Cinema e TV

Published on Dezembro 9th, 2014 | by Inês Henriques

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Entrevista: Karim Aïnouz, o realizador que «queria falar do risco»

Karim Aïnouz é um cineasta brasileiro que está em foco na 18.ª edição do Festival de Cinema Luso-Brasileiro, que se realiza de 7 a 14 de dezembro em Santa Maria da Feira.

“Praia do Futuro” abriu o Festival de Cinema Luso-Brasileiro, no passado domingo, com o auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira cheio. O realizador, tantas vezes premiado neste festival, que comemora agora a maioridade, conseguiu, pela primeira vez estar presente. Filme forte, sobre «coragem, sobre risco», é, ao mesmo tempo, de uma extrema delicadeza. Diálogos, poucos, mas os suficientes para acompanharem as ações das personagens, dos planos do filme. Apesar da questão da homossexualidade não ser o tema principal, ainda é tema de debate. Karim Aïnouz não se inibiu nas cenas quentes entre os dois protagonistas, um brasileiro, nadador-salvador, em Fortaleza, e um alemão, apaixonado por motos, numa história de amor que acaba por ser ponto de partida para a questão da saída da zona de conforto para a viver.

A Fest Magazine aproveitou a passagem de Karim Aïnouz por Portugal para falar com ele sobre o filme, sobre a carreira. Em Santa Maria da Feira passam mais quatro filmes seus (“Madame Satã”, protagonizado por Lázaro Ramos, “O Céu de Suely”, “Viajo porque preciso, volto porque te amo” e “O abismo prateado”) e é de aproveitar. Rever a quem seja de rever ou descobrir a quem seja de descobrir. “Praia do Futuro” é esperado no circuito em 2015, talvez para fevereiro.

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Como se caracteriza enquanto realizador? Quem é Karim Aïnouz para quem não conhece?
Fazer cinema foi uma coisa que nunca imaginei… Fui fazendo. Talvez o que me caracterize enquanto realizador seja o facto de os filmes que faço falarem de coisas necessárias para mim, mas também para o Mundo. Questões que preciso colocar para o Mundo. O primeiro filme (“Madame Satã”, 2002), era uma personagem marginal, mas que eu achava importante, era uma figura emblemática da história do Brasil. O meu segundo filme vem de um desejo de falar de personagens femininas, porque eu achava que havia uma escassez de personagens femininas na paisagem contemporânea do cinema naquela época… Esse filme [“Praia do Futuro”, 2014] foi a necessidade de falar de medo e coragem. Por isso eu acho que os meus filmes estão sempre pautados por questões necessárias, não só importantes, e que eu tenha urgência de falar delas. Faz com que os filmes existam.

Quando criou “Praia do Futuro” em que pensou?
Pensei muito fazer um filme sobre coragem. Sobre risco e coragem. O que é se arriscar na vida? O que é deixar tudo para trás e começar de novo. Acho que é um assunto necessário nos nossos dias, acho que vivemos um momento no Mundo pautado pelo medo, pela cautela, e queria fazer um filme sobre personagens que se arriscassem no Mundo. Foi uma coisa que me veio na cabeça. Queria também um filme que falasse de emigração, mas de um outro jeito, de um ponto de vista mais subjetivo. Há emigração que é causada por questões de identidade, por questões sexuais, que é bem diferente da emigração que ouvimos todos os dias. O filme começou muito com a imagem de uma personagem que ficava vendo o mar [engraçado falar disso em Portugal], como uma fronteira do que está pela frente. Sempre tinha essa imagem na minha cabeça de um cara que ficava olhando para o horizonte… Queria falar mais do mar como fronteira, do que como lugar idílico. De alguém que pulasse e aparecesse do outro lado do Mundo. Queria falar dessas três coisas, mas acima de tudo do risco.

Falou-se da questão da homossexualidade no Brasil, porque, de alguma forma, o filme gerou controvérsia, e numa entrevista que deu disse que “polémica era outra coisa”. Aqui a questão do casal homossexual é secundária?
É. Estamos em 2014, acho importante que prestemos atenção em coisas mais sérias. Vivemos uma hora no mundo tão complicada. Estamos em guerra há mais de 10 anos, falamos pouco disso, de coisas mais relevantes. Não sei porque uma história de amor é polémica. É uma pena.

