Cinema e TV

Published on Abril 16th, 2015 | by Inês Henriques

2

Entrevista no FESTin: “Apneia”, quando Sophia inspirou Eça

«Quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que não vivi junto do mar». Foram os versos que inspiraram o realizador brasileiro Maurício Eça na sua primeira longa-metragem.

Maurício Eça, 45 anos, sentou-se na sala Manoel de Oliveira, no São Jorge, para assistir à estreia fora do Brasil do seu ‘bebé’ “Apneia”. Não muito cheia, mas mais do que se esperaria para um filme de nicho a meio da semana. “Esse Eça tem alguma ligação ao nosso Eça de Queiroz?”, perguntei, no final do filme, durante a entrevista. “Ah não! Mas descendo de portugueses… Da Inês de Castro”, disse-me o realizador brasileiro, que não terminou aqui as ligações a Portugal.

Foi uma viagem a Lisboa, em 2007, que lhe apresentou Sophia, a poetisa do Mar, sempre o Mar, onde se chega e de onde se parte, onde tudo começa e acaba. “Apneia” trata isso: começos, finais, renovações, revolta, calmaria. Tem momentos leves, de risada pura, e tem outros de fazer o coração parar, os músculos contraírem-se, numa revolta interna, visceral. Momentos em que apetece entrar no filme e voltar a ser louco.

A Fest Magazine aproveitou a passagem de Maurício Eça pelo FESTin para falar sobre o seu ‘primogénito’, a que se dedicou durante seis anos, depois de muitos anos no meio publicitário e filmando videoclipes.

Inspirou-se num poema de sofia?
As coisas são aleatórias na vida e é engraçado que são ensaios, coisas que aparecem e a gente sente e depois vai unindo. Na verdade, eu tinha vindo sozinho a Lisboa no começo de 2007, fui ao Oceanário, que me encantou, e aqueles poemas todos de Sophia [de Mello Breyner Andresen], que eu não conhecia, não conhecia o trabalho dela… Comprei o livro e fui ler esse poema especifico. E nesse mesmo ano eu comecei o projeto do Apneia e foi um projeto que demorou quase seis anos e o roteiro mudou muito nesse processo. Tanto que o poema dela estava em vários tratamentos do roteiro e encerrávamos sempre o filme com esse poema. Não sei porquê no final não pus… (risos).

Não se lembra do porquê?
Não… Na verdade o sentido que o poema dá é muito forte e talvez eu achasse que as pessoas poderiam interpretar como morte. E na verdade várias pessoas acham que a Cris morre. Que ela morre e que aquele final é um delírio. Eu queria que o filme tivesse essa coisa aberta, que as pessoas pudessem interpretar o que é esse filme mesmo. Talvez por isso eu não quis dar a poesia.

Para si há um final?
Para mim, eu acho que as coisas repetem-se. É dificil dizer… Eu nunca quis ter moral, moralizar com esse filme. Quis mostrar a realidade mais crua possível. Sempre imaginei que era um filme sobre tédio, sobre ausência, sobre falta de limites, falta de regras, falta de perspetiva, mas no final, no processo, ia ser um final sobre pessoas que querem ser amadas. Nesse sentido, o filme retrata um pouco isso. São meninas que querem ser amadas, muito parecidas, mas ao mesmo tempo muito diferentes. Elas querem ser amadas, admiradas, pertencer a esse lugar. Eu escolhi esse recorte de contar sobre a classe alta, pouco contado no cinema, esse vontade de retratar esse tédio, uma classe que às vezes tem tudo, grana, mas que tem a ausência de pai, de limites, de pode, não pode. Mas é um filme universal, sobre qualquer classe.

E porquê “Apneia”? Há uma certa letargia nelas?
É a falta de respiração. A metáfora que eu faço com a Chris (Marisol Ribeiro) é que ela a parada respiratória dela significa fazer as coisas sem pensar, sem sentir. A Chris sofre de apneia do sono, ela não quer dormir para não poder ter que se deparar consigo mesma, com o passado, com a mãe, com a água, com a praia, com momentos felizes que ela não tem mais. Ela está sempre num estado meio que catatónico.

E é ocasional a escolha por três protagonistas femininas?
Esse é um filme muito feminino, escrito por um homem, dirigido por um homem. A escolha por três mulheres tem muito a ver com a fragilidade, com vivermos num mundo muito machista. Queria mostrar o quanto elas podem tudo, querem tudo, mas não sabem o que querem. Tentei que o filme fosse feminino. Fotografia mais delicada, câmara mais estática, a banda sonora é com músicas de mulheres…

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=KCbTq-SARhE[/youtube]

O filme já estreou no Brasil, como foi a reação?
Esteve 12 semanas em cartaz. Foi um lançamento pequeno. O Brasil está passando por um momento de produção muito forte, virámos indústria, mas estamos lutando para não haver só um género, que é a comédia. Foi bonito estar 12 semanas em cartaz. Tive elogios, feliz. Fiz o lançamento oposto. Normalmente vou para os festivais e só depois em cartaz. Só agora estou indo nos festivais.

Esta pode ser uma porta aberta para o seu cinema chegar a Portugal?
Aqui foi a primeira vez com um filme, gostei da reação, uma sala acolhedora, algumas pessoas elogiaram no final, acharam denso, forte. Quem sabe, adoraria. Com televisão ou outra coisa, abrir o mercado aqui.

Siga-nos aqui:
error

Tags: , , , , ,


About the Author



2 Responses to Entrevista no FESTin: “Apneia”, quando Sophia inspirou Eça

Back to Top ↑