits” por esta criados foram simplesmente impressionantes.

“This Is Now” ou “Fight For This” são exemplos de canções que mantiveram os níveis de adrenalina no máximo no decurso de uma atuação que terá pecado pela repetição. Sendo os Hatebreed bons naquilo que fazem (e bons comunicadores também, na figura do seu “frontman” Jamey Jasta), o problema é que o que fazem, mesmo que bem feito (tocado), acaba por se tornar repetitivo. Não obstante, “Burn The Lies” (dedicado a Wattie e com uma piada ao rei do “punk escatológico” GG Allin na introdução) e, a fechar, “Destroy Everything” (entre outras) são boas canções de metalcore que não nos permitem manter o corpo estático.

Balanço final dos concertos: muito bom. Balanço final do festival em si: sofrível…

Tags: ,


About the Author



Back to Top ↑
  • PUB

    “Curtas Vila do Conde”

    “FMM Sines”

    “VeraMarmelo”

    “MadeofThings”

  • Redes sociais

    Facebooktwittergoogle_plusyoutubeinstagram
  • Facebook

  • Fevereiro 2014
    S T Q Q S S D
    « Jan   Mar »
     12
    3456789
    10111213141516
    17181920212223
    2425262728