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Música

Published on Março 13th, 2014 | by Paula Lagarto

Reportagem: Não há uma sem duas e que venha a terceira com Blixa e Teho

Quem não quis (quer) ver o mesmo concerto duas vezes, meta o dedo no ar. Eu quis e repeti a presença no espetáculo que junta o alemão Blixa Bargled e o italiano Teho Teardo.

A estreia em Portugal do trabalho da dupla aconteceu em Leiria, no ano passado, e entrou imediatamente na lista de melhores concertos do ano e, acrescento eu, da minha vida.

Mesmo depois da atuação em Lisboa, nesta quarta-feira, volto a meter o dedo no ar para mostrar que repetiria a experiência dada pelo incontornável protagonista dos Einsturzende Neubauten e dos Bad Seed e do incansável Teho.

Imponente em todos os sentidos da palavra, Blixa subiu ao palco do teatro Maria Matos com um cavernoso “good evening”.

Vestido integralmente de negro iniciou o espetáculo/concerto/performance (são opções que não pedem para riscar o que não interessa por serem todas são válidas) na língua materna, com Nur Zur Erinnerung, com os sons melódicos, mas também minimais do guitarrista Teho Teardo e da violoncelista Martina Bertoni.

Por esta altura, as condições em palco não estavam agradar ao alemão, que mostrava a cara de desagrado. E, aqui vai mais um apontamento pessoal, a memória de Leiria não me deixava parar de fazer comparações e estranhar que Blixa não se mostrasse tão entregue e comunicativo a um público ávido de si.

Os sons guturais e onomatopaicos, assim como a teatralidade de gestos, cresceram na canção “Still Smiling”, na qual é impossível não lembrar o personagem Gollum do Senhor dos Anéis, que anseia pelo “my preciousssss”.

Pela quinta canção, mais coisa, menos coisa, Blixa verbalizou um obrigado, em português, e um “you know we love you” (ou seja, em português,: vocês sabem, nós adoramo-vos).

Ao trio em palco juntou-se o Quarteto Lopes-Graça, um nome que para um nativo da língua alemã provou-se muito difícil de pronunciar. Era altura da primeira novidade em relação a Leiria: a interpretação do “Empty Boat”, escrito por Caetano Veloso.

Blixa já tomava conta das pausas entre músicas para relatar histórias verdadeiras, ou nem por isso, sobre a composição. Começou por “Come Up and See me”, cuja letra foi escrita entre Roma e Berlim, provavelmente, segundo o próprio, com uma bebida cujo nome em alemão sou incapaz de repetir.

Com a ‘performance’ extra de humor, os sorrisos já eram uma constante na assistência, que no final da música brindou os artistas com a primeira ovação prolongada.

Seguiu-se o “Alone with the moon”, um embalo melódico e quase meloso na interpretação para depois se repetir mais um momento de criatividade no discurso do alemão, sobre a criação do “A Quiet Life”.

Arrancando gargalhadas ao parceiro Teho, que era também ‘maestro’ em palco, Blixa relatou a inspiração numa história de um mafioso italiano, que para fugir à vida criminosa se mudou para subúrbios germânicos e ali abriu uma pizzaria.

O ‘encore’ não surpreendeu quem tinha estado em Leiria, mas não deixou de ser deliciosa a interpretação, com o enriquecimento dado pelo quarteto português de cordas. Em palco estava uma versão italiana de um sucesso dos anos 60, mas não conto mais para não ser ‘spoiler’, mas aconselho uma consulta no youtube por Patrick Samson ou ‘Solo si muore’. Mais não digo.

Blixa ainda teve tempo de usar o lugar-comum de “nesta altura diz-se que este é um tema do novo álbum” e contou que, no seu primeiro computador, tinha uma lista de palavras que queria usar, como a que dá título à música “Defenestrazioni”.

O último momento foi marcado pelo lado mais bem-humorado do alemão, com a história (sim, já conhecida desde Leiria) que o ideal era o ator William Dafoe, vizinho de Teho, ou o Richard Attenborough dar voz a uma melodia.

E porquê a cara conhecida dos programas de natureza da BBC? Porque a letra ‘wikipédica’ da canção que encerrou o concerto relatava o ciclo de vida das enguias.

Numa outra nota pessoal, garanto que só podem existir dedos no ar para as pessoas que não foram nem a Leiria, nem ao Maria Matos porque não sabem como a vida das enguias pode ser tão interessante.

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