Entrevista a Alberto Graça: «Criei a história pensando em Lisboa»
Alberto Graça, realizador, nascido em Minas Gerais em 1948, a terra brasileira com um quê de Alentejo, é apaixonado por Lisboa, a “fotogénica”, a cidade com “personalidade”, e saiu pela primeira vez do seu país para filmar. Em 2010, começou a conceber a história de um jovem casal, Marcelo e Beatriz, personagem que dá nome ao filme, imigrado na capital portuguesa. Em 2013, deu-lhe vida. Em finais de 2015, a longa-metragem chega às salas de cinema, brasileiras e portuguesas, assim espera.
A história de Marcelo e Beatriz vai na corrente da imigração brasileira para a Europa. Ele, escritor, ela advogada. E é na busca dele por um tema para um novo romance que se desenvolve a narrativa. Quando ele se decide pelo ciúme, Beatriz decide construir uma personagem que despolete a criatividade do marido e que vai acabar por extravassar as páginas do romance. A Fest Magazine falou com Alberto Graça sobre este seu projeto que tem muito de Portugal.
Por que escolheu Lisboa para o cenário dessa história e como foi filmar aqui? Muitos falam da luz da cidade, é verdade?
Lisboa esta ligada à nossa vida há 500 anos. Tenho muito carinho pela literatura portuguesa, li muito Eça [de Queiroz] quando era muito jovem. Tive oportunidade de conhecer Lisboa com 20 e pouco anos. Lisboa tem sido uma referência na Europa. Depois há o pensamento, a herança. Eu sou mineiro e Minas Gerais é um estado muito mediterrâneo, tem muito de Alentejo; há uma familiaridade, muito presença.
Lisboa é lindissima, com as sete colinas, o bonde [elétrico], sempre me encantou essa personalidade de Lisboa. E a luz existe mesmo! Até comentei isso, em forma de brincadeira, se o nome viria de Luz boa?! Ela fica muito fotogénica, mesmo nas altas luzes, que são muito difíceis, mesmo assim ela responde. Tem uma maneira de se posicionar. Foi um prazer.
Quando criou a história, Lisboa já era o cenário definido?
Criei a história pensado em Lisboa, foi concebida para isso. A linguagem, a harmonia, um casal jovem deixando o Brasil para ir para Portugal, nessa lógica de imigração. Lisboa virou uma espécie de personagem. Os brasileiros gostam de Lisboa. De cada vez que assisto ao filme me dá uma saudade de ir, de ver como está bonito. Estou muito satisfeito.
Vários atores portugueses entram no filme, como foi trabalhar com eles?
O elenco português é maravilhoso. O Luís Lucas, a Beatriz Batarda, a Margarida Marinho… Morria de vontade de trabalhar com eles. A Marinho é de uma delicadeza… O Luís também criou uma personagem de delicadeza e a personagem dele criei baseado num familiar, é um sentimento muito emocionante. Fiquei tocado com o trabalho. A Batarda é incrível, uma graça, uma harmonia de pessoa. Depois há a questão da língua, da proximidade. Fizemos exercício interessantes, para não comer vogais [Alberto Graça dizia que os lisboetas têm por norma comer as vogais], trabalhando muito nas pausas, reconquistando as linguagens para não ficar estranho ao público brasileiro. Depois também houve a equipa portuguesa, pequena, mas muito eficiente, foi importante ver como os vários departamentos se integraram e cooperaram. Em média no Brasil são 80 pessoa, aí trabalhei com 34. Foi um filme em família.
Elogiou bastante a Marjorie Estiano [atriz que dá vida à protagonista Beatriz], dizendo que ela “consegue um tom cotidiano nas falas poéticas”, ela foi sua primeira escolha?
Fizemos um casting, a Marjorie foi no teste e foi de imediato. Ela entendeu a personagem, me deu a personagem e não deixou dúvidas.
O filme está previsto para estrear no segundo semestre de 2015. Quando vai estrear em Portugal?
No final segundo semestre, no final de maio, iremos iniciar um périplo pelos festivais da Europa, América Latina. Será um lançamento diferenciado. O mercado de edição no Brasil está em crise. As comédias têm resultado, mas o resto fica aquém do esperado. Esse filme é mais autoral, mais de nicho, é mais complicado. Tem de ser bem planeado. Os europeus estão mais acostumados. No caso de Portugal, irá estrear em simultâneo com o Brasil.
Como se define enquanto realizador, para que desse lado quem não o conhece possa conhecer?
Eu vou na linha Nouvelle Vague, na inteligência de Antonioni. Na plasticidade, sou muito cioso, tenho uma grande preocupação com o enquadramento, isso me fascina. Acho que é uma coisa que vem do cinema do Antonioni.
Mais informações em: https://www.facebook.com/pages/Beatriz/921916627841227?sk=timeline



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