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Música

Published on Março 5th, 2014 | by Bruno Perdigão

Reportagem: Warpaint na Aula Magna (01.03.2014)

A 1 de março fomos brindados com a visita das Warpaint, na Aula Magna, em Lisboa, coletivo de rockeiras indie com um sub-tom psicadélico.

Com uma sala quase cheia – pouco faltou, não fosse a chuva e o vento teimar em aparecer e manter a léguas os mais caseiros -, as Warpaint entraram em palco para nos presentearem com uma sonoridade indutora de transe.

Quatro amazonas esguias juntam-se para nos levar pelos sons da sua floresta musical. Por entre as gotas de orvalho que cintilam e o nevoeiro tétrico, a vocalista (Emily Kokal), Theresa Wayman (guitarra e vocais), Jenny Lee Lindberg (baixo e vocais) e Stella Mozgawa (bateria e teclados) entregam-se à sua arte como se de um amante se tratasse.

Quase enroladas pelos microfones, as primeiras músicas surgem do último álbum – “Warpaint” -, falamos de “Keep it Healthy” e “Hi”. Não há como negar que há ali um estilo inconfundível (um certo grunge hollywoodesco) e uma sensualidade arrebatadora na forma como se apresentam.

Sempre no mesmo ritmo compassado, como que já em nirvana, dão-nos a ouvir “Composure”, de “The Fool” (2010). Numa das poucas vezes em que se dirigem ao público, incitam-no a levantar-se e a disfrutar dos seus ritmos com todo o corpo mas «sem pressão/no pressure», diz Jenny Lindberg. Nesse momento grande parte da audiência levanta-se das cadeiras e os corpos começam a balançar como folhas ao vento ao som de “Feeling Alright”.

A indulgência musical com que nos premeiam vai-se conjugando com uma certa ausência metafísica da parte das raparigas de Los Angeles, criando uma aura de despego, muito típica deste tipo de sonoridade, que leva alguns a chamar este género musical de shoe gaze (porque se dança de olhos postos no chão).

A plateia rejubila quando o quarteto apresenta “Love is To Die”, e o que mais se ouve na sala são os gritos agudos das fãs e dos fãs. No entanto, estas moças não trazem particularmente nada de novo à cena musical e a sua música, apesar de levemente inebriante ou até encantatória, não produz nenhum êxtase, nem deixa os pelos dos braços eriçados, o que é sinónimo de que a música está a cumprir o seu objetivo.

Não se colocam aqui em causa as suas qualidades vocais, a sua harmonia em palco e, no fundo, a sua técnica. Questionamo-nos se, efetivamente, alguma vez irão conseguir sair do registo melancólico, muito anos noventa, que não é novo, e que não faz nem o corpo, nem a mente sair do transe para onde nos levam inicialmente.

E é desta forma, uma fogueira a meio gás, que nos dão a mão e nos levam pela sua estrada musical, passando por “Biggy”, “Billie Holiday”, “Drive” e “Disco//very”, mas sem nunca olhar o público nos olhos. As quatro meninas despedem-se com “Disco//very”. Este foi, de acordo com o que nos disseram, o último concerto de uma digressão de sete semanas. Alguns minutos (bastantes) após terem deixado o palco e após os apelos emocionados da plateia, elas voltam para um encore, já bem definido, que nos apresenta “Baby”, “Bees” e “Elephant”.

“Baby” faz parte do primeiro LP “The Fool” e é uma melodia doce, carinhosa, ao qual é retirada a percussão das restantes canções. Apenas Emily Kokal regressa para esta música e faz uma pequena referência a Patti Smith, com um corta e cola de um dos versos de “Because the Night”. As outras três norte-americanas juntam-se no final e terminam a noite com “Elephant”, de “Exquisite Corps”.

No seu todo foi um bom concerto, mas foi também um concerto que nos deixa numa latência, no espaço-tempo, à deriva, algures, à procura da saída do transe de que falávamos.

A banda formou-se em 2004, composta inicialmente pelas amigas de infância Emily Kokal e Theresa Wayman, por Jenny Lee Lindberg e pela atriz Shanny Sossamon.

Desde a formação até 2007 tocavam na terra natal – Los Angeles – e criavam as canções que iriam fazer parte do seu primeiro EP. Em 2008 lançaram por conta própria “Exquisite Corps”, disco que viria a ser relançado posteriormente pela editora atual, a Rough Trade Records. Em 2010 lançam “The Fool” e em 2014 “Warpaint”, que nos apresentaram agora em concerto.

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