Espera que quando estrear aqui se consiga ver tudo isso que pretendia: coragem, emigração, risco, mais do que a questão da homossexualidade?
Parece que no lançamento, no Brasil, se sequestraram questões mais importantes, mas estamos sempre um pouco à espera. Foi, no fim, um debate bonito. O último ano no Brasil foi pautado por um conservadorismo e por isso é bonito causar esse debate. Por mais que tente evitar é um assunto importante. Teve um debate com os candidatos presidenciais e teve um que fez declarações quase criminosas, de tao homofóbicas. Muito maluco! Depois disso, a página dele do Facebook cresceu 450 por cento de popularidade. Essa reação ao filme foi inesperada, mas é bonito saber que o cinema causa isso, é bacana. Mas há outras questões que não foram discutidas. O filme fica, essas questões um dia serão debatidas. É um país contraditório. Tem a maior parada gay do mundo e ao mesmo tempo, como um artigo que li no Folha, é o primeiro em crimes de ódio sexual. Por isso foi bacana a reação ao filme, jogar essas questões na parede.

Fazer este filme também foi um ato de coragem seu?
A gente nunca pensa nisso, fazendo. Fiquei feliz, por exemplo, hoje a noite [domingo, 7 de dezembro de 2014] foi bem bonito. Abrir o Festival com esse filme também foi um ato de coragem do Américo [organizador do Festival de Cinema Luso-Brasileiro]. É bonito ver que tem ecos, que não é só a nossa coragem, do realizador e dos atores, mas de quem mostra e do público que assiste. O filme fala também da coragem de começar do zero e isso é importante.

Wagner Moura foi a primeira escolha para este filme?
O Wagner é um amigo de muitos anos. Conhecemo-nos na época do “Madame Satã”, porque ele é muito próximo do Lázaro [Ramos, protagonista de “Madame Satã”] e eles tinham feito uma peça que adorei, a “Máquina”, e desde essa época que nós tínhamos vontade de fazer um filme juntos, mas nunca tinha aparecido um papel certo. Aí, quando escrevi o “Praia [do Futuro]”, na verdade não escrevi pensado nele a priori, mas pensei depois: Será que não está na hora de fazer alguma coisa juntos? Mandei o roteiro para ele, ele adorou e fui moldando um pouco a personagem para o ator Wagner Moura. Foi um processo muito orgânico… Um encontro… Acho que no cinema, a relação ator-diretor tem muito isso, é um trabalho de colaboração e com o Wagner foi um trabalho de colaboração, de como esculpir o Donato, de quem era o Donato. Havia uma dúvida grande, porque eu queria que fosse um ator de Fortaleza [ndr: a Praia do Futuro existe e fica em Fortaleza, terra do realizador], mas no final ele teve uma sincronia tão grande que passou a fazer mais sentido fazer com ele do que com um ator que fosse de Fortaleza. Aí o Jesuíta veio, que é o ator que faz o papel de irmão dele, e que de alguma forma sanou a minha necessidade de ter um ator que fosse de lá e que falasse do jeito que falamos.

Como autoditada, sente grandes diferenças entre os seus filmes, entre as longas que foi criando ao longo do tempo?
Sinto, porque em cada filme aprendo algo novo. Como não aprendi formalmente a fazer cinema, cada filme para mim é uma aventura nova, não só no sentido do que preciso dizer, mas de como fazer, de como contar, de como narrar. Eu venho de uma tradição não-narrativa, da video-arte, do cinema experimental. Cada filme é um ato de aprendizagem, que me mantém vivo. São filmes impuros, mas em que tento aprender coisas novas.

É a primeira vez que consegue estar presente no Festival de Santa Maria da Feira, embora os seus filmes tivessem passado muito por aqui. Esperava casa cheia? E que reação espera quando o filme estrear no circuito cá?
A reação é impossível de antever, mas fico feliz de estar a mostrar esse e outros filmes num país que tem uma produção cinematográfica que admiro muito. Acompanho o cinema português e quando estava a fazer o meu primeiro filme, era um filme que era para ser um coprodução com Portugal e que acabou por não ser. E foi na mesma altura que descobri o cinema de Pedro Costa e eu sou fã de uma série de autores portugueses que são até um pouco mais novos do que eu, é uma honra poder estar a estrear um filme em Portugal dentro de um contexto cinematográfico que eu acho bem singular no Mundo. Portugal é pequeno mas tem coisas importantes a serem feitas. São dois países que se podiam comunicar um pouco mais, no sentido cultural, de produção artística. Fico curioso de saber como os filmes vão ser recebidos, e principalmente o “Praia”, como vai dialogar com o público.

Ainda pensa encetar uma coprodução?
Na verdade, o segundo filme foi uma coprodução, “O Céu de Suely”. Ganhámos um prémio, o Acordo Luso-Brasileiro. É um país que me inspira muito, mas não tenho nenhuma história que se passe em Portugal. Mas fiquei feliz por ter feito parte de “O Céu de Suely” e ter vivido em Lisboa, ter percebido um pouco o que o país está a passar e é muito interessante o cinema que está a sair de um país que esta em crise. É muito bonito.

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