Festival de Curtas Mas Sorrer: os meses e os dias
«216 Mois» dos canadianos Frédéric e Valentin Potier ganhou o Festival Internacional de Curtas Metragens de Mas Sorrer (Catalunha) de 2014. Com justiça, já que era também um dos nossos favoritos. Tratava-se da nona edição do evento, designada 8 ½ em homenagem a Fellini, e também assolada por um agosto de temporais.
Ao longo dos anos, um festival vai-se consolidando, ganhando renome e impondo o seu conceito e as suas datas no calendário cultural. Este é indesmentivelmente o caso do Festival Internacional de Curtmetratges Mas Sorrer, que começou há nove anos atrás nas imediações da pequena vila de Gualta, uns 100km ao norte de Barcelona.
Este ano teve lugar entre 22 e 25 de agosto e foi diferente do habitual por várias razões. A primeira, porque os organizadores o queriam. Homenagearam Federico Fellini (faleceu já lá vão duas décadas) designando esta edição com a 8 ½, sendo em realidade a nona. E em lugar duma convocatória aberta avaliada por um júri, foram convidados a apresentar filmes apenas cineastas que já tinham participado nas edições anteriores do evento. O público ficou encarregue de decidir quem eram os melhores, através de votações no final das sessões.
E os espectadores tinham critério, delegando, justamente, o primeiro prémio a «216 Mois» (216 meses), uma película dirigida por Frédéric e Valentin Potier, respectivamente pai e filho e que trabalham entre França e o Quebeque. O parentesco aqui não é em nada inocente, já que o guião tem como tema central precisamente a família, a natureza e o peso das suas relações. Tecnicamente perfeito, mostra-nos uma cantautora que ganha a vida – e bastante sucesso – simulando que tem incríveis dotes de ventríloqua, quando na verdade a segunda voz é a do seu próprio filho, que continua no útero ao cabo de 18 anos. Naturalmente, a situação é tão surrealista como metafórica, colocando-nos temáticas como sejam o hiperproteccionismo, o aproveitamento utilitarista que os familiares podem exercer uns sobre outros e também a tendência natural para cortar laços e… cordões.
Tudo bem, menos o tempo
Os assistentes premiaram ainda no segundo e terceiro lugares, respetivamente, «Spider» de Nash Edgerton (Austrália) e «Venga Monja Pepe Popi» de Carlos Vermut (España). A australiana é uma tragicomédia habilíssima sobre como os mal-entendidos e as brincadeiras fora de lugar podem ser uma mistura explosiva. A espanhola opta por um registo de falso documental para criar uma sátira realista bem urdida. Para o balanço, há que se dizer, também, que a seleção global era de grande nível.
Mas os fatores que fizeram diferente a edição deste ano não estavam todos na mão dos organizadores e do seu excelente trabalho. O Festival Mas Sorrer faz-se em agosto para que podamos desfrutar do calor das noites, ao ar livre, no recinto de um bar homónimo, onde normalmente há concertos de jazz e folk de autor, um espaço enorme e com várias esplanadas (bastante requintado e exclusivo, basta dizer que a entrada para cada sessão, de aproximadamente 1 hora, custava uns módicos 12€…). A ideia é que os assistentes se regozijem com os seus cocktails vendo as projeções estirados numa agradáveis cadeiras de praia, sob as estrelas. Este ano, contudo, o estranho verão que estamos a ter obrigou a mudar as datas de algumas sessões, por chuva. E quando finalmente se levaram a cabo em vez da manga curta e das bermudas, o pessoal teve mesmo que abrigar-se com casacos e mantas.
Enfim, esperemos que para o ano volte o bom tempo… porque o bom cinema já o temos garantido.
Fotos: Anna Otero



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