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Música

Published on Julho 12th, 2016 | by festmag

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Amplifest | Arco íris sonoro com SUMAC, Sun Kil Moon e Mamiffer no Hard Club

O Hard Club recebeu no passado sábado mais uma Amplifest Session, uma noite especial com as estreias em Portugal de SUMAC e Mamiffer e o regresso dos Sun Kil Moon de Mark Kozelek. As receitas do evento reverteram na totalidade para a Liga Renascer, instituição de solidariedade social sem fins lucrativos.

Foi uma noite especial no Hard Club pois não só a ementa musical era de exceção, como o conceito do evento era de sublinhar, uma vez que as receitas da noite revertiam na totalidade para a Liga Renascer, que tem como principal objetivo combater a exclusão social e a desigualdade de oportunidades através de atividades de caráter humanitário e social direcionadas a famílias carenciadas, seniores e crianças.

Como tal fez todo o sentido iniciar a noite com os Mamiffer que produzem uma música algures entre uma sonoridade mais experimental (com Faith no órgão e sintetizadores, Brian Cook no baixo e Aaron Tuner na guitarra) e uma outra mais etérea, pacífica, com a voz celestial de Faith Coloccia em destaque.

Faith é a parceira de Aaron Turner – a mente por trás dos incontornáveis Isis – na música, com quem forma os Mamiffer e na vida, com quem terá um filho em breve. Foi devido a esse facto, que a Amplificasom pediu aos presentes que não fumassem no interior do Hard Club (algo que a sala usualmente permite), tendo sido refrescante constatar que o pedido foi exemplarmente acatado, não se tendo visto ponta acesa no interior da sala. Vinham à mente erupções vulcânicas em câmara lenta, conseguindo o som arranjar maneira de entrar em nós, alastrando-se lentamente pelo corpo, deixando-nos confortados.

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Depois o único Mark Kozelek tomou conta do Hard Club com o seu projeto Sun Kil Moon, ele que tem uma editora chamada “Caldo Verde”. Já se sabe que não sabe bem com o que contar quando Mark Kozelek está em cima do palco. Por exemplo não foi um tema dos Sun Kil Moon que iniciou o concerto, mas sim “Somehow the Wonder of Life Prevails” disco que editou a meias com Jimmy Lavalle. Às tantas Mark Kozelek – que trouxe Steve Shelley ex-Sonic Youth consigo! – refere que é a primeira vez que está a abrir para uma banda de metal, perguntando o nome do grupo. Alguém grita “Sumac” e daí até ao fim Mark fez questão de gritar SUMAC de vez em quando, perguntando até se seriam coreanos.

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Talvez para se sentir mais entrosado com o público – no entanto pensamos que Mark se está a marimbar para isso – faz questão de dizer que o tema “America’s Most Wanted Mark Kozelek And John Dillinger” foi escrito juntamente com Justin Broadrick, em tempos pertencente aos Napalm Death e aos Godflesh. Interpreta também “Exodus”, dedicada a pais que sofreram com a perda dos filhos, confidenciando que foi escrita em Heathrow quando soube da morte do filho de Nick. Este foi um dos momentos do concerto.

Mark Kozelek tem aquela postura como se tivesse sido convidado a cantar numa sala de estar, não se importando se está a cantar para os donos de uma casa senhorial ou se para as empregadas da limpeza. O público, obviamente longe de ser o público normal de um concerto de metal como o próprio referiu, apreciou a frontalidade e sinceridade do músico, deixou-se encantar pelas histórias narradas, ao ponto de Kozelek ter-se mostrado agradecido pela plateia respeitosa que estaria ali para ver os Sumac. Trocou-se um pouco quando também agradeceu o facto de estarem no Hard Club quando podiam estar a ver uma das suas bandas preferidas a atuar, referindo-se aos Radiohead que tinham atuado no Nos Alive mas na véspera.

Dedica ainda “Something Stupid”, tema escrito em 1966 por C. Carson Sparks e popularizado no ano seguinte pelo dueto entre Frank e Nancy Sinatra, a uma rapariga que estava prestes a adormecer, interpretando depois um tema sobre o controlo de armas nos E.U.A, inspirada num mass shooting em Orlando, homenageando depois Dimebag Darrell e John Lennon. No encore, quando alguém pediu um tema “old school”, Mark Kozelek recusou-se, dizendo que bandas como os My Bloody Valentine, Ride ou Pixies é que necessitavam de fazer isso. Um fartote portanto. Despede-se tocando a música preferida do pai, “Over the Rainbow”, popularizada por Judy Garland.

Depois uma viragem de 180º graus e uma monumental bujarda sonora, cortesia de Aaron Tuner que voltou ao palco (vocalista e guitarrista nos Isis e Old Man Gloom), Nick Yacyshyn (baterista nos Baptists) e Brian Cook (baixista nos Botch, These Arms Are Snakes e Russian Circles). Faz-se questão de colocar aqui as credenciais dos intervenientes para se ter ideia da quantidade de excelente música que já passou no sangue destes homens, cujas mãos estão habituadas a fustigar sonicamente os corajosos que se metem à frente de tamanha muralha sonora.

Com dois álbuns na bagagem editados em dois anos – “The Deal” e “What One Becomes” – os SUMAC apresentam um elevado ritmo de composição, que continua na excelente prestação da banda, destacando-se o polvo que é o baterista Nick Yacyshyn, com uma atuação incrível, plena de pujança e destreza.

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Se os Isis eram um carro que a alta velocidade percorria estradas sinuosas duma qualquer serra, levando-nos a contemplar a beleza natural fruto dos ambientes sonoros que nos proporcionavam, os SUMAC são mais como uma máquina perfuradora, daquelas utilizadas para fazer túneis em montanhas. A primeira é contemplativa, a segunda almeja destruir tudo à sua volta. Foi sem dúvida uma noite que, por todas as razões, será para mais tarde recordar.

O Amplifest decorre entre 19 e 22 de agosto, podendo os ingressos ser adquiridos aqui. Confiram o alinhamento em baixo.

Amplifest - distribuição por dias

Os nossos agradecimentos à Amplificasom.

